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A imagem está dividida em duas partes, mostrando duas pessoas em ambientes diferentes: Lado esquerdo: A pessoa veste um blazer cinza claro sobre uma camisa social azul escura. O fundo é desfocado, mas parece conter elementos decorativos em tons escuros e claros, sugerindo um ambiente interno sofisticado ou corporativo. Lado direito: A pessoa está com uma camisa social cinza escura, com as mangas dobradas até o antebraço. Segura um smartphone branco na mão esquerda e usa um relógio no pulso. O fundo é neutro, com textura que lembra parede de concreto ou madeira, transmitindo um tom elegante e moderno. (câncer de mama)

Quando vai explicar de onde surgiu a vontade de criar a Linda, Rubens Mendrone começa dizendo: “De alguma forma, estamos todos conectados ao câncer”. O CEO e fundador da startup não está errado. Olhando apenas para o câncer de mama, o estudo “Controle do Câncer de Mama no Brasil: Dados e Números 2025”, publicado em outubro pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima que o Brasil deve registrar 73.610 novos casos em 2025.

Com isso, o país apresenta uma taxa de incidência de 41,89 casos por 100 mil mulheres. Em 2023, foram mais de 20 mil óbitos, com maior concentração nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. No caso de Mendrone, a conexão com a doença veio por meio da madrinha que, diagnosticada tardiamente, veio a falecer. “Quando você encontra um câncer de mama já com sintomas, você já tem um problema muito complexo. E, no caso dela, as lesões foram descobertas muito tarde e o tratamento não foi suficiente”, conta.

O episódio não é uma realidade isolada. Um levantamento feito pelo A.C. Camargo Cancer Center revelou que a taxa de sobrevivência em cinco anos das mulheres com câncer em estágios 1 e 2 é de cerca de 90%, independentemente da faixa etária. Já no estágio 3, a taxa varia de 56% a 77%. No grau mais avançado, o estágio 4, a sobrevida no mesmo período pode chegar a 40%.

Conhecendo as estatísticas e impulsionado pela experiência pessoal, Mendrone decidiu que poderia fazer alguma coisa. O fundador já atuava na área de tecnologia há 25 anos e criou um projeto de software que auxiliaria na democratização do diagnóstico do câncer, inicialmente dentro de um hackathon promovido pela IBM, onde trabalhava. A ideia venceu o programa; no entanto, a partir daí, a Linda precisou viver um longo inverno antes de vir ao mundo.

Incubada

Depois de ter sua ideia germinada em 2017, a startup de Mendrone viveu dois anos de incubação, nos quais seu fundador se dedicou a conhecer a fundo o problema que queria solucionar. “Já tínhamos entendido que a melhor forma de ajudar era pelo diagnóstico, mas queríamos compreender o impacto do câncer de mama.”

Ao mergulhar na temática, conversando com ONGs, médicos e governos, o CEO chegou a uma conclusão inesperada: o problema não era apenas financeiro. Além do Brasil, segundo a World Cancer Research Fund, em 2022 países como França, China, Estados Unidos e até o Japão também figuraram entre os dez com maior incidência da doença. “Foi quando percebemos que o problema estrutural do câncer era um problema de design.”

A partir daí, Mendrone e seu sócio, na época, decidiram se dedicar integralmente à Linda, pedindo demissão do emprego e construindo, aos poucos, uma solução que realmente pudesse auxiliar no diagnóstico do câncer de mama. “Conseguimos uma captação muito rápida, de um milhão e meio de reais em duas semanas. E, como a gente não tinha nem MVP, eu costumo dizer que foi o PowerPoint mais caro que já vendi.”

No dia 12 de setembro de 2019, a Linda começou oficialmente seus trabalhos. Composta pelos dois sócios e um time de três desenvolvedores PJ, a startup tinha pouco menos de um ano para montar seu primeiro MVP. E o caminho até lá seria tortuoso.

