
A primeira empresa de João Tosin terminou em fracasso. Aos 21 anos, o empreendedor acumulou dívidas após tentar trazer uma marca de jeans para o Brasil e passou um período tentando entender por que o negócio havia dado errado. A resposta veio alguns anos depois, durante a faculdade de administração, quando percebeu que nunca havia aprendido conceitos básicos de gestão financeira, como fluxo de caixa. A partir dali, surgiu a inquietação que daria origem à Celero.
Criada inicialmente como um projeto acadêmico, a startup nasceu com a proposta de ajudar pequenas e médias empresas a organizarem sua gestão financeira e ampliarem acesso a crédito. Hoje, a companhia atua como provedora de infraestrutura de dados para pessoas jurídicas, conectando sistemas, informações e operações eficientes para fintechs, instituições financeiras e outros prestadores de serviços.
Nesta edição do 5 Minutos, João Tosin fala sobre os aprendizados após quebrar o primeiro negócio, a influência do fundador da Embraer, Ozires Silva, na construção da Celero e a mudança de mentalidade que transformou sua visão sobre empreendedorismo. O executivo também comenta os planos de expansão da fintech, a relação com a família e os hábitos que procura manter fora da rotina intensa de trabalho.
Confira, a seguir:
Como foi a sua infância e como ela contribuiu para formar a pessoa que você é hoje?
Tive um lar bastante estruturado. Meus pais são professores e trabalharam muito para que nunca faltasse nada em casa. Cresci vendo os dois trabalhando todos os dias. Quando não estavam dando aula, estavam preparando atividades ou corrigindo provas. Decidi que não queria seguir a carreira deles, mas acabei escolhendo um caminho em que trabalho tanto quanto eles: o empreendedorismo.
Na época da escola, eu era um aluno mediano para ruim em termos de nota. Sempre respeitei os professores, naturalmente, mas não me destacava nas aulas. Acho que isso contribuiu para decidir cedo que queria seguir administração e ter minha própria empresa. Estava na oitava série quando percebi que queria empreender.
Minha motivação estava equivocada, porque o meu objetivo era ganhar dinheiro e ser uma pessoa bem-sucedida. Enquanto essa foi a minha principal motivação, as coisas não deram muito certo.
Sempre estudei em boas escolas e meus pais fizeram o possível para que eu acompanhasse meus colegas, mas convivia com pessoas que tinham um padrão de vida muito superior ao meu — e, na adolescência, eu queria muito ter aquilo também. Ao mesmo tempo, meus pais sempre me ensinaram que eu poderia construir a realidade que quisesse, desde que trabalhasse para isso. Eles sempre me incentivaram, então fui atrás.
Na adolescência, tive contato com um projeto chamado Junior Achievement. Fui presidente da empresa da minha escola, uma experiência muito marcante para mim. Eu já tinha tido aulas de empreendedorismo no fim do ensino fundamental e, logo no primeiro ano do ensino médio, surgiu a oportunidade de participar do programa. Foi uma experiência transformadora, que despertou ainda mais meu interesse por empreendedorismo.
Ainda assim, o começo da minha trajetória profissional não foi empreendendo, porque eu não tinha capital para isso. Comecei trabalhando em banco, onde fiquei por três anos. Depois, tentei abrir minha primeira empresa. Não deu certo, mas foi ali que a minha trajetória empreendedora começou de fato.
Qual era o seu momento de vida quando decidiu criar a Celero?
Como comentei, eu já tinha tentado empreender antes. Minha primeira experiência foi trazendo uma marca de jeans para o Brasil, mas acabei quebrando de forma bastante dura. Fiquei endividado aos 21 anos.
Na época, não entendia por que tinha dado errado. Teoricamente, eu tinha tudo o que os livros de empreendedorismo diziam ser necessário: atitude, disposição e vontade de fazer acontecer. Isso nunca me faltou. Ainda assim, o negócio não deu certo. Foi um período muito complicado da minha vida.
Sna faculdade, quando comecei a estudar administração financeira e orçamentária, entendi o que tinha acontecido com a minha primeira empresa. Passei a enxergar onde estavam os erros e percebi que era exatamente com isso que eu queria trabalhar. Foi um momento que mudou a minha visão sobre empreendedorismo.
Mesmo vindo de uma família estruturada, tendo estudado em boas escolas de Curitiba e cursando administração de empresas, eu ainda não sabia o que era fluxo de caixa. Foi quando percebi quantos empreendedores no Brasil também nunca tiveram acesso a esse tipo de formação e acabam quebrando por não saber administrar o próprio dinheiro.
A partir daí, surgiu uma inquietação muito grande em mim e uma preocupação constante com esse problema. Nesse período, encontrei João Augusto na faculdade e tivemos a ideia de criar a Celero. A empresa nasceu em sala de aula, como um projeto acadêmico que depois virou negócio.
Começamos como uma consultoria para pequenas empresas, depois evoluímos para um modelo de terceirização e, ao longo do tempo, conhecemos Pedro Chaves, que entrou como terceiro cofundador.
O que mudou na missão da empresa de lá para cá?
A principal mudança aconteceu na mentalidade do empreendedor que tentou empreender lá atrás para a do empreendedor que começou a Celero. Passei a ter uma visão muito mais orientada a impacto, entendendo o retorno financeiro como consequência desse processo.
Uma referência muito importante para nós foi Ozires Silva. Na minha visão, ele é um dos maiores empreendedores da história do Brasil. Ele criou a Embraer durante o regime militar e conseguiu convencer o governo de que o Brasil poderia construir aviões em uma época em que o país praticamente não tinha uma indústria de base consolidada.
