
Por Daniel Luzzi
Vivemos um momento curioso: nunca foi tão fácil parecer inteligente. Com a inteligência artificial ao alcance de um clique, qualquer um pode produzir textos impecáveis, argumentos convincentes e resumos eficientes. Mas há um problema: tudo isso pode ser apenas uma ilusão bem formatada.
É cada vez mais comum ouvir que a IA vai nos libertar da necessidade de saber, de aprender, de estudar. Que basta saber pedir. Que o prompt certo resolve tudo. Mas essa é uma fantasia perigosa. Na prática, quanto mais acessível a IA se torna, mais conhecimento é exigido para usá-la com discernimento.
Sim, você leu certo.
A inteligência artificial não elimina a necessidade de saber, ela a desloca. Não se trata mais apenas de memorizar informações, mas de desenvolver duas habilidades essenciais: saber perguntar e saber interpretar criticamente.
Perguntar com clareza exige repertório, curiosidade e intenção. Já interpretar com criticidade exige distanciamento, consciência dos vieses e capacidade de análise. Sem isso, a IA nos dá respostas impecáveis, mas que podem estar erradas, enviesadas ou fora de contexto.
E a responsabilidade continua sendo nossa.
A IA responde. Mas quem pergunta e, mais importante ainda, quem interpreta somos nós.
E é aí que o verdadeiro pensamento acontece.
A IA não pensa. Ela simula. E isso muda tudo.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Apple — The Illusion of Thinking — escancarou um ponto crucial: mesmo os modelos mais sofisticados de linguagem (LLMs) não pensam. Eles apenas imitam padrões linguísticos de forma convincente.
E como se isso não bastasse, os números preocupam: modelos avançados como o GPT-4o ainda alucinam em cerca de 33% das tarefas factuais. O GPT-4-mini chega a 48% de erros, com falhas graves justamente em análises críticas. E não estamos falando de erros triviais. A IA é convincente mesmo quando está errada, cita fontes falsas, inventa links, distorce argumentos, tudo com aparência de precisão e autoridade.
Sem domínio do tema, sem pensamento estruturado e sem espírito crítico, fica quase impossível perceber esses deslizes. O risco é alto: você pode acabar reproduzindo desinformação com a melhor das intenções.
Por isso, mais do que saber gerar respostas, é preciso saber analisá-las. O discernimento humano continua sendo o filtro mais importante. A IA pode escrever por você, mas não pode pensar por você.
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O risco maior: a homogeneização do pensamento
A IA não apenas erra. Ela repete. Ela replica e amplifica padrões, reforçando os vieses que estão embutidos nos dados com os quais foi treinada. E se você não tem ferramentas cognitivas para perceber isso, é cooptado sem perceber.
Não se trata apenas de “checar fontes”, trata-se de perceber como as estruturas invisíveis da IA moldam o que ela considera relevante, aceitável e verdadeiro. E para isso, precisamos de habilidades estruturantes.
Queimando o filme: um caso real
Em junho de 2025, o jornalista Dave Buscaglia publicou no Chicago Sun‑Times uma coluna aparentemente inofensiva: “15 livros para mergulhar neste verão”. O detalhe? Dez desses títulos não existiam. Eram invenções da IA, e ele não conferiu.
Buscaglia admitiu o erro: “Estupidamente, e 100% culpa minha, apenas reproduzi a lista gerada por IA sem revisar”.
Resultado: demissão, retratação pública, reputação em ruínas. Uma lição dolorosa sobre os riscos da superficialidade digital.
Terceirizando o planejamento pedagógico
Recentemente, vi um professor compartilhar uma lista de prompts para “planejar aulas com IA”. À primeira vista, parecia uma solução prática, que, segundo ele, economizava até 6 horas por semana.
“Chega de cansaço: planeje sua aula em menos de 10 minutos”, dizia o post, com centenas de curtidas e comentários de professores animados. “Arrasou, professor!” diziam.
Mas bastava um olhar atento para perceber os riscos.
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Os prompts eram genéricos, descolados de contexto, perfil dos alunos e objetivos formativos.
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Faltava articulação com eixos transversais ou visão interdisciplinar.
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O “planejamento” se reduzia a uma sequência solta de atividades, sem propósito formativo claro.
Um tipo de uso que reforça a pedagogia do atalho: substituímos o trabalho pedagógico, que exige análise, escuta, intenção e criatividade, por uma sequência pré-formatada de atividades aparentemente “ativas”, mas vazias de sentido.
A educação é, por essência, situada, relacional e intencional. Planejar uma boa sequência de aprendizagem não é preencher caixas com verbos de ação. É conhecer os alunos, considerar seus repertórios, contextos, dificuldades, desejos e potencialidades. É conectar conteúdo com propósito, e prática com reflexão.
É provável que o professor, ao publicar aquele prompt de IA para planejar aulas em segundos, não tenha percebido que estava ilustrando justamente sua carência de repertório pedagógico. Em vez de uma solução, o que se revelou foi um sintoma.
Terceirizando o pensamento dos alunos
De acordo com a Times Higher Education, em 7 de julho de 2025, “A IA se tornou tão frequente que os textos submetidos pelos alunos não são mais um indicador confiável do que aprenderam”. As respostas produzidas pela IA até podem impressionar pela abrangência, mas são “profundamente superficiais, desprovidas de qualquer insight analítico profundo” 1.500 palavras de mediocridade gramaticalmente impecável, cuja única grande conquista é a velocidade com que o desleixo pode ser produzido”.
O mais alarmante? Muitos dos trabalhos entregues vinham recheados de referências falsas, links inexistentes e argumentos frágeis, que os alunos não perceberam. Nem os alunos, nem os professores, em muitos casos, pressionados pelo volume de entregas e pela lógica acelerada da avaliação, que mal permite checar cada fonte. A superficialidade passou no teste. E isso deveria nos assustar mais do que qualquer alucinação da máquina.
E aqui está o ponto central:
Usar IA de forma crítica e transformadora exige mais, não menos conhecimento
O problema não está na tecnologia em si, mas no uso ingênuo, apressado, desinformado. Substituir a responsabilidade de pensar por comandos automáticos é um caminho perigoso, para o educador, para o jornalista, para os alunos ou qualquer outro profissional.
Requer:
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Pensamento crítico, para questionar argumentos, investigar contradições, ir além da superfície.
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Visão sistêmica, para compreender contextos e interdependências.
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Capacidade analítica, para detectar padrões, falácias e inconsistências que a IA não enxerga.
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Criatividade, para propor algo novo a partir do que é gerado, evitando a estagnação do pensamento automatizado.
IA não é um atalho, é um amplificador
Se você tem estrutura, a IA potencializa. Se você não tem, ela escancara.
Ela exige mais conhecimento, mais discernimento, mais preparo. Ela não reduz a importância da formação, ela a intensifica.
Conclusão: Subir a régua
Não é hora de baixar a régua em nome da eficiência. É hora de reforçar a base. De cultivar hábitos mentais robustos. De educar para pensar, antes de educar para automatizar.
A transformação que a IA promete só será real se vier acompanhada de uma transformação cognitiva. E essa transformação não acontece com prompts prontos, acontece com pensamento crítico e vontade de ir além da resposta óbvia.
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