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Mesmo com o aporte dos investidores garantido, a empresa não recebeu o valor de forma integral, sendo paga mensalmente e com um fluxo de caixa inexistente até aquele momento. A falta de recursos, somada a uma equipe que atuava no projeto de forma parcial, logo começou a gerar conflitos internos entre os sócios. E, em meio à pressão pela primeira entrega, a Linda, assim como o resto do mundo, entrou em quarentena com a chegada da Covid-19.

“Então, você imagina o que acontece com uma startup que acabou de nascer, que depende do sistema de saúde para existir e que, de repente, não pode mais fazer nada. Não havia mais hospital aberto, centros de coleta de dados abertos, ninguém fazia mais mamografia”, conta o CEO.

Diante das intercorrências, o antigo sócio de Mendrone abandonou o projeto. Ainda assim, o executivo persistiu e, no final de 2021, a Linda tinha sua primeira versão pronta para ser entregue ao primeiro cliente, a Prefeitura de São Caetano. O resultado, no entanto, estava longe do esperado. “Percebemos que era uma plataforma não escalável, sem manutenção, porque todos os desenvolvedores haviam sumido, e senti que estava muito mal desenhada.” Foi então que o CEO decidiu buscar um novo parceiro.

Um milagre em 30 dias

O desafio era grande: em apenas 30 dias, seria necessário fazer um redesign de toda a plataforma e proporcionar uma nova experiência para a Linda. O novo parceiro escolhido por Mendrone foi a software house e consultoria Buildbox. No entanto, para a surpresa do executivo, a empresa tinha uma visão diferente. “Quando mostrei o projeto, eles falaram: ‘Cara, do jeito que está não dá nem para mexer, precisamos fazer do zero’. E fizeram.”

Em um mês, a consultoria colocou de pé o software no qual a Linda opera até hoje. Para isso, foi preciso unir tecnologia e pesquisa, somando forças com profissionais da Unicamp e da USP para desenvolver a rede neural do programa.

“Como nós desenvolvemos o modelo computacional, nosso maior desafio foi criar o dataset de treinamento, porque precisávamos da imagem termográfica da mama, os exames de referência mesmo. E aí fomos buscar na academia”, conta Daniel Bragion, CEO e cofundador da Buildbox.

O empresário explica que, apesar da intensidade, foi o modelo de negócios da Buildbox que permitiu a entrega do projeto em tão pouco tempo. Criada com o propósito de apoiar empreendimentos de impacto por meio da tecnologia, a companhia atua com um sistema que possibilita a alocação de profissionais conforme a necessidade de cada cliente, garantindo a execução completa do projeto. Além disso, para Bragion, participar da construção da Linda trouxe um motivador especial.

“Não é sempre que temos a oportunidade de trabalhar em projetos com um impacto social tão grande. Ajudar uma startup que busca endereçar uma causa tão importante é um presente.”

E esse presente logo se transformou em parceria: após a entrega, a Buildbox entrou como equity partner da Linda, tornando-se sócia da startup.

Diagnósticos de câncer à todo vapor

Quatro anos depois, a Linda ainda opera por meio do mesmo sistema. Até o momento, já foram realizados 30 mil exames, sem nenhuma ocorrência de falso resultado, mesmo com uma base de atendimento de quase 4 milhões de mulheres no Brasil, entre o sistema público e o privado.

Para utilizá-la, o operador precisa apenas de conexão à internet e de um sensor infravermelho conectado a um dispositivo. Por meio dele, é feita uma foto da mama exposta, que é inserida na rede neural da Linda. Em seguida, o sistema classifica o caso como suspeito ou não suspeito de câncer em um período de 15 a 20 segundos.

“É importante ressaltar que a Linda não dá diagnóstico de câncer de mama. Nem a mamografia, na verdade. O que ela aponta é uma suspeita, e quem dá o diagnóstico é a biópsia e o médico”, alerta Mendrone.

Após o sucesso no Brasil nos últimos anos, em 2023 a empresa recebeu o prêmio de melhor healthtech do G20 e agora planeja sua expansão internacional. “No dia 27 de novembro, a gente chega ao Japão. E estamos trabalhando para entrar no Canadá e nos Estados Unidos a partir da metade do ano que vem. E na Suíça também, em algum momento”, finaliza o CEO.

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