
A cerca de 100 quilômetros da cidade de São Paulo, em Indaiatuba, funciona uma das quatro estruturas mais estratégicas da Lenovo no País. A fábrica, ativa desde 2016, não é apenas uma linha de montagem: é um espaço onde decisões de engenharia, adaptação ao mercado local e uso inteligente de tecnologia se encontram diariamente. O IT Forum percorreu os bastidores da planta e conversou com os líderes que orquestram a complexa sinfonia entre hardware, software, pessoas e máquinas.
Com 10 linhas de montagem, a fábrica é capaz de produzir até 6 mil computadores por dia, além de aproximadamente cem servidores, dependendo do modelo e da demanda. Mas a performance vai além dos números.
Segundo Julio Tebaldi, gerente de engenharia da Lenovo Brasil, 60% dos componentes utilizados na produção são nacionalizados, em conformidade com o Processo Produtivo Básico (PPB). “Esse cenário nos faz desenvolver fornecedores locais e manter um ecossistema produtivo forte no Brasil”, explica. “Aqui produzimos tanto produtos B2B quanto B2C, com cerca de 40 tipos diferentes de produtos em produção. As linhas são completas e flexíveis, capazes de se adaptar a diferentes demandas”, completa ele.
Cada linha conta com 10 estações e cerca de 25% do processo é automatizado, embora, como Tebaldi destaca, automação não se resuma a robôs. “Cada estação inspeciona, monta e inspeciona novamente. Temos um ciclo contínuo total de produção entre 500 e 700 segundos, dependendo do produto.”
Da ideia ao parafuso: a força da pesquisa e desenvolvimento nacional
A inovação na Lenovo não começa só na fábrica, mas também no laboratório de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da empresa, instalado no mesmo espaço, logo ao lado da fábrica. Hildebrando Lima, diretor de P&D da Lenovo Brasil, revela que 80 pessoas integram o time interno, número que sobe para 600 quando se consideram os parceiros envolvidos.
“Desenvolvemos aqui soluções que depois são transferidas para a linha de produção. Do parafuso ao software, estamos conectados com o chão de fábrica. A inovação da caracuia, por exemplo, que alimenta o ‘sushi box’, é um projeto 100% brasileiro que hoje está sendo levado a outras fábricas da Lenovo no mundo”, conta com orgulho Marcelo Parada, gerente de programas de P&D industrial da Lenovo Brasil.
A estrutura local é robusta. Há um laboratório de prototipagem rápida com impressão 3D, que faz peças de até 60 litros, câmeras com visão computacional, robôs e softwares proprietários que simulam digitalmente toda a linha de produção em tempo real. “Coletamos dados continuamente, e conseguimos prever falhas antes que aconteçam”, afirma Parada.
Um exemplo é o sistema de etiquetagem final, um apoio ao time, que utiliza inteligência artificial (IA) para confirmar se todos os componentes estão presentes na embalagem. “Não usamos etiquetas na caixa. Imprimimos direto nela, o que facilita a reciclagem, contribui para a sustentabilidade, e reduz erros”, explica Tebaldi.
Qualidade em cada milímetro
A obsessão pela qualidade é visível em todos os cantos da fábrica. Os computadores passam por duas etapas de testes. Primeiro, uma simulação de uso pelo usuário, com scripts que testam as interfaces, conectividades e funcionalidades.
Depois, uma bateria de testes de estresse mira processamento, memória, rede e carregamento de imagens customizadas de clientes corporativos, como a Petrobras, que recentemente encomendou um lote de equipamentos e servidores de alto desempenho (HPC) avaliado em mais de US$ 70 milhões, inteiramente montado em Indaiatuba.
“Além disso, temos um centro de reparos na própria planta. Em caso de problemas, a máquina pode passar por manutenção aqui mesmo e voltar ao cliente com a mesma qualidade de fábrica, em até três dias úteis”, detalha Tebaldi.
Ao final, 10% a 15% dos produtos são auditados aleatoriamente mais uma vez, após o empacotamento, para garantir que a experiência do consumidor será fiel à promessa da marca.
A unidade também se destaca na montagem de servidores, inclusive os voltados para aplicações de inteligência artificial. São 10 estações dedicadas, com alto nível de customização. “Cada profissional é especialista em sua estação e acompanha o processo de ponta a ponta, inclusive com feedback do cliente”, detalha Tebaldi.
A estrutura, inclusive, já está preparada para servidores com múltiplas GPUs em configuração plug and play, além de máquinas com virtual machines pré-instaladas, reduzindo, segundo a Lenovo, drasticamente o tempo de setup para os clientes.
Pessoas como ativo estratégico
Apesar de toda a automação, o elemento humano continua central na operação da Lenovo. Lissandra Shiramizu, COO da Lenovo Brasil, reforça o compromisso da empresa com o desenvolvimento de talentos na região e no País.
“Estamos em um momento desafiador globalmente, com cadeias de suprimento pressionadas. Nossa presença global com mais de 30 fábricas traz flexibilidade, mas é o capital humano que garante execução com excelência”, afirma.
A Lenovo, inclusive, desenvolveu um programa de pós-graduação com foco em cibersegurança, que já formou mais de 50 profissionais e pretende capacitar outros 50 nos próximos dois anos. O próximo tema será com foco em IA. “Criamos esse programa porque não conseguimos encontrar profissionais com o perfil que precisávamos. Já contratamos muitos alunos para atuar diretamente nos nossos laboratórios”, explica Parada.
Olhar estratégico de um gigante
Para Ricardo Bloj, presidente da Lenovo Brasil, a operação em Indaiatuba é parte essencial da visão da companhia de se posicionar como protagonista da chamada “nova onda” da tecnologia, marcada por IA, edge computing e serviços.
“A Lenovo opera em 180 mercados e soma mais de 600 projetos de IA em andamento. Até 2028, nossa expectativa é de que 70% a 80% dos produtos vendidos tragam NPU embutida para cargas de trabalho de IA”, afirma.
O executivo vê no fim do suporte ao Windows 10, previsto para outubro deste ano, uma oportunidade significativa de renovação do parque tecnológico das empresas, além da necessidade crescente de infraestrutura de data centers no Brasil, impulsionada por investimentos em nuvem e colocation. “Crescemos mais de dois dígitos ao ano em servidores, especialmente em contratos que envolvem locação e serviços gerenciados”, diz Bloj.
A aposta em servidores de HPC para IA se estende para além da Petrobras, chegando a diversos negócios, especialmente o agronegócio e a saúde. “Estamos trabalhando em iniciativas em Cuiabá e com consórcios dedicados a IA. O Brasil pode ser um exportador de inovação.”
Da fábrica em Indaiatuba saem produtos que atendem tanto o consumidor final quanto grandes corporações. Com um time formado majoritariamente por talentos da própria região e uma combinação poderosa de automação, inteligência de dados e flexibilidade produtiva, a Lenovo Brasil prova que é possível fabricar, inovar e competir nacionalmente e globalmente.
“Tudo o que conseguimos aqui é reflexo de uma estratégia de longo prazo. Nosso papel é entregar não só produtos, mas experiências, serviços e valor. Fazer isso com eficiência e orgulho de sermos parte da transformação tecnológica do Brasil”, finaliza Lissandra.
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