
Responsabilidade e dever. Até muito recentemente, essas eram as palavras que escutávamos ou dizíamos ao nos referirmos aos nossos pais. Em uma cultura onde cerca de 1.283.751 de crianças não possuem o nome do pai em sua certidão de nascimento (dados de 2024 da Arpen), a figura paterna foi colocada na ausência ou na rigidez ao longo dos anos, voltando apenas recentemente ao seu protagonismo dentro de casa.
Enquanto a maioria escolheu um desses dois caminhos mais tradicionais, alguns pais decidiram fazer diferente, participando ativamente do dia a dia dos filhos com inspiração, aconselhamentos e lições. Essas são as histórias de quatro deles:
Aprendendo a quebrar junto
A primeira lembrança que Rogério Moreira, gerente executivo do SiDi, tem de um computador é ao lado de seu pai. Um IBM XT da Itautec, ele recorda emocionado. “Porque meu pai, apesar de ser advogado, sempre gostou de tudo que liga na tomada”. A primeira interação, no entanto, foi um pouco mais desastrosa do que o esperado: sem saber como operar a máquina na época, Moreira acionou o botão “reset”, formatando o aparelho sem backup.
O incidente poderia ter levado à uma bronca e um desencorajamento para lidar com qualquer tecnologia. Mas a reação de Paulo mudou para sempre a relação de Rogério com os sistemas. Ao invés de punir, eles investigaram juntos o problema.
Daquele momento em diante, o executivo passou a acompanhar o pai em todas as novas aquisições que fazia, desde a troca da máquina de escrever por uma digitalizadora, até a compra de um celular com secretária eletrônica. “Da mesma forma que a gente fez funcionar muita coisa junto, também quebramos muita coisa.”
A paixão do seu Paulo rapidamente inspirou o filho a seguir o caminho “do contra” da família, já que todos os outros parentes, inclusive seu irmão, seguiram para o Direito. Para ele, sua história na TI se mistura com os momentos de descoberta. “Meu pai me deu meu primeiro computador, mas, ao mesmo tempo, a primeira rede de computador do escritório dele foi eu que montei.”
Na época, o perfil “mão na massa”, como ele diz, parecia estar inspirando apenas uma profissão, mas no fundo, deu o exemplo necessário para que Rogério olhasse para o mundo com mais curiosidade. “Eu devo à ele essa inquietude, de querer sempre experimentar algo novo e o propósito dele de querer sempre fazer melhor e estar sempre com o olhar para fora.”
Os ensinamentos persistem até os dias de hoje. Aos 76 anos, ainda trabalhando, Paulo começou a implantar em seu escritório o uso de inteligência artificial (IA). E o sangue da inovação parece ter chegado na próxima geração, com a filha de Rogério, Gabriela, crusando Engenharia da Computação na UFPE.
Assim como o pai, Moreira busca estar ali para apoiar a filha durante sua trajetória, enquanto dá o exemplo sobre o que acredita ser certo. “Nós somos 99% transpiração e 1% de inspiração, no dia a dia. Um bom trabalho, não tem atalho, né? Eu aprendi isso tudo com o meu pai e acredito que é meu papel repassar esse legado em forma de exemplo.”
Uma combinação de amor e maturidade

Quando Diego, seu primeiro filho nasceu, Rodrigo Ricco, tinha acabado de dar start na Octadesk, empresa de software que fundou e hoje atua como diretor geral. Equilibrar os pratos de dois projetos tão grandes não foi simples, mas ele se lembra do momento também como um impulsionador na carreira e um divisor de águas na sua vida. “Quando você se torna pai, tem uma maturidade que cresce porque você começa a ter outras outras preocupações, principalmente porque agora você tem uma vida ali para cuidar.”
O executivo também descreve a sensação como “um amor totalmente diferente, que transborda.” E transbordou mesmo. Três anos depois do primeiro filho, ele e a esposa deram à luz ao Vitor. O ritmo de trabalho, combinado com a criação de três, pode ter sido demandante, mas hoje, ao ver os dois filhos iniciando a vida de empreendedor, ele se orgulha de cada passo.
“E por muito tempo, eu me culpei de ter ficado fora, sabe? Mas hoje eu vejo que eu consegui estar presente, mesmo não estando lá. E hoje, com eles maiores, eu vejo que muita coisa foi plantada justamente por ter feito isso também.”
