
No palco da Futurecom, evento de conectividade, que acontece de 30 de setembro a 2 de outubro, em São Paulo, a Saúde 5.0 não apareceu como mais uma onda tecnológica, mas como uma virada de chave, especialmente cultural. Se a Saúde 4.0 colocou sistemas de business intelligence (BI), analytics e processos digitais em evidência, o novo momento usa tecnologia para devolver o protagonismo ao paciente.
“Vivemos a humanização da saúde”, resumiu Sonia Castral, analista distinta sênior da TGT. “O foco não é mais apenas a eficiência dos processos, mas colocar o paciente no centro, garantindo personalização de tratamentos e ampliando o acesso por meio da telemedicina e da inteligência artificial (IA), levando ao médico o cuidado e não processos burocráticos.”
O projeto OpenCare 5.0, iniciado em 2019 e concluído em 2023, é um símbolo dessa nova fase. Com exames de ultrassom realizados a distância em comunidades remotas do Xingu, no Mato Grosso, ele mostra que conectividade e nuvem, como destacou Ana Claudia, diretora de vendas da Claro empresas, são o verdadeiro alicerce da inclusão em saúde. “Nada faz sentido sem conectividade. É ela que permite levar especialistas a regiões sem médicos, transformar dados em tratamentos mais adequados e incluir quem antes estava fora do sistema.”
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A visão é pragmática. A saúde brasileira, em que o Sistema Único de Saúde (SUS) atende 76% da população, só se sustentará se houver parcerias público-privadas capazes de colocar tecnologias certas nos lugares certos.
IA e wearables avançam, mas é preciso cautela
A inteligência artificial já é peça central para reduzir filas, agilizar diagnósticos e liberar médicos da burocracia. “O objetivo agora é que o profissional volte a olhar para o paciente, não para a tela”, pontuou Sonia.
Ao mesmo tempo, o avanço dos wearables levanta dilemas. Relógios, anéis inteligentes e sensores permitem monitoramento contínuo, como explicou Renato Citrini, gerente de produtos sênior da Samsung, citando pesquisas sobre sono feitas no Brasil.
Mas os riscos também crescem. Iinformações mal interpretadas podem transformar-se em novas formas de fake news da saúde, alertou Sonia. Segundo ela, o uso individual pode ser um risco, enquanto os respaldados por hospitais e médicos, podem, sim, ser uma virada de chave para o setor. A fronteira entre empoderamento e desinformação exige, portanto, preparo técnico, cultura digital e letramento em saúde, gargalos apontados por todos os executivos.
Einstein e o papel dos algoritmos
Edson Amaro Junior, neurorradiologista e líder da área de Global Advanced Technologies for Equity do Hospital Israelita Albert Einstein, acrescentou um olhar prático sobre o tema.
Segundo ele, a instituição já soma 116 algoritmos em produção, desde predição de internações a simulações de risco de síndrome metabólica, inclusive em parceria com o SUS. “Há alguns anos, por exemplo, agentes comunitários na Bahia usaram tablets pela primeira vez e conseguimos prever doenças crônicas. Isso aumentou a eficiência do sistema e ampliou o cuidado populacional.”
Os ganhos são mensuráveis. No Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, algoritmos chegaram a antecipar em até 84 minutos a necessidade de internação, permitindo abrir espaço equivalente a 15 leitos adicionais. Mas Amaro Junior é incisivo quanto ao uso da tecnologia. Para ele, tecnologia sem pessoas não gera transformação. “Investiria muito em gente. São as comunidades que nos dizem como absorver tecnologia.”
Se há uma palavra que marcou todas as falas foi humanização. Para além de big data, internet das coisas (IoT) e IA, Saúde 5.0 é sobre criar sistemas que enxergam o paciente como pessoa. Isso significa liberar médicos de tarefas mecânicas, ajustar tratamentos à genética e ao estilo de vida de cada indivíduo, e, sobretudo, ampliar o acesso em um país desigual e envelhecido. A equação é a mesma de sempre. A tecnologia é meio, não fim. O fim é o cuidado, com tempo, com proximidade, com humanidade.
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