
Quando Edson Rigonatti pensa no início da Astella, a imagem que vem à cabeça é a de um futebol de várzea com bola de meia. Foi nesse cenário que ele começou a investir em startups, quando o conceito ainda era estranho no Brasil e “empreendedor” nem constava no dicionário. Desde então, tanto o mercado quanto a própria Astella evoluíram significativamente.
Hoje, São Paulo figura entre as maiores cidades de startups do mundo, com empreendedores profissionalizados, times estruturados e uma imprensa cada vez mais atenta. Mesmo nesse ambiente mais maduro, Edson mantém a mesma curiosidade e empolgação pelo ecossistema: conhecer pessoas, aprender e transformar conhecimento em ação continua sendo o que mais o motiva.
Como muitos adolescentes nos anos 1980, ele sonhava em mudar o mundo através da música. Em 2026, esse sonho segue vivo, mas de um jeito diferente: Edson descobriu que a melhor forma de gerar impacto é estar ao lado de empreendedores ousados, capacitados e com recursos para transformar ideias em resultados extraordinários. Ele é sócio e cofundador da Astella, criada em 2008 e hoje referência entre os fundos de venture capital brasileiros.
Nesta conversa, Edson detalha como a Astella se transformou à medida que o ecossistema se estruturava, compartilha sua visão sobre o impacto da inteligência artificial no modelo SaaS e fala sobre liderança, ciclos de mercado e prioridades para 2026. Entre analogias que vão de cavalos e jockeys a futebol e até o Monte Everest, a entrevista revela a experiência de quem está no setor há décadas e segue em busca de novos desafios.
Como foi criar a Astella em um momento em que o conceito e mercado de startups ainda eram incipientes?
Edson Rigonatti: Tomei contato com o ecossistema de startups durante meu MBA na Columbia Business School, em Nova York. Foi a primeira vez que ouvi o termo “venture capital” e achei muito exótico – na minha cabeça só existia Wall Street. Quando me formei, em 1997, fui trabalhar na Lucent Technologies, uma empresa norte-americana que tinha um braço de venture capital, e fiquei nesse grupo por dois anos. Depois, voltei para o Brasil para atuar na área comercial. Por volta de 2007, comecei a perceber muitos empreendedores buscando investimentos, e surgiu o impulso de montar a Astella.
Na época, ainda não existia nem “empreendedor” no dicionário; era só “empresário”. Mas acreditamos que era possível trabalhar com a ideia de empreendedor como alguém que se joga e faz acontecer. Passamos dois anos tentando captar o primeiro fundo, sem sucesso. Em 2010, começamos a investir com capital próprio. Tivemos um pouco de sorte: algumas empresas foram vendidas e obtivemos um bom retorno, assim como os empreendedores. Aos poucos, o mercado foi se formando até chegarmos onde estamos hoje. Começou, digamos, como futebol de várzea com bola de meia e evoluiu para a UEFA Champions League.
Hoje, o mercado é muito diferente: temos empreendedores profissionalizados, times estruturados, torcida organizada e o interesse por parte da imprensa. Quando começamos, basicamente existiam só o Eric Acher, da Monashees, e a Astella. Hoje, são mais de 100 fundos de venture capital, e São Paulo é uma das 20 maiores cidades de startups no planeta. É bonito de ver.
Como a Astella evoluiu à medida que o mercado se estruturava?
ER: Assim como uma startup, tivemos uma longa fase de esforço empreendedor. Nosso “Product Marketing” levou 10 anos para se consolidar, porque investir é um negócio de longo prazo. A primeira década foi meio solitária. Em 2020, começamos a montar um time, e agora a próxima geração já está liderando. É o processo de profissionalização: saímos da família, passamos pela tribo e estamos chegando na vila.
Encontrar um bom negócio é como escolher o cavalo e o jockey. O cavalo representa o mercado, o potencial. O jockey representa o fundador. Essas duas coisas são indissociáveis. É preciso ver um cavalo com chance de vitória e um empreendedor capaz de fazer o que outros não fariam com o mesmo cavalo.
Estamos focados em investimentos pre-seed, seed e até série A. E, conforme a empresa cresce, acompanhamos também estágios mais avançados. Hoje, temos cinco fundos “flagship”, que são os principais, e vários outros fundos que acompanham as empresas à medida que crescem. Atualmente, estamos indo para o décimo fundo.
Criar um unicórnio tem a mesma estatística de escalar o Monte Everest. Requer preparo, dedicação e experiência. Às vezes surge alguém inesperado, que supera todos os desafios e vira sucesso. Mas nós procuramos pessoas com experiência, que já passaram por adversidades e têm estrutura para suportar a subida.
No último mês, muito se falou sobre um possível apocalipse do modelo SaaS, devido ao avanço da inteligência artificial. Como você analisa esse movimento?
ER: O B2B é B2B desde Abraão, e B2C é B2C. Tem coisas que nunca mudam; são sempre a mesma coisa. O que muda é a camada, a casca, a forma de fazer, mas a base continua. Na década de 1990, as empresas compravam licença de software e depois passaram a pagar assinatura. Ainda era B2B, só que em vez de comprar a licença, pagava-se pela assinatura.
Agora, é a mesma lógica: em vez de pagar uma assinatura, paga-se por agentes de IA. O ciclo de venda muda, assim como a forma de pagamento e o unit economics, mas a essência do negócio continua a mesma.
O que ainda te empolga no ecossistema e ao conhecer novos empreendedores?
ER: Adoro estar com pessoas legais, sem precisar discutir política ou câmbio. Gosto de aprender, sintetizar conhecimento e produzir algo novo. É por isso que escrevemos e produzimos conteúdo: é aprendizado constante e criação de conhecimento novo.
Meu maior aprendizado foi deixar de ser a figura central. Antes, tudo dependia de mim; hoje, é o time que faz acontecer. Essa “despessoalização” é o grande desafio. O segundo é não perder o foco ou a tese sem se tornar dogmático. Às vezes eu tropeço, mas tenho um time que me levanta.
Quais são as prioridades da Astella em 2026?
Aprendemos a valorizar a regularidade. Há momentos em que o mercado esquenta, e o mais importante é manter a consistência: continuar conversando com empreendedores e realizar investimentos de forma constante. A segunda prioridade é acompanhar os ciclos de mercado, para não sermos arrastados por eles ou ficar para trás. Hoje, o cenário lembra muito 2013, no boom de apps, ou 2007, no boom de SaaS. Regularidade e atenção aos ciclos são, portanto, prioridades permanentes.
Muita gente ainda acha que o Brasil não produz tecnologia de ponta, mas isso é um equívoco. Comparando São Paulo com cidades como Boston, Salt Lake City, Chicago ou Londres, percebemos que temos inovação de destaque em vários setores.
Outro ponto importante é que tudo o que construímos no ecossistema brasileiro aconteceu sem depender do governo. Em países como China, Israel ou Chile, grande parte do venture capital e das startups depende de iniciativas governamentais. No Brasil, ele nasceu da iniciativa privada. Isso não significa que a participação do governo seja irrelevante, mas é positivo que o ecossistema consiga se sustentar de forma independente.
Raio X – Edson Rigonatti
Um fim de semana ideal tem… Família, esporte e natureza
Um livro que você recomenda: “A Jornada do Herói”, Joseph Campbell
Artista que não sai da sua playlist: Bon Jovi
Uma mania: Ler
Sua melhor qualidade: Ser um bom ouvinte
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