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Uma pessoa está em frente a estações de computador e uma grande tela exibindo a bandeira chinesa, enquanto outros trabalham em mesas com vários monitores

Por Gustavo Pinto, pesquisador no Zup Labs

Na última semana de julho, participei de uma imersão na China pela Zup Innovation, visitando empresas e centros de inovação em Beijing, Hangzhou e Shanghai. Em cinco dias intensos, passei por gigantes como Huawei, Alibaba Cloud, SenseTime e Nio, além de acompanhar uma série de conversas com executivos, pesquisadores e agentes do ecossistema de tecnologia chinês.

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A partir dessas interações, ficou claro que a China não apenas construiu uma economia digital robusta, mas também desenvolveu formas próprias de escalar inovação e integrar setores com velocidade e eficiência. A seguir, compartilho cinco aprendizados centrais da economia digital chinesa que, embora não sejam totalmente replicáveis no Brasil, podem servir de inspiração concreta para acelerar a transformação digital em nossas empresas:

1. Inovação não precisa começar pela disrupção, pode começar pela escala

Enquanto o Ocidente costuma associar inovação à ruptura, criar algo totalmente novo, a China pensa em inovação a partir da aplicação em larga escala. Por lá, boa parte dos avanços vem da integração rápida de tecnologias existentes em (potencialmente novos) modelos de negócio. O foco está menos em “inventar do zero” e mais em “integrar e escalar com eficiência”.

Foi o que vimos, por exemplo, na Alibaba Cloud. A empresa reconstruiu toda sua stack tecnológica, desde hardware até software de cloud e big data, para garantir autonomia e performance em larga escala. Seus modelos de linguagem (como Qwen 3 e Qwen Omni) não só competem com os grandes do Ocidente, como já estão sendo usados em aplicações altamente especializadas. Essa lógica se repete na Huawei e na SenseTime, que não apenas criaram seus próprios modelos de IA, mas integram esses modelos diretamente em soluções de mercado, como carros autônomos, sistemas de vigilância e assistentes embarcados.

Lição para o Brasil: a inovação pode vir de dentro da empresa, conectando dados/sistemas, testando novos modelos de serviço ou operação. A ideia de buscar a disrupção pode paralisar, a execução rápida, não.

2. Excelência no atendimento

Na China, excelência no serviço não é vista como um diferencial, é parte do funcionamento básico de qualquer negócio. Isso vale tanto para experiências digitais quanto para interações totalmente presenciais. Em restaurantes, lojas de rua e hotéis, o atendimento é direto, eficiente e respeitoso. As pessoas sabem o que estão fazendo, resolvem rápido e, muitas vezes, sem rodeios; foco no que importa: fazer o cliente seguir sua jornada sem fricção.

Nas empresas mais tecnológicas, essa cultura de atendimento é amplificada pelo uso inteligente de dados. Na SenseTime, por exemplo, vimos como seus modelos integrados de IA são usados para interpretar expressões faciais e ajustar a interação de robôs e interfaces com base no humor da pessoa. No caso da Nio, os carros contam com assistentes como o NomiGPT, que mantêm conversas naturais com os passageiros, ajustam iluminação e som, e oferecem sugestões com base no contexto da viagem. O atendimento, nesse cenário, é algo contínuo e proativo, e não começa apenas quando o cliente tem um problema.

O uso de QR codes, pagamento por biometria e check-in automatizado é comum. Ao mesmo tempo, os atendentes são orientados por sistemas e protocolos muito bem definidos, o que garante consistência no padrão de qualidade. A digitalização não eliminou o humano, ela o organizou melhor.

Lição para o Brasil: excelência no serviço começa com respeito ao cliente e termina com entrega consistente. A tecnologia pode amplificar isso, mas não o substitui. Mesmo as interações mais simples, uma recepção, uma resposta rápida, um olhar atento, são parte essencial da jornada. Atendimento não é um departamento: é uma responsabilidade de toda a jornada, seja no app, no caixa, na recepção ou na porta de embarque.

3. A integração entre físico e digital é parte do processo

Na China, o termo “figital” não é buzzword, é prática. A integração entre online e offline já chegou a 99% da economia em setores como varejo, saúde e educação. Isso acontece, por exemplo, por meio de plataformas integradas de pagamento, mini-programas embarcados em superapps (como o WeChat), sensores espalhados nos espaços físicos e inteligência artificial que adapta conteúdo, oferta e atendimento com base no comportamento do usuário.