O primeiro contato que tivemos com ele foi em uma palestra na universidade. Ele contou que nem a morte do melhor amigo o fez desistir do sonho de construir aviões. Os dois compartilhavam esse objetivo, ingressaram juntos na aeronáutica, mas o amigo acabou morrendo em um acidente aéreo. Ainda assim, ele seguiu em frente com o projeto.
Aquilo gerou uma reflexão muito forte em mim e no João. Percebemos que não estávamos construindo um negócio apenas para ganhar dinheiro. O que realmente nos motivava era o impacto que conseguiríamos gerar.
Os primeiros clientes da Celero deixaram isso muito claro. Conseguimos ajudar empresas a fazer turnaround, preservar operações e impactar diretamente a vida de famílias que dependiam daqueles negócios. Então começamos a pensar que, se fosse possível ampliar esse impacto em escala, o potencial de transformação seria enorme.
Diferentemente da minha primeira experiência empreendedora, na Celero o dinheiro nunca foi a principal motivação. Ele sempre foi importante, claro, porque toda empresa precisa ser sustentável, mas o foco passou a ser transformar a relação entre pequenas empresas e o sistema financeiro.
Hoje, entendemos que existe um problema estrutural importante no acesso ao crédito para PMEs no Brasil. As instituições financeiras têm dificuldade de avaliar esse público por falta de informação, enquanto as pequenas empresas precisam de crédito para crescer, ganhar fôlego e amadurecer suas operações.
Muitas vezes, não estamos falando de empresas recém-criadas, mas de negócios com três ou quatro anos de operação que já superaram diversas dificuldades e, ainda assim, continuam sem acesso adequado a crédito.
A partir disso, construímos uma solução que gera valor para os dois lados. Queremos ajudar as instituições financeiras a entenderem melhor as pequenas empresas, reduzindo risco e ampliando a capacidade de concessão de crédito. Ao mesmo tempo, queremos que as PMEs enxerguem os bancos como parceiros estratégicos para o crescimento dos negócios.
Acreditamos que, com mais informação, tecnologia e educação financeira, é possível criar um ambiente muito mais saudável para essas empresas se desenvolverem.
No início do ano, a Celero captou uma série A de R$ 15 milhões. Quais são as prioridades da empresa para o próximo semestre?
Ainda estamos em processo de captação dessa rodada. Anunciamos a abertura no começo do ano e ela já conta com Visa e Headline entre os investidores. Nossa expectativa é concluir a rodada no próximo mês.
Para o segundo semestre, o objetivo é ampliar a presença da companhia em três ou quatro novas instituições financeiras, além dos clientes que já atendemos hoje, aumentando a capacidade de impacto sobre as carteiras de pequenas e médias empresas dessas instituições.
Fazendo um paralelo com o que conversávamos antes, a principal mudança em relação ao começo da empresa está justamente na escala. No início, o impacto acontecia de forma muito gradual, empresa por empresa. Hoje, conseguimos atuar em uma escala muito maior, impactando milhares de negócios e, esperamos, em breve milhões de empresas por meio das instituições financeiras parceiras.
Quem é João Tosin fora da cadeira de CEO?
Sou muito ligado à minha família. Ela é minha principal prioridade e, mais do que isso, meu principal pilar. Preciso que minha família esteja bem para que eu também esteja bem. É uma fonte constante de motivação para mim. Tenho uma filha e espero, em breve, aumentar a família. Já temos até um integrante de quatro patas.
Além disso, sou apaixonado por corridas, automobilismo e futebol. Meu time é o Clube Atlético Paranaense.
Acredito que tenho uma vida bastante normal. Gosto de buscar minha filha na escola, participar da rotina dela e ser um pai presente. Mesmo com a agenda intensa e muitas viagens, faço questão de manter essa proximidade. Quero acompanhar o crescimento dela de perto e me tornar um pai cada vez melhor.
Que hábito diário você preserva a qualquer custo?
Gosto de meditar e tento manter esse hábito todos os dias. Mas existe algo de que realmente não abro mão: manter minha proximidade com Deus. Costumo brincar que estou aqui para fazer a minha parte, mas quem realmente conduz tudo é Ele. Essa é uma convicção que faz parte da minha rotina e da forma como enxergo a vida.
Música também é uma parte muito importante da minha vida. Escuto música o tempo inteiro. Inclusive, fui DJ quando era mais novo e ainda brinco de tocar de vez em quando.
Quando foi essa fase de DJ?
Foi entre os 12 e os 18 anos. Meu primo era DJ e eu comecei a aprender muito cedo. Com uns 12 anos, eu já sabia mexer em CDJ e comecei tocando em festas de escola. Aos poucos, fui tocando em eventos maiores — inclusive em algumas festas em que, pela idade, talvez eu nem devesse estar.
Acabou chamando atenção justamente porque eu era muito novo. Em muitos casos, eu tinha praticamente metade da idade do público da festa, então isso gerava uma curiosidade natural. E, aparentemente, eu tocava bem, porque os convites começaram a aumentar.
Foi uma experiência muito legal. Cheguei a tocar fora do Brasil, em países como Argentina e Uruguai. Tenho lembranças muito boas dessa fase.
Raio X – João Tosin
Um fim de semana ideal tem… videogame e momentos com a família
Um livro que você recomenda: “Grow to Greatness”, de Edward D. Hess
Um artista que não sai da sua playlist: Disclosure
Uma mania: ouvir muita música
Sua melhor qualidade: Ser muito curioso
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