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Patrick James, artista técnico e pesquisador do Pixar Animation Studios,

Era para ser apenas mais um dia de revisão final na Pixar. A equipe de Patrick James, artista técnico e pesquisador do estúdio, havia trabalhado meses na localização de “Procurando Dory” para 12 idiomas diferentes. Cada placa, cada letreiro, cada texto visível na tela precisava ser recriado, não apenas traduzido, mas fisicamente remodelado em 3D para cada versão.

No filme, os personagens precisavam chegar ao prédio “Oceano Aberto”. As placas direcionais eram cruciais para a narrativa. “Vá para Oceano Aberto”, diziam os personagens. “Oceano Aberto por aqui”, indicavam as placas. Era um elemento central da história.

Durante a sessão de revisão diária, a última oportunidade antes que o filme deixasse definitivamente o estúdio, alguém na sala levantou a mão. Por acaso, a pessoa falava japonês. “Por que ali está escrito ‘banheiro’?”, perguntou, apontando para as placas monumentais na versão japonesa.

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O erro que quase chegou aos cinemas

“Ficamos chocados”, relembra James durante entrevista no IoT Solutions Congress Brasil 2025. “Quase saiu assim do estúdio, o que teria sido terrível.” A tradução havia se perdido em algum ponto do processo. Em vez de “Oceano Aberto”, as placas gigantes indicavam algo relacionado a “banheiro” ou “sanitário”.

A descoberta forçou uma correção de emergência. Todas as placas foram remodeladas, todos os quadros renderizados novamente em tempo recorde. Mas o impacto foi além da correção imediata.

Na reunião após o projeto, ritual obrigatório na Pixar onde são listados “todos os erros e algumas coisas que deram certo”, o caso das placas japonesas encabeçou a lista de problemas. A falha levou à criação de um sistema mais robusto de validação, incluindo pontos de verificação intermediários e aprovações redundantes com representantes locais da Disney.

“Agora temos um método realmente sólido”, explica James. “Quando se trata do Brasil, por exemplo, trabalhamos com uma pessoa em São Paulo que é representante da Disney para português brasileiro. Tudo passa por ela antes da finalização.”

Quando erros custam dias de trabalho

O episódio também ilustra um problema maior que a Pixar enfrentava: a impossibilidade de corrigir erros rapidamente. Cada quadro de animação podia levar horas ou até dias para ser processado. Nos primeiros filmes do estúdio, imagens de “Monstros S.A.” chegaram a demorar oito dias para serem renderizadas completamente devido à complexidade dos pelos e texturas.

“Trabalhávamos uma cena o dia inteiro, enviávamos para a fazenda de renderização durante a noite e só no dia seguinte descobríamos se funcionou”, descreve James. A fazenda de renderização da Pixar é uma sala com 150 mil processadores trabalhando simultaneamente para processar os milhões de imagens necessárias. Cada segundo de filme requer 24 quadros, um filme completo tem cerca de 1.200 tomadas.

Esse processo criava um ciclo frustrante: artistas faziam escolhas criativas, aguardavam horas ou dias para ver o resultado, descobriam problemas e recomeçavam. Era impossível experimentar, ajustar iluminação ou testar diferentes abordagens de forma ágil.

A revolução da inteligência artificial

A transformação chegou através de um algoritmo de redução de ruído desenvolvido por Mark Meyer, pesquisador da Pixar que recebeu o Oscar Científico e Técnico por esta inovação. O sistema foi alimentado com todas as imagens já produzidas pelo estúdio ao longo de sua história.

O princípio é semelhante ao que acontecia com filmes analógicos: o material bruto parecia granulado e cheio de ruído, mas após processamento se tornava a imagem limpa vista nos cinemas. Na Pixar, as imagens começam ruidosas e se refinam gradualmente até ficarem prontas.

“O algoritmo sabe que, se receber uma imagem ruidosa que precisa ficar assim no final, como pode transformar esta nova imagem ruidosa em algo que pareça bom”, explica James. Na prática, um artista pode interromper a renderização após apenas um minuto, aplicar a redução de ruído, e ver instantaneamente como ficará o resultado final.

A capacidade de transformar erros em soluções é reforçada pela arquitetura física do estúdio. Steve Jobs, cofundador da Pixar, desenhou o edifício principal para forçar interações entre departamentos técnicos e artísticos. Com poucos banheiros e um refeitório central, funcionários são obrigados a circular e se encontrar com colegas de outras áreas.

“É uma estratégia arquitetônica inteligente para influenciar comportamentos”, observa James. “Constantemente você vê pessoas conversando, trocando ideias. Um animador mostrando trabalho para um técnico, que sugere uma forma melhor de apresentar ao diretor.”

Entretanto, nem todas as tentativas de integração funcionam. Em “Procurando Dory”, o estúdio experimentou organizar equipes em unidades temáticas (oceano aberto, tanque, fundo do mar) em vez dos departamentos tradicionais. O resultado foi duplicação de trabalho: cada unidade desenvolveu suas próprias versões de elementos comuns como areia.

“Tentamos, talvez tenha sido uma falha, mas aprendemos com isso”, resume James, exemplificando a filosofia do estúdio: “Falhe rápido, falhe cedo e falhe com frequência, o mais rápido possível.”

O impacto da IA na criatividade

A tecnologia de renderização acelerada “aumentou os níveis de felicidade, produtividade e eficiência em todos os aspectos”, segundo James. Mais importante que a velocidade, ela restaurou a interatividade no processo criativo. Artistas podem experimentar ajustes de iluminação e ver resultados quase em tempo real.

O sistema não substitui a renderização final. Uma imagem processada em um minuto ainda não tem qualidade para cinema, mas é suficiente para tomadas de decisão criativas. “Posso ver o resultado final e decidir se preciso mudar a iluminação ou se os gráficos estão funcionando.”

James projeta que a tendência é chegar “cada vez mais perto do tempo real”, eliminando completamente a espera entre criação e visualização. Para um estúdio que produz conteúdo não apenas para filmes, mas também para parques temáticos Disney em expansão, a agilidade se tornou vantagem competitiva fundamental.

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