O exemplo para trazer esse amparo para a família veio do pai, sempre muito batalhador e responsável. Mas Ricco queria subir um degrau a mais, por isso, se dedicou também a ler sobre a paternidade e a criação de crianças. O ensinamentos ficaram completos com a chegada de Luísa, filha caçula do empresário. Ele conta que, apesar de aprender muito com cada filho, foi a menina que o trouxe mais perto do dia a dia de casa.
“Meus dois filhos, eu ainda estava em uma fase muito inicial da empresa, precisava dar aquele sprint. Mas quando a Luísa nasceu, a dinâmica mudou completamente, porque eu acho que a menina, quando mais nova, ela tem um apego maior com o pai.”
Entre suas missões pessoais estava a vontade de ter uma relação de mais escuta ativa e carinho com os filhos. Algo que ele acabou ensinando ao pai também, anos depois. “Até de abraçar, meu pai tinha uma dificuldade muito grande há não muito tempo atrás. Fui trabalhando isso com ele para desconstruir e para aplicar com os meus filhos.”
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Com a caçula em seus 17 anos, a fase atual tem sido de aproveitar os frutos e a companhia dos filhos enquanto ainda estão em casa. Para Rodrigo, desenvolver a escuta ativa e prestar atenção no dia a dia dos filhos é uma de suas maiores fontes de aprendizado. “Se tu observar, tem n coisas que a gente pode se apropriar um pouquinho e aplicar na nossa própria vida.”
Uma missão única
Pai de dez, Ricardo Funari sempre soube que queria ser pai. Mesmo como sócio-fundador e VP comercial da Synchro, o empresário ainda considera a família sua maior fortuna. “Você pode perder as metas de vendas, pode quebrar um negócio, mas você não pode errar na educação dos seus filhos”, afirma.
Com uma formação católica por trás, Funari acredita que todo homem tem uma vocação para a paternidade, mesmo que ela não seja no sentido literal, de pai para filho. Para ele, pai é aquele que orienta na direção correta. Dentro desse conceito, ele considera que seu maior desafio ao longo de sua trajetória foi o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, ainda mais trabalhando no setor de TI.
“Acredito que o setor de TI exige uma dedicação até mais intensa do que as demais áreas. Então, o risco de um pai não conseguir dedicar o seu tempo, distribuir o seu tempo com equívoco dentro do trabalho e a família é muito grande.”
Nesse sentido, ter uma família maior ajudou. O executivo já tinha cinco filhos quando decidiu fundar a Synchro e afirma que o senso de colaboração criado entre as crianças dentro de casa foi fundamental para seguir com a tarefa. Hoje em dia, ele é um defensor da possibilidade de trabalho remoto dentro das empresas.
“O trabalho remoto permite o contato maior do pai com os filhos e isso tem um valor imenso, imenso, principalmente em uma cidade como São Paulo. Eu acho que os profissionais de TI podem e devem usar com muita sabedoria essa possibilidade de estar mais tempo em casa com os filhos.”
Hoje em dia, Funari aproveita seu tempo com a família não só como pai, mas também como avô. Para cada momento, ele afirma ter tido um aprendizado, mas que ambos valem a pena ao final do dia. “Às vezes você vê virtudes nos seus filhos, que você não tem tão desenvolvidas e te ajudam a pensar.”
De pai pra filho

Algumas inspirações são tão profundas que marcam os caminhos que iremos traçar ao longo de nossas vidas. Foi o caso do atual diretor de inteligência artificial, dados e automação da IBM Brasil, Thiago Viola.
Formado em Tecnologia da Informação, o primeiro contato do executivo com a área veio muito antes da escolha no vestibular. Na verdade, a TI era parte da rotina dentro de casa, ao observar seu pai, Bruno Viola, que também trabalha na área, hoje head of Sales da Eccox.
Apesar da inspiração para seguir para o mesmo setor, o aprendizado ao observar o pai foi maior do que a tecnologia. “Muito da minha forma de liderar vem do exemplo do meu pai. Desde cedo, aprendi com ele que ser líder não é apenas sobre tomar decisões ou ocupar posições, é, antes de tudo, sobre servir, apoiar e inspirar com integridade.”
Foi também por meio do exemplo que Thiago teve seu primeiro contato com o mundo corporativo, aprendendo desde cedo a integrar negócios e humanidade ao ver o pai agir de forma propositiva, buscando soluções e unindo diferentes pontos de vista. “Carrego comigo essa combinação rara que aprendi em casa: a busca por transformar, crescer e vencer, sem perder de vista o que realmente importa.”
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