Skip to main content

Homem de terno interagindo com uma tela digital que exibe ícones relacionados a impostos, como "TAX", "TAX REFUND" (restituição de imposto), carrinho de compras, cofre e calendário fiscal. A imagem remete ao conceito de reforma tributária e digitalização dos processos fiscais, com fundo azul e elementos gráficos que simulam conectividade global (tecnologia, Brasil)

Por Claudio Tancredi e Enrico Zampolli Pires

A reforma tributária sancionada em 2025 marcou um divisor de águas no sistema fiscal brasileiro. Com a implementação do modelo de IVA dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), além da criação do Imposto Seletivo, o país iniciou uma transição que promete simplificar a tributação e reduzir a complexidade operacional enfrentada pelas empresas. Ao analisar os primeiros impactos desse processo, torna-se possível identificar aprendizados relevantes, desafios estruturais e oportunidades estratégicas para o período que se estende até 2027.

A regulamentação da Emenda Constitucional nº 132/2023, formalizada em 2025, deu início à substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS. O novo modelo trouxe mecanismos como o cashback para famílias de baixa renda e a tributação no destino, reforçando o objetivo de promover maior justiça fiscal. Entre 2025 e 2026, foram realizados testes com alíquotas reduzidas da CBS e do IBS, em preparação para o início da substituição efetiva do PIS/Cofins pela CBS a partir de 2027. Essa mesma etapa marcará o início da implementação gradual do IBS em substituição ao ICMS e ao ISS, com conclusão prevista para 2033.

O período inicial de adaptação foi marcado por desafios expressivos. As empresas se viram diante de necessidades de atualização profunda em seus sistemas de gestão, incluindo mensagerias, plataformas de comércio exterior, ferramentas de obrigações fiscais, sistemas de fluxo de caixa, BI e outros componentes diretamente impactados pelas mudanças. Em especial, os ERPs exigiram atenção redobrada, revelando cenários diversos: organizações com suporte ativo do fabricante, mas operando em versões antigas incapazes de receber os novos pacotes; empresas atualizadas, mas inseridas em instâncias globais com múltiplos países; e casos em que não há suporte oficial ou sequer suporte terceirizado disponível.

Leia também: Por que agentes de código ainda não estão prontos para produção, segundo engenheiros da Microsoft e LinkedIn

Essas situações geraram impactos técnicos e operacionais que se refletiram tanto em processos de TI quanto em atividades de negócio. No ERP, houve necessidade de criar novos impostos, agrupadores e classes, além de atualizar alíquotas, parametrizações contábeis e cenários fiscais. Nos cadastros, itens, fornecedores, clientes e entidades precisaram incluir atributos adicionais relacionados ao cálculo dos novos tributos. Já nos dados transacionais, processos de emissão e recebimento de notas fiscais passaram a exigir novos campos de conferência, assim como ajustes na contabilização. Integrações com BI, sistemas de comércio exterior e soluções automáticas de recebimento também precisaram ser revistas para incorporar corretamente as novas regras tributárias. No nível estratégico, setores como serviços observaram aumento de carga, enquanto áreas como agronegócio foram beneficiadas pela redução de tributos sobre itens essenciais.

Apesar do intenso esforço exigido, esse cenário abriu oportunidades significativas para gerar valor real ao negócio. Para acelerar a adaptação, diversas organizações do mercado passaram a desenvolver ou adotar aceleradores e frameworks internos capazes de reduzir o tempo de atualização das parametrizações fiscais nos ERPs, especialmente em ambientes complexos. Essas iniciativas surgiram como alternativas para ampliar eficiência e reduzir esforços manuais, considerando a urgência das mudanças e a necessidade de manter a operação estável durante todo o período de transição.

Outra oportunidade identificada envolve a automação de testes. Diante da enorme quantidade de cenários fiscais, atualizações de sistemas e mudanças de processos, tornou-se necessário testar praticamente todo o ambiente diversas vezes. Considerando que, nos próximos anos, alíquotas serão alteradas e novas leis complementares devem ser publicadas, a necessidade de testes recorrentes se torna inevitável. Com isso, empresas de diferentes segmentos intensificaram o uso de ferramentas de gestão de testes, automação e controle de qualidade, garantindo maior rastreabilidade dos resultados e liberando o usuário final para atuar apenas na validação crítica. Práticas estruturadas de QA passaram a ganhar mais espaço, com adoção crescente de metodologias e soluções amplamente utilizadas no mercado.

Para 2026 e 2027, as expectativas apontam para a regulamentação definitiva do IBS e da CBS, ajustes adicionais nos sistemas tecnológicos e maior clareza sobre regimes específicos. Será um período crucial, marcado pela consolidação das mudanças e pela adaptação contínua das empresas ao novo modelo fiscal.

A reforma tributária representa uma oportunidade histórica para modernizar o sistema fiscal brasileiro. Embora os desafios sejam significativos, os benefícios em termos de simplificação, previsibilidade e competitividade são claros. O sucesso dependerá da capacidade das empresas de se prepararem com antecedência, estruturarem processos e adotarem soluções tecnológicas adequadas para suportar a nova dinâmica tributária.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!