
Na Loggi, empresa de entregas, a Black Friday começa semanas antes da data. Os cross-docks lotam ainda em novembro e equipes de engenharia assumem um regime de escalonamento acelerado para resolver possíveis incidentes em minutos. Em meio a esse cenário de “planta industrial viva”, como descreve Diego Cançado, vice-presidente de Produto e Tecnologia da Loggi, a empresa já opera em velocidade máxima antes mesmo do pico.
A Loggi processa cerca de 500 mil pacotes por dia em condições normais. Nos dias quentes do varejo, esse número sobe consideravelmente. Embora a empresa não abra o volume exato da Black Friday, Cançado confirma que a malha chega ao limite e exige operação em três turnos.
O clima é de “guerra logística”, mas com uma diferença importante em relação a anos anteriores. Hoje, a maior parte desse esforço é sustentada por uma infraestrutura de inteligência artificial (IA) que reorganiza rotas, reduz quilômetros rodados, melhora a densidade de entregas e automatiza o atendimento de 22 mil clientes de pequenas e médias empresas (PMEs).
A Loggi nasceu como uma startup de entregas locais há mais de uma década, mas se consolidou como uma das três maiores transportadoras privadas do País. A empresa atende 19 dos 20 maiores e-commerces e opera uma malha nacional que combina grandes marketplaces, pequenas lojas, parcerias como a entrega white label dentro do app do Uber e uma rede de 1,3 mil pontos de coleta voltados principalmente para PMEs. Nos últimos dois anos, foi justamente esse segmento que mais cresceu. “O PME já mais do que dobrou ano contra ano. Hoje é o nosso motor de crescimento”, afirma Cançado.
Com operação distribuída pelo país, a Loggi transforma o Brasil em um laboratório pujante para inovação logística. O país é benchmark exclusivo da Uber para entregas nacionais, mantém operações concentradas em São Paulo e expande em ondas controladas. A empresa lançou um Mapa da Logística com dados trimestrais do varejo e do comportamento de PMEs, que se tornaram o principal vetor de receita.
O que conecta tudo, segundo Cançado, é o DNA de tecnologia. “Isso muda tudo. Testar, errar rápido, voltar, mexer no processo e no algoritmo ao mesmo tempo. Isso é o que mantém a operação eficiente mesmo quando o Brasil vira de ponta-cabeça”, afirma.
Segundo ele, a Black Friday, nesse contexto, não é apenas o maior teste do ano. É o momento em que fica claro se a engenharia que a Loggi construiu consegue suportar um país inteiro comprando ao mesmo tempo.
Engenharia invisível
A escalabilidade da Loggi depende de um conjunto de decisões que mistura logística pesada e engenharia de software. A empresa mantém monitoramento em tempo real de caminhões, links de internet, rotas de last mile e comportamento de entregadores. Um incidente em qualquer etapa gera um alerta automático que chega aos times de controle e à liderança. Na Black Friday, o processo se intensifica, com escalonamento acelerado e suporte 24/7.

Centro de Distribuição da Loggi. Foto: Divulgação
No last mile, nada é aleatório, afirma o executivo. Cada pacote é bipado em todas as etapas, e a ausência de leitura aciona imediatamente o time de perdas. Entregadores operam via aplicativo, precisam confirmar recebimento dos volumes, seguir rotas monitoradas e registrar foto, assinatura e geolocalização em cada entrega. Para uma empresa que lida com 200 mil entregadores no Brasil, o desafio não é apenas tecnológico. É estatístico. “Ainda existe fraude. Mas a quantidade que conseguimos mitigar com processo e tecnologia é gigantesca”, diz Cançado.
Esse sistema evita desvios, identifica anomalias e permite rastreamento ultradetalhado, com dados suficientes para apontar em que veículo e em qual placa um pacote esteve.
Salto de eficiência com IA
Boa parte da revolução recente da Loggi passa pelo que Cançado chama de “a joia da coroa”. Trata-se do algoritmo de roteamento por IA que substituiu o modelo tradicional usado por transportadoras, baseado em agrupamento por CEP. Em vez de rotas estáticas, a Loggi adota um rezoneamento dinâmico que muda diariamente conforme a distribuição geográfica de milhares de pacotes.
O sistema calcula densidade de entregas, minimiza deslocamentos, equilibra rotas entre motoristas e reduz quilômetros rodados. O impacto aparece nos indicadores ambientais e de eficiência operacional, mas também habilita a companhia a competir em preço com grandes varejistas, oferecendo a PMEs um custo próximo ao que uma gigante paga. “Esse algoritmo é o que nos diferencia. É uma vantagem competitiva real. Reduzimos quilômetros e toneladas de CO₂. Ele muda o jogo”, afirma Cançado.
Thiago Valinho, diretor de produto da Loggi, complementa que a eficiência depende da combinação entre tecnologia e reengenharia operacional. O projeto Agência 2.0, implantado inicialmente na unidade que atende o centro expandido de São Paulo, envolveu testes com dezenas de layouts, correlações não óbvias e ajustes milimétricos de processos físicos.
“Descobrimos que, se o operador bipar o pacote da direita para a esquerda, economiza um segundo. Um segundo por pacote é uma eternidade na escala da Loggi”, exemplifica.
IA que atende o cliente
Do lado do usuário, a IA também avança na Loggi. O chatbot Lore nasceu para resolver uma dor inevitável: a escalada de pequenos e médios clientes, que saltou de 500 para 22 mil em dois anos. A ferramenta opera por trás com mais de 50 agentes internos, cada um treinado para resolver um cenário específico de exceção logística. O resultado é um índice de atendimento automático próximo de 80%, reduzindo drasticamente o volume de chamados humanos.
Com linguagem natural e integração com sistemas internos, a Lore identifica o cliente, consulta o tracking real, interpreta a causa provável do atraso e devolve uma data ajustada ou instruções de resolução. “Logística é complexa demais para um único agente. Então criamos vários, cada um especialista em um tipo de problema, e a IA escolhe quem atua”, explica Cançado.
A empresa criou, ainda, uma plataforma corporativa de agentes generativos com governança, guardrails e revisão de segurança antes da entrega. Times de finanças, operações e controle já desenvolvem seus agentes para automatizar tarefas.
Na Loggi, produto e tecnologia andam juntos
A evolução recente da Loggi também veio de uma mudança organizacional. Cançado assumiu simultaneamente os papéis de CPO e CTO, uma tendência que cresce no mercado, especialmente em empresas nativas digitais. Na prática, isso significa equilibrar débitos técnicos, eficiência operacional e desenvolvimento de novos produtos em um único roadmap, entrelaçado como a própria malha logística da empresa.
“A Loggi tem um produto só, entrega nacional, mas esse produto atravessa caminhão, cross-dock, last mile, financeiro, fiscal, tracking, integração. Qualquer mudança impacta todos os times. O roadmap é completamente cruzado”, afirma.
A escolha de prioridades, segundo ele, é trimestral na execução e semestral na estratégia, sempre com foco na margem, a métrica-mãe do negócio. Em logística, mais pacotes nem sempre significam mais receita. Um excesso em uma região pode exigir caminhões extras e, portanto, aumentar custos, explica. O planejamento se ajusta conforme gargalos reais, como middle mile, sazonalidade e campanhas inesperadas do varejo.
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