
O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) tem provocado alertas sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho, especialmente sobre funções iniciadas por profissionais em início de carreira. Enquanto alguns executivos projetam a eliminação em larga escala de vagas de nível júnior, o CEO da Amazon Web Services (AWS), Matt Garman, segue na contramão desse discurso. Para ele, substituir jovens profissionais por IA é um erro estratégico que pode comprometer o futuro das empresas.
Em entrevista recente à revista WIRED, e segundo informações da Fortune, Garman classificou a ideia de trocar desenvolvedores juniores e outros cargos de entrada por sistemas automatizados como uma das decisões mais equivocadas que uma organização pode tomar. Segundo o executivo, além de não gerar ganhos reais de eficiência, essa escolha fragiliza a construção de um pipeline de talentos e mina a capacidade de inovação ao longo do tempo.
De acordo com Garman, profissionais em início de carreira costumam representar o menor custo salarial dentro das empresas e, ao mesmo tempo, trazem repertórios atualizados, familiaridade com ferramentas digitais e disposição para experimentar novas abordagens. Na avaliação dele, cortar esses postos e concentrar equipes apenas em profissionais mais experientes não é financeiramente racional nem sustentável do ponto de vista organizacional.
O CEO da AWS também chama atenção para o papel formativo dessas posições. Para ele, empresas que deixam de contratar jovens profissionais perdem a oportunidade de desenvolver talentos internamente, promover mentorias e criar uma base sólida para o futuro. Sem esse processo contínuo de formação, a organização corre o risco de estagnar e enfrentar escassez de ideias novas.
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O que diz o mercado?
A fala de Garman contrasta com declarações recentes de outros líderes do setor. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, já alertou para o potencial da IA em substituir trabalhadores em funções iniciais, enquanto Jim Farley, CEO da Ford, chegou a afirmar que a tecnologia pode eliminar até metade dos empregos de colarinho branco. Nesse cenário, o posicionamento da AWS reforça a existência de visões divergentes sobre como a IA deve ser integrada às estruturas de trabalho.
Estudos acadêmicos indicam que o impacto da IA sobre profissionais mais jovens já começa a se materializar. Uma pesquisa da Universidade de Stanford, publicada em agosto, apontou que a chamada “revolução da IA” tem afetado de forma desproporcional trabalhadores em início de carreira nos Estados Unidos, especialmente engenheiros de software entre 22 e 25 anos e profissionais de atendimento ao cliente. O levantamento sugere que essas funções estão entre as mais suscetíveis à automação no curto prazo.
Mesmo defendendo a preservação e o fortalecimento dos cargos de entrada, a própria Amazon passou por um ciclo recente de demissões. No segundo semestre, a empresa anunciou o corte de cerca de 14 mil postos de trabalho, com foco principalmente em cargos de média gerência. Houve ainda desligamentos pontuais em áreas como a própria AWS, a divisão de podcasts Wondery e a unidade de dispositivos de consumo.
A empresa, no entanto, evitou associar essas demissões diretamente ao avanço da inteligência artificial. Em declarações públicas, o CEO da Amazon, Andy Jassy, afirmou que os cortes estavam ligados a um esforço de eficiência após um período de forte crescimento e à necessidade de corrigir desalinhamentos culturais internos. Segundo ele, naquele momento, a decisão não tinha motivação financeira nem estava relacionada diretamente à adoção de IA.
No contexto da AWS, a discussão sobre IA e força de trabalho ganha relevância adicional. A unidade é uma das principais fornecedoras globais de infraestrutura para aplicações de inteligência artificial e, ao mesmo tempo, emprega milhares de engenheiros, desenvolvedores e especialistas em nuvem. A visão de Garman sugere que, mesmo em um ambiente altamente automatizado, o papel dos profissionais humanos — especialmente os mais jovens — segue sendo considerado estratégico.
Para o executivo, a questão central não está em escolher entre pessoas ou tecnologia, mas em construir modelos organizacionais que combinem o uso da IA com o desenvolvimento contínuo de talentos. A eliminação de cargos de entrada, segundo ele, compromete essa equação e pode gerar efeitos negativos que só se tornam visíveis anos depois, quando a falta de renovação começa a impactar a capacidade de crescimento das empresas.
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