Skip to main content

A imagem mostra duas pessoas envolvidas em uma conversa ou entrevista. Uma delas está falando e segurando um microfone, enquanto a outra aparece parcialmente em primeiro plano, também com um microfone na mão. Ao fundo, há folhagens verdes e alguns elementos de iluminação. (Ted Chiang e inteligência artificial IA)

A mente que criou um universo em que alienígenas chegam à Terra utilizando o tempo como forma de comunicação não parece nem um pouco impressionada com as capacidades de ferramentas de inteligência artificial (IA), especialmente no que tange a criação. Essa mente é a de Ted Chiang, escritor norte-americano consagrado com quatro prêmios Nebula, quatro Hugo e quatro Locus,os maiores da literatura de ficção científica.

Além de autor prolífico do gênero, Chiang é formado em Ciência da Computação, área em que iniciou sua carreira e onde atualmente atua como redator técnico de informática. Recentemente, em visita ao Brasil, o escritor participou de uma palestra sobre o futuro das comunicações na era da IA, organizada pela Pina Comunicações.

Conhecido por suas críticas ao uso da inteligência artificial, ao longo da conversa ele destacou as limitações da tecnologia diante do que realmente pode ser considerado inteligência. Segundo Chiang, há uma diferença entre possuir habilidades e ser inteligente, sendo esta última característica atribuída a quem consegue adquirir novas capacidades rapidamente.

“Se pensarmos nesse contexto, podemos perceber que os computadores são muito habilidosos, mas não são de fato inteligentes. No momento, não sabemos como construir um computador que se torne bom em algo rapidamente ou que possamos colocá-lo em uma situação completamente desconhecida e ele descubra, por conta própria, o que fazer”, declarou.

Para ilustrar sua visão do que seria uma inteligência artificial verdadeiramente impressionante, Chiang recorreu a experimentos com ratos, nos quais os animais, após 24 sessões de treino, aprenderam sozinhos a dirigir. “Isso, sim, me deixa impressionado! Imagine se alguém conseguisse criar um programa de computador capaz de algo semelhante: colocado em uma situação totalmente nova, sem receber nenhuma instrução prévia sobre o problema, ele descobriria tudo do zero. Ainda assim, seria apenas tão inteligente quanto um rato.”

Em entrevista ao IT Forum, o escritor explicou que é justamente por esse motivo que considera o hype da IA superestimado. Para ele, os LLMs não passam de versões sofisticadas do preenchimento automático que já temos em nossos telefones. Comparando a tecnologia a outras modas recentes, como criptomoedas e realidade virtual, Chiang argumenta que sua popularidade decorre, sobretudo, do esforço das grandes empresas em promovê-la como a próxima “grande novidade”.

Leia mais: Intel simplifica programa de parceiros e amplia benefícios a partir de outubro

“As empresas estão empurrando isso com muita força. E não acredito que precisariam fazê-lo se as pessoas achassem a IA realmente útil”, afirmou.

Quando o assunto é criação artística, Chiang se mostra ainda mais cético em relação à IA generativa. Em artigo publicado na revista The New Yorker, defende que a arte exige do artista o controle sobre todas as decisões tomadas no processo criativo – algo que se perde ao gerar uma imagem ou texto por meio de um prompt. “Acredito que a IA generativa se resume a dar ao programa instruções mínimas e obter um resultado desproporcionalmente grande. E não acho que isso seja compatível com a criação de arte.”

Embora não considere arte, Chiang reconhece que a tecnologia tem sido usada nesse campo e, desde a popularização da inteligência artificial generativa, tem se posicionado contra essa prática – sobretudo em campanhas publicitárias. “Os artistas querem fazer arte, mas também precisam ganhar a vida. Durante muito tempo, conseguiram isso por meio da arte comercial, que sustentava as obras pelas quais realmente se importavam. A ameaça da IA generativa é justamente retirar deles essa possibilidade de sustento.”

Além de criticar o uso da IA na criação artística, o autor afirmou que não consome conteúdos produzidos por essas ferramentas. Para ele, o valor de uma obra está no tempo e na dedicação empregados em sua produção. Os LLMs, em sua visão, diluem o conteúdo e comprometem sua qualidade. “As próprias empresas que desenvolvem essas tecnologias não utilizam materiais produzidos na internet após 2020 para treinar seus modelos, porque já não têm qualidade, estão contaminados pelo que a IA gera.”

Essa perspectiva também se reflete em sua trajetória pessoal. Em mais de 20 anos como escritor, Chiang publicou apenas dois livros que reúnem pouco mais de 15 contos. Seu processo criativo parte, em geral, de grandes questões humanas – e, ao que tudo indica, nenhuma delas envolve o uso de modelos de inteligência artificial.

“Há claramente algo valioso no que os humanos produzem, algo que esses modelos não conseguem replicar. Não é imediatamente perceptível pela maioria dos padrões, mas, ainda assim, é uma expressão de linguagem. E não podemos esquecer disso.”

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!