Um exemplo é o shopping X27, que se transformou em um dos maiores estúdios de live commerce do mundo. Nesse shopping, não existe loja física aberta ao público: toda a operação funciona com transmissões ao vivo e vendas em tempo real, dentro de plataformas digitais. O espaço físico virou uma infraestrutura para o digital operar melhor.

Lição para o Brasil: empresas que ainda tratam digital e físico como áreas separadas precisam ser repensadas. A jornada do consumidor é uma só, e o canal deve ser consequência da experiência, não o contrário.

4. O investimento em talentos é estratégico, e contínuo

Em várias das empresas que visitamos, vimos programas claros de formação e retenção de talentos. A Alibaba, por exemplo, adota ciclos de onboarding de dois a três anos, com planos de carreira definidos desde a entrada. A SenseTime investe em educação desde o ensino médio, com livros e plataformas voltados ao ensino de inteligência artificial para jovens. O objetivo é criar um pipeline contínuo de pessoas preparadas para trabalhar com tecnologia.

Além disso, os próprios processos de recrutamento já usam IA para triagem e análise de fit cultural e técnico. Isso permite escalar as contratações e ganhar rapidez no processo.

Lição para o Brasil: formar, reter e treinar talentos não é tarefa do RH apenas, é uma estratégia de sobrevivência. A escassez de profissionais qualificados em tecnologia não se resolve só com contratação: é preciso cultivar talentos internamente, investindo em programas estruturados de desenvolvimento, incluindo iniciativas voltadas à formação de jovens, para se preparar desde cedo.

5. Planejamento de longo prazo com execução a toque de caixa

Os planos de 5 anos, que são públicos, periódicos e amplamente disseminados, funcionam como bússolas estratégicas que alinham o governo, empresas e centros de pesquisa em torno de metas comuns. Não é somente a visão de longo prazo, mas também a velocidade com que essa visão é traduzida em ação.

Em áreas como inteligência artificial, carros autônomos, computação em nuvem e energia limpa, vimos projetos nascendo, ganhando escala e se consolidando em prazos extremamente curtos. Por exemplo, a meta do governo é fazer com que a IA represente 27% do PIB até 2030. Isso mobiliza investimentos em infraestrutura, formações técnicas, incentivos a startups e reformas institucionais, tudo em paralelo. A lógica é planejar com profundidade e executar com urgência.

Essa abordagem torna a inovação menos aleatória e mais orientada. Empresas como Alibaba, Huawei e SenseTime se beneficiam disso ao alinhar suas estratégias aos eixos definidos pelo Estado, o que também facilita acesso a capital, talentos e incentivos.

Lição para o Brasil: visão de longo prazo e agilidade de execução são complementares. O desafio está em pensar estrategicamente sem perder a capacidade de implementar com rapidez. Ter metas claras, prazos definidos e coordenação entre setores pode acelerar de forma radical a transformação digital.

6. Inovação nasce da ponte entre empresas e universidades

Na China, os principais laboratórios de inovação mantêm parcerias estruturadas com universidades. Em vez de atuar isoladamente, empresas e centros de P&D se conectam diretamente com instituições acadêmicas para acelerar pesquisa aplicada, formar talentos e explorar novas fronteiras tecnológicas. Não se trata apenas de convênios esporádicos ou programas de estágio: trata-se de uma colaboração contínua, com investimentos conjuntos, compartilhamento de infraestrutura e alinhamento estratégico de longo prazo.

Na prática, isso cria um ecossistema em que as universidades deixam de ser apenas espaços de formação e passam a atuar como extensões da pesquisa industrial. Modelos de linguagem, chips de IA, sensores inteligentes, veículos autônomos e novas arquiteturas de cloud computing estão sendo desenvolvidos por equipes mistas, formadas por pesquisadores acadêmicos e engenheiros de empresas.

A universidade fornece o rigor e a base científica; a empresa traz o problema real e a necessidade de escala.

Lição para o Brasil: não basta esperar que universidades formem profissionais prontos ou façam pesquisas “relevantes”. É preciso criar pontes reais, com metas comuns e projetos compartilhados. Laboratórios corporativos e centros de P&D ganham potência quando atuam lado a lado com grupos de pesquisa. A inovação precisa de ciência, e a ciência precisa de aplicação.

Um olhar geral para o futuro

A China não nos oferece um modelo pronto a ser copiado, mas oferece pistas valiosas sobre o futuro da inovação. A combinação de visão de longo prazo, pragmatismo operacional e integração profunda entre tecnologia e negócio pode inspirar empresas brasileiras a agir com mais ousadia e estratégia. O desafio não está em fazer igual, está em adaptar com inteligência.

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