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Foto de Angelica Vitali, head Brasil da T-Systems, vestindo blazer preto sobre blusa branca, colar com pingente redondo e posando com os braços cruzados sobre fundo roxo uniforme.

Quando chegou a hora de escolher a profissão que seguiria, Angélica Vitali vivia um dilema. De um lado, estava sua paixão: sempre comunicativa – ainda que “superintrovertida por natureza” –, seu sonho era cursar jornalismo. Mas o início dos anos 1990 no Brasil oferecia um cenário de oportunidades escassas na área. Já em tecnologia, o horizonte era promissor. “Era um mercado que estava se abrindo muito. Eu tinha o coração no jornalismo, mas a razão me dizia para apostar em TI”, conta. “Foi o que fiz.”

A escolha trouxe frutos. Aluna dedicada, sempre na primeira carteira, Angélica chamava atenção dos professores pelo caderno impecável e pelas notas altas. Ao concluir o tecnólogo em Processamento de Dados, foi convidada pelo próprio professor a trabalhar na empresa em que ele atuava como programador.

Além da facilidade com a tecnologia, descobriu cedo a vocação para liderar. Foram apenas três anos na área técnica antes de assumir cargos de gestão. Aos 23 anos, Angélica já comandava cerca de 200 pessoas. Aos 25, mais de 500. “Sempre me viram como referência técnica e, naturalmente, vieram os convites para liderar”, pontua.

Em pouco tempo, assumiu mais uma posição de liderança na CPM, uma das primeiras fábricas de software do Brasil. Lá, consolidou sua transição de profissional técnica para gestora. Foi também na empresa que aprendeu como, mesmo introvertida, poderia se comunicar bem. “Sou naturalmente reservada, mas comunicação é meu ponto forte”, afirma, completando: “todo dia visto minha personagem”.

A “personagem” extrovertida, no entanto, é genuína, ela ressalta. Para Angélica, comunicar-se bem significa ter clareza e intenção. Nas reuniões de equipe, explica o contexto das decisões e ouve ativamente, criando um espaço em que todos se sintam à vontade para contribuir. “Não importa se você é expansivo ou não. O que importa é ser autêntico e ter consciência de que cada palavra pode impactar alguém.”

A experiência também trouxe mais visibilidade ao seu trabalho, abrindo portas para projetos maiores. O passo seguinte na carreira seria o empreendedorismo: com três sócios, fundou uma empresa no setor de cartões de crédito que, mais tarde, seria vendida.

“Foi uma experiência curta, mas muito enriquecedora. Essa vivência me deu coragem para enfrentar qualquer desafio depois”, relembra.

Em 2003, ingressou na Gedas, empresa de serviços de tecnologia da informação que fazia parte do Grupo Volkswagen. Três anos depois, a companhia foi integrada à T-Systems, pertencente ao grupo Deutsche Telekom. Assim começou uma jornada que já dura quase duas décadas.

Angélica passou por diferentes áreas na organização e liderou projetos estratégicos, como a criação da unidade de Blumenau, hoje referência global em produção de software. “Minha relação com a T-Systems é de amor. Você não fica tanto tempo onde não é bom”, diz.

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Há seis anos, assumiu a presidência da filial brasileira. À frente de cerca de 2 mil colaboradores e mais de cem clientes estratégicos, conduz a gestão com uma filosofia clara: primeiro, cuidar das pessoas.

Isso inclui a busca por ambientes mais saudáveis para mulheres. A trajetória de Angélica não difere da de tantas outras profissionais no País. Ao longo dos anos 1990, lembra, era quase sempre a única mulher na sala.

Ela reconhece que a desigualdade de gênero persiste. Ao assumir a presidência da T-Systems Brasil, uma de suas primeiras iniciativas foi criar comitês de diversidade, estabelecendo uma cultura em que oportunidades não dependem de gênero, raça ou qualquer outra característica. “Queria que todos soubessem que aqui as condições são iguais para todos”, destaca. “A diversidade traz visões diferentes, decisões melhores.”

Angélica não apenas defende essa pauta – ela cobra. “Pergunto para meus líderes diretos: quantas mulheres há na sua estrutura? Em vendas, por exemplo, temos hoje maioria feminina, inclusive em segmentos como o automotivo, tradicionalmente masculinos.” Nas áreas técnicas, o avanço é mais lento, mas ela insiste em buscar equilíbrio.

Fora da T-Systems, também cultiva redes de apoio. “Esses espaços são essenciais. É onde podemos falar de vulnerabilidade, trocar experiências e nos apoiar. Homens fazem isso com mais naturalidade; nós, mulheres, precisamos nos esforçar para criar e manter essas redes.”

Com 35 anos de carreira sem interrupções, Angélica agora pensa no futuro. Pondera sobre assumir responsabilidades maiores, talvez fora do Brasil, mas antes sonha com um sabático. “Quero parar para refletir e, principalmente, fazer o Caminho de Santiago. É meu primeiro objetivo quando encerrar este ciclo.”

*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum.

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