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Neste ano, a IA deixou de ser “divertida” para se tornar uma ferramenta de trabalho cobrada por eficiência. robô – Imagem: Paulo Silvestre

A CES 2026, realizada em Las Vegas, nos Estados Unidos, no começo do ano, voltou a ocupar o imaginário do mercado de tecnologia com robôs, wearables e promessas de um futuro cada vez mais automatizado. Mas, por trás do espetáculo visual, os sinais mais relevantes estão menos ligados à novidade e mais à maturidade.

Para líderes de tecnologia, especialmente CIOs, CTOs e responsáveis pelo espaço trabalho digital, a principal mensagem da feira é a de que a inteligência artificial (IA) começa a sair do discurso e a gerar impacto concreto no trabalho operacional, na experiência do funcionário e na performance dos negócios.

A avaliação é de Christy Punch, analista principal da Forrester Research, que participou pela primeira vez do evento e analisou os principais movimentos apresentados na edição de 2026 da feira. Segundo ela, a CES deixou evidente que a IA começa a cumprir uma promessa antiga: conectar a experiência digital do colaborador a resultados mensuráveis de eficiência, segurança e qualidade.

Um dos destaques foi o avanço das aplicações de IA voltadas à linha de frente. Em vez de soluções genéricas, os casos apresentados mostraram como a combinação de inteligência artificial, machine learning e tecnologias operacionais pode transformar ambientes industriais e serviços críticos. Um exemplo foi o trabalho desenvolvido pela Siemens em parceria com a Nvidia, no que vem sendo chamado de “metaverso industrial”.

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Nesse modelo, ambientes produtivos são representados por gêmeos digitais, tanto físicos quanto dos próprios trabalhadores, alimentados por dados operacionais em tempo real. Antes de qualquer mudança no chão de fábrica, sistemas de IA simulam cenários, testam fluxos de trabalho e avaliam riscos. Além de ganhos de produtividade, o principal benefício destacado foi a segurança: processos podem ser ajustados sem expor pessoas a situações de risco, e a alocação de tarefas considera habilidades e características físicas dos trabalhadores.

Outro caso citado envolve transporte público e infraestrutura urbana. Em parceria com a Google, a Metropolitan Transportation Authority (MTA), de Nova York, passou a usar smartphones acoplados aos trens para captar vibrações e sons dos trilhos. Modelos de IA analisam esses dados e identificam sinais precoces de falhas. A inspeção humana continua presente, validando os alertas e ajudando a treinar os algoritmos. O resultado aparece em várias camadas: condições de trabalho mais seguras para os técnicos, melhor experiência para os usuários e redução de custos com manutenção corretiva.

IA no centro do ecossistema

Além da linha de frente, a CES 2026 também reforçou uma mudança estrutural no design das experiências digitais. A IA deixa de ser um recurso adicional e passa a ocupar o centro do ecossistema. Em vez de aplicações isoladas, os fornecedores apresentaram arquiteturas em que a inteligência artificial atua como um núcleo, conectando dispositivos, sistemas e fluxos de trabalho de forma contínua e personalizada.

A Lenovo exemplificou essa abordagem ao apresentar uma camada de inteligência pessoal capaz de acompanhar o usuário entre diferentes dispositivos, respeitando níveis de controle e consentimento. A proposta é que a IA funcione como uma espécie de assistente ambiental, oferecendo suporte quando necessário e aprendendo com o contexto de uso.

Esse movimento traz implicações diretas para a gestão de TI, especialmente em ambientes de trabalho híbridos e políticas de BYOD. Com mais processamento acontecendo na borda, nos próprios dispositivos dos usuários, crescem os desafios relacionados à segurança da informação, privacidade, conformidade regulatória e uso não autorizado de ferramentas de IA. Modelos tradicionais de gestão de dispositivos tendem a se mostrar insuficientes diante desse cenário.

Os wearables também ganharam espaço na feira, ainda que de forma mais silenciosa. Óculos inteligentes, sensores corporais e dispositivos vestíveis começam a conectar experiência do funcionário, experiência do cliente e bem-estar. Demonstrações mostraram, por exemplo, trabalhadores industriais recebendo suporte remoto em tempo real por meio de óculos inteligentes, com especialistas visualizando exatamente o que o operador vê. Em setores de risco, como energia e saúde, esse tipo de visibilidade pode significar redução de acidentes e respostas mais rápidas.

Ao mesmo tempo, esses dispositivos ampliam o debate sobre riscos. Wearables cada vez mais discretos, capazes de captar áudio, vídeo e dados biométricos, exigem novas políticas de privacidade, proteção de propriedade intelectual e capacitação de lideranças para lidar com esse nível de exposição.

Apesar do otimismo em torno da IA, a CES também trouxe um contraponto importante: nem toda automação está pronta para substituir o trabalho humano. Demonstrações de robôs ainda limitados em tarefas simples reforçaram que o desafio não está apenas na tecnologia, mas em escolher os problemas certos para resolver.

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