
O futuro do trabalho entra em uma fase mais complexa e exigente para as lideranças de Recursos Humanos (RH). Segundo um novo estudo do Gartner, os CHROs passam a ter, a partir de 2026, um papel ampliado na condução das organizações em um contexto marcado pela convivência entre humanos e máquinas, pela pressão por crescimento e por mudanças profundas no pacto entre empresas e profissionais.
O levantamento identifica nove tendências que devem orientar as decisões estratégicas das áreas de RH nos próximos anos. De acordo com a consultoria, o desafio central não está apenas em adotar novas tecnologias, mas em redesenhar estruturas, processos e culturas de trabalho em um cenário onde a inteligência artificial avança mais rápido do que os resultados concretos prometidos.
Uma das tendências destacadas é a antecipação de cortes de pessoal com base em expectativas irreais sobre ganhos de produtividade com IA. Dados analisados pelo Gartner indicam que apenas uma parcela mínima das demissões recentes foi, de fato, motivada por aumento de eficiência proporcionado por sistemas inteligentes. Ainda assim, muitas empresas reduziram equipes apostando em retornos futuros que podem não se materializar, criando o risco de demissões seguidas de recontratações. Para os CHROs, o desafio passa por conduzir esses processos de forma mais humana e, no médio prazo, liderar um “remix de talentos” alinhado à estratégia do negócio.
Discurso cultura versus realidade do RH
O estudo também aponta um descompasso crescente entre discurso cultural e realidade do trabalho. Modelos inspirados em startups, com jornadas extensas, metas agressivas e baixa flexibilidade, vêm sendo adotados sem contrapartidas claras em remuneração ou benefícios.
Esse cenário tem gerado o que o Gartner define como dissonância cultural, com profissionais desengajados permanecendo nas empresas e afetando tanto o desempenho quanto a reputação empregadora. Em 2026, a clareza sobre a proposta de valor ao empregado tende a se tornar um diferencial competitivo.
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Outro ponto sensível é o impacto psicológico do uso intensivo de IA. A consultoria alerta que a saúde mental e a resiliência dos profissionais passam a ser uma responsabilidade direta do RH. O uso inadequado ou excessivo de ferramentas de IA pode gerar efeitos negativos no comportamento, nas emoções e na capacidade cognitiva dos colaboradores. Nesse contexto, líderes de RH precisarão atuar de forma integrada com áreas jurídicas e de tecnologia para prevenir e responder a riscos psicológicos associados à automação.
A obsessão por produtividade individual também aparece como um problema emergente. O Gartner descreve o fenômeno do “workslop”, caracterizado pela produção acelerada de conteúdos e entregas de baixa qualidade, muitas vezes geradas com apoio de IA. A recomendação é redirecionar o uso dessas ferramentas para reduzir esforço, e não apenas tempo, atacando gargalos reais do trabalho cotidiano em vez de buscar ganhos superficiais.
No campo da atração de talentos, a IA transformou os processos seletivos em uma espécie de corrida armamentista. Candidatos usam tecnologia para se destacar, enquanto empresas recorrem a algoritmos para filtrar volumes crescentes de aplicações e identificar fraudes. Para 2026, a tendência é reequilibrar esse jogo, combinando abordagens mais humanas, como avaliações presenciais e testes práticos, com o uso seletivo de IA.
A consultoria também chama atenção para o avanço de riscos internos ligados à espionagem corporativa. Em um ambiente de competição tecnológica e nacionalismo econômico, cresce a preocupação com vazamento de informações estratégicas. O RH passa a ter papel relevante na identificação de comportamentos e motivações que possam representar ameaças internas, atuando em conjunto com iniciativas de segurança cibernética.
Áreas digitais
Outra mudança prevista é a migração de profissionais de áreas digitais para carreiras consideradas menos suscetíveis à automação, como ofícios técnicos e trabalhos manuais especializados. Programas de requalificação e aprendizagem devem ganhar força, exigindo dos CHROs uma visão mais ampla sobre retenção de talentos e construção de novos pipelines profissionais.
O relatório também destaca que o verdadeiro valor da IA não será extraído por especialistas em tecnologia, mas por profissionais capazes de redesenhar processos inteiros. Em vez de focar apenas em habilidades técnicas, as empresas mais bem-sucedidas tendem a priorizar pensamento crítico, julgamento e visão sistêmica na contratação e no desenvolvimento de pessoas.
Por fim, o Gartner aponta um debate emergente sobre remuneração ligada a avatares digitais. À medida que organizações passam a treinar sistemas de IA com base no conhecimento, comportamento e estilo de seus melhores profissionais, cresce a discussão sobre direitos, compensação e uso contínuo dessas “réplicas digitais”, inclusive após a saída do funcionário da empresa.
Para a consultoria, essas tendências indicam que o RH deixa de ser apenas uma função de suporte e assume papel central na estratégia corporativa. Em um cenário de transformação acelerada, decisões sobre pessoas, tecnologia e cultura se tornam indissociáveis.
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