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Maurício Benvenutti, sócio da StartSe. Foto: Divulgação

Em um momento em que a tecnologia avança exponencialmente e as carreiras se transformam, Maurício Benvenutti, sócio da StartSe, traduz sua trajetória em um conjunto de aprendizados urgentes para a nova geração de talentos que em breve estarão no mercado de trabalho.

Durante a quarta edição do Tomorrow Learning, imersão realizado de 19 a 21 de janeiro em São Paulo, para jovens entre 15 e 20 anos de idade conhecerem negócios construídos com a perspectiva global e transformadora do Vale do Silício, nos Estados Unidos, Benvenutti lembrou o descompasso entre o pensamento linear humano e a curva exponencial que passou a reger mercados, modelos de negócio e decisões. “Nós pensamos 1, 2, 3, 4. A tecnologia avança 1, 2, 4, 8, 16”, afirma. A diferença entre essas duas linhas, diz ele, é onde mora tanto o risco quanto a oportunidade.

Benvenutti faz parte da geração que viveu e ajudou a construir os dois lados dessa curva. Cresceu em Vacaria, no interior do Rio Grande do Sul, em uma infância simples, repleta de liberdade, mas também marcada por limitações estruturais. Vindo de uma família de professores, viveu o que ele mesmo descreve como “vida modesta, Coca-Cola só no domingo”. A primeira grande ruptura veio ainda adolescente, quando desistiu de medicina após ler um livro que escancarava o cotidiano da profissão. “Medicina é maravilhosa, mas percebi que não era para mim”, lembra.

A decisão o levou à computação e, depois, à administração com ênfase em sistemas. O primeiro estágio como programador abriu portas para uma vida que mudaria novamente aos 25 anos, quando, mesmo vivendo um cenário confortável com emprego estável, carro do ano, apartamento comprado e viagens internacionais, decidiu trocar a segurança pela incerteza.
“Minha vida estava conveniente demais para os 25 anos. Conveniência é para quando você está mais velho; aos 25, você tem energia para apostar alto”, afirma. Foi assim que entrou na XP, então com apenas 30 funcionários. O resto da história já faz parte da história do mercado financeiro.

A XP cresceria, quase quebraria em 2008, demitiria 400 pessoas em um só ciclo e, ainda assim, encontraria tração. Benvenutti viveu o melhor e o pior dos empreendimentos: crescimento veloz, tomada de risco, noites em claro e uma década sem fins de semana. “Tinha dias em que eu chegava para demitir 10, 12 pessoas. Foi traumático”, relembra. Mas também foi ali que internalizou talvez seu ensinamento mais recorrente: estar cercado de gente muito boa. “Em momentos difíceis, é isso que salva uma empresa.”

Há algo nesta parte da história que soa quase poético na sua obviedade. A tecnologia pode se mover em saltos, mas a carreira é construída em camadas, algumas lineares, outras abruptas, todas inevitáveis. E, de vez em quando, é no desconforto que nasce a próxima versão de si mesmo.

Carreiras viraram coleções de projetos

Em 2015, já sócio da XP, Benvenutti decidiu recomeçar mais uma vez. Pediu demissão e se mudou para o Vale do Silício para estudar em Berkeley, com o compromisso de ficar apenas 18 meses. Essa temporada mudaria não só sua carreira, mas o destino da StartSe. A curiosidade, motor silencioso das transformações, fez com que começasse a frequentar meetups, eventos, empresas, conversas informais. A exposição constante abriu portas. “Eu dava a cara para bater todos os dias. Estava em tudo, falando com todo mundo”, diz.

Foi ali que nasceu a tese que ele repassa hoje aos jovens: comece com o que você tem. A primeira imersão da StartSe no Vale surgiu literalmente de um site feito em 30 minutos no Wix, sem produto, sem metodologia, sem estrutura. Ele e Junior Bornelli investiram US$ 500 em anúncios no Google. Em uma semana, 13 pessoas compraram. Só então o produto foi criado. “Se você não tem vergonha da primeira versão do seu produto, lançou tarde demais”, comenta Benvenutti, ecoando Reid Hoffman, fundador do LinkedIn.

A história serve como metáfora para a nova lógica das carreiras, especialmente para quem está entrando agora no mercado. Benvenutti rejeita a ideia de uma trajetória linear, contínua e previsível. Para ele, as carreiras do futuro e, na prática, já do presente, são compostas por miniprojetos sucessivos, cada um abrindo caminho para o próximo. “A carreira é uma sequência de pequenos projetos. Vocês vão se descobrir muitas vezes ao longo da vida. A descoberta não é um evento, é uma jornada contínua”, aponta.

Há momentos, raros mas decisivos, em que o mundo parece se reorganizar silenciosamente ao nosso redor. “No silêncio entre dois ciclos tecnológicos, é ali que a estratégia costuma nascer.” Talvez esse seja o ponto que Benvenutti tenta ensinar. Não se trata de escolher um destino, mas de aprender a reconhecer quando a curva muda e ter coragem de acompanhá-la.

O que a nova geração precisa saber sobre disrupção

A tecnologia, diz ele, opera segundo leis próprias e compreendê-las significa entender o que diferencia empresas que prosperam das que desaparecem. Em sua explicação sobre os 6 Ds da Singularity University, Benvenutti resume o ciclo de transformação: digitalização, decepção inicial, disrupção, desmaterialização, desmonetização e democratização. “Todo setor será digitalizado, sem exceção. O risco está em pensar de forma linear quando o mundo avança de forma exponencial”, afirma.

O exemplo do Nubank, que saltou de zero a cinco milhões de clientes com um cadastro digital, é emblemático. Uber, Spotify, Tesla, Netflix se somam à lista. Todos pareceram inofensivos no início, até que, de repente, tornaram irrelevantes os modelos anteriores. “Quando rompe, não segura mais. É 1, 2, 4, 8, 16. O mercado acorda tarde”, diz.

Para a nova geração, o recado do executivo de entender a lógica exponencial é mais importante do que dominar uma tecnologia específica. Processos, modelos mentais e capacidade de adaptação importam mais do que códigos técnicos que podem mudar a cada seis meses. É preciso aceitar que o digital, antes de tudo, redistribui poder e que a democratização é sempre o último estágio de uma revolução.

E, se a tecnologia se move multiplicando-se, as pessoas precisam aprender a multiplicar-se também. “Dar a cara para bater” aparece como um mantra em sua fala. Exposição, iniciativa, coragem de errar enquanto ainda é barato. “Se existe um momento na vida para tomar risco, é no começo da carreira. Não quando você já tem muito a perder”, diz.

A fala de Benvenutti sintetiza um ponto que ressoa para qualquer jovem que inicia sua trajetória. O futuro não é planejado, é construído em camadas. E, no mundo exponencial, o que se constrói hoje se projeta muito além do que se enxerga.
Carreiras deixarão de ser avenidas e se tornarão labirintos criativos. As oportunidades virão para quem souber observar padrões, agir antes do “momento óbvio” e aceitar que, às vezes, o desconforto é apenas o prenúncio de um salto. No fim, como ele mesmo diz, “comece com o que você tem”. Para ele, tecnologia, mercado, timing se reorganizam com o movimento.

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