
Alugar um carro ainda pode ser sinônimo de fila, balcão, burocracia e chave. Não para a Turbi. A empresa brasileira nasceu com a proposta de eliminar, por meio da tecnologia, todos os pontos de atrito na experiência de quem precisa alugar um veículo, e conseguiu. Sem lojas físicas, com frota própria e uma operação 100% digital, a Turbi não apenas simplifica, mas também provoca o mercado a repensar o que significa locar um carro.
Por trás da experiência fluida, está uma infraestrutura tecnológica complexa, construída internamente com hardware, internet das coisas (IoT), inteligência artificial (IA) e algoritmos proprietários. O resultado? A menor sinistralidade do setor, a melhor margem da indústria e um modelo pronto para escalar.
O IT Forum testou o app da Turbi em São Paulo e comprovou a promessa: uma jornada simples e eficiente, do cadastro ao destravamento do carro via celular, em um dos mais de 300 estacionamentos credenciados. Revelamos aqui os bastidores da tecnologia que dirige esse modelo de negócio.
Um carro, vários sensores
“A Turbi é uma empresa de tecnologia que aluga carros, não o contrário”, crava Ana Mantovan, Chief Technology Officer da companhia. Com um time de tecnologia que representa entre 30% e 40% dos colaboradores, a empresa desenvolveu um core tecnológico próprio, incluindo software, hardware, IA e infraestrutura, que pavimenta toda a jornada do usuário, da esteira de cadastro ao monitoramento em tempo real da frota.
A experiência começa com um processo de onboarding robusto, que valida identidade por biometria facial, documento de habilitação, score positivo e até registros criminais, com o apoio de APIs externas. “Temos uma esteira de cadastro proprietária, flexível, mas segura. Já trabalhei em fintechs e sei que essa é uma das etapas mais complexas de uma operação digital”, afirma Ana.
Depois disso, tudo segue no digital e o celular vira a chave do carro. O check-in e o check-out são realizados por fotos que passam por uma IA treinada para identificar e comparar possíveis danos. A Turbi também desenvolveu sensores internos instalados nos carros para monitorar RPM, localização, uso do motor e comportamento do usuário, além de rastreadores e bloqueadores de ignição.
“Se o carro entra em uma área de risco previamente mapeada, conseguimos travar a ignição e acionar automaticamente uma régua de contato com o cliente”, explica Ana. Outro exemplo é se o celular do motorista se distancia do veículo, o sistema interpreta que outra pessoa pode estar dirigindo, e bloqueia a ignição como medida preventiva.
Segundo Eduardo Portelada, diretor de Relações com Investidores da Turbi, essa infraestrutura tecnológica permitiu à empresa registrar a menor sinistralidade do setor, fator crítico para uma operação com frota própria e foco em rentabilidade.
A inovação segue acelerando, de acordo com os executivos. Um novo sistema de IA visual, atualmente em fase de testes, permitirá o monitoramento de danos via câmeras instaladas nos estacionamentos. “Estamos posicionando duas câmeras na diagonal de cada vaga para captar imagens em 360º na entrada e saída do veículo”, adianta Portelada.
Crescimento sustentável da Turbi e futuro da mobilidade
Fundada por Daniel Prado e Diego Fischman, dois ex-executivos do mercado financeiro, a Turbi nasceu da percepção de que o setor de locação estava estagnado. Mesmo com gigantes como Localiza e Movida dominando o mercado, pouca coisa havia mudado nas últimas décadas. Inspirados por fintechs como o Nubank, os fundadores resolveram digitalizar o processo de ponta a ponta, com foco em eficiência, escalabilidade e custo de serviço reduzido.
Com uma frota atual de 6 mil veículos e operação concentrada na região metropolitana de São Paulo, a Turbi já é a quarta maior locadora B2C do País. Mas a alta demanda, especialmente nos fins de semana, pressiona a empresa a expandir. “Chegamos a picos de 95% de ocupação. Já não damos conta. A ampliação para novas capitais é inevitável”, afirma Ana.
A estratégia mira cidades com estacionamento privado disponível, uma infraestrutura essencial para o modelo descentralizado da empresa. E, como reforça Portelada, a decisão sobre onde posicionar a frota não é baseada em IBGE ou intuição, mas em dados em tempo real.
A Turbi usa mapas de calor proprietários para identificar os pontos de maior demanda. Se o ponto não performar? Retiram os carros. “Nosso custo de arrependimento é muito menor que o dos concorrentes”, diz o executivo.
Esse modelo também garante solidez financeira. No primeiro trimestre de 2025, a empresa registrou margem EBITDA de 55%, saltando para 60% em março. Agora, a Turbi busca captar até R$ 1 bilhão via equity para escalar a operação. Um número expressivo, especialmente para uma empresa que ainda era deficitária no início de 2024.
A vertical de seminovos também ganha tração. A Turbi Seminovos vende carros com média de 33 mil km rodados, bem abaixo da média do mercado. Em 2024 foram 1,3 mil veículos vendidos; no primeiro trimestre de 2025, 393 unidades.
A operação B2B, com sistemas próprios de gestão, também pode se desmembrar. O CRM da empresa, batizado de Friday, foi desenvolvido especificamente para locadoras e tem potencial de mercado entre as 30 mil empresas ainda pouco digitalizadas no setor. “Alguns dos nossos produtos de tecnologia têm potencial de gerar mais valor do que o próprio negócio de aluguel de carros”, projeta Portelada.
Inteligência artificial, spin-offs e carros autônomos
A visão de futuro da Turbi inclui, inevitavelmente, os carros autônomos. “Quando esse modelo for realidade, nossa experiência será ainda mais fluida. Teremos comunicação entre veículos, sinistralidade ainda menor, e uma esteira de cadastro muito mais ágil”, acredita Ana. A Turbi já prepara seus sistemas para essa nova etapa da mobilidade.
Enquanto isso, a IA continua evoluindo. A empresa treina seus modelos com dados diversos, buscando evitar vieses, inclusive envolvendo mulheres e pessoas mais velhas na validação de imagens. O objetivo é ampliar o conforto e a confiança de perfis que normalmente evitam locadoras tradicionais por receio da interação humana.
Outro plano em estudo é permitir que usuários disponibilizem seus carros particulares na plataforma, ideia semelhante à da Tesla nos Estados Unidos. “Tecnicamente, podemos fazer isso hoje. O entrave é regulatório”, explica Portelada.
A ambição da Turbi é grande, mas o pé segue firme no chão. A empresa tem mantido o foco em entregar com excelência o que chama do “arroz com feijão” antes de acelerar a expansão nacional. A chegada de executivos mais seniores, como a própria Ana e o novo CFO, Mario Liao, reforça esse compromisso, inclusive.
E há espaço para mais, revelam os executivos. A Turbi explora oportunidades como a venda de seu hardware para empresas de financiamento de veículos, que poderiam reduzir inadimplência ao bloquear ignição remotamente. Também avalia fornecer tecnologia para seguradoras e locadoras menores, um ecossistema que pode ser tão ou mais lucrativo do que o negócio de aluguel em si.
A Turbi segue na quarta posição do mercado, mas tem a eficiência, a margem e a tecnologia para chegar lá e ultrapassar, acreditam Ana e Portelada. E como o app testado mostra na prática: o futuro da mobilidade já está circulando pelas ruas. Ele é prático, é digital e brasileiro.
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