
Márcia Freitas*
Refletir sobre minha trajetória me faz perceber o quanto precisei ser resiliente e firme para construir a carreira que tenho hoje. A minha história, como a de tantas mulheres negras, é marcada pela necessidade de quebrar códigos e superar barreiras em um ambiente que, historicamente, não foi desenhado para nós.
Meu objetivo nunca foi a tecnologia em si, mas algo mais fundamental: o sonho de fazer uma faculdade. Vinda de uma família muito humilde, essa era uma realidade distante. Aos 17 anos, a oportunidade surgiu por meio de uma bolsa de estudos em uma empresa, que exigia a escolha de um curso que fizesse sentido para o negócio. Foi assim que a tecnologia entrou na minha vida. Uma escolha pragmática que, felizmente, se revelou uma paixão. Sou muito realizada no que faço.
No entanto, o caminho foi árduo. No início da carreira, sentia que precisava me dedicar mais que os outros para entregar no mesmo nível, muitas vezes trabalhando até tarde para compensar a minha falta de experiência. Percebi cedo que, mais do que programar, minha força estava em entender o produto, desenhar soluções e liderar pessoas. Aos poucos, fui buscando meu espaço, observando e aprendendo com líderes que se tornaram minhas referências.
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Costumo dizer que “me descobri preta tarde”. Durante muito tempo, não enxergava os vieses inconscientes que me cercavam. Lutava para entender por que meu crescimento profissional parecia não acompanhar a dedicação e os resultados que eu entregava. Hoje, compreendo que estava lidando com o viés de representatividade: em um mercado em que o padrão de liderança é masculino e branco, uma mulher negra e líder está fora do status quo. É um processo desgastante, que nos obriga a uma constante autoanálise e adequação. Mas foi uma construção de muitos anos que me permitiu dizer hoje, com serenidade: amo ser negra, amo meu black e tenho muito orgulho da minha raça e ancestralidade.
A conquista mais emblemática da minha vida profissional, um verdadeiro marco de representatividade, foi a oportunidade de liderar um projeto internacional. Chegar na Argentina, no Chile e no Uruguai como o ponto focal da equipe, com meu black, minhas faixas no cabelo e minhas tranças, foi um momento de um orgulho que mal consigo descrever. Ali, como mulher, líder e negra, senti na pele a mistura de pertencimento e poder, a certeza de que estávamos ocupando um espaço que é nosso por direito e provando que, sim, mulheres negras podem, e muito.
Para as jovens negras que sonham em trabalhar com tecnologia, minha mensagem é: continuem sonhando, mas, principalmente, invistam em vocês. Sei que muitas vezes temos que provar o que já deveria ser nosso por direito, nossa competência e nosso potencial. Por isso, sejam firmes, busquem redes de apoio e referências, pois isso fortalece. Lembrem-se que vocês também estarão abrindo portas para outras, pois a tecnologia precisa do nosso olhar e da nossa criatividade.
Para os líderes e as empresas, meu conselho é transformar o discurso em ação. A mudança real acontece com a revisão de políticas e a inclusão nos processos diários, das pequenas às grandes decisões. É fundamental pensar na tríade: inclusão, diversidade e, acima de tudo, pertencimento. Um não existe sem o outro. Quando garantimos que todas as vozes não apenas existam, mas que se sintam parte essencial do todo, construímos ambientes mais justos, inovadores e verdadeiramente fortes.
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