
Marcelo Camargo/Agência Brasil
O avanço da inteligência artificial deve impulsionar a produtividade global, mas também tende a provocar deslocamento relevante de trabalhadores e pressionar os gastos públicos com proteção social, segundo novo relatório da Moody’s Ratings. A agência afirma que, para os governos, o principal desafio não será apenas capturar os ganhos de eficiência trazidos pela tecnologia, mas administrar o aumento dos custos sociais e fiscais associados ao desemprego.
De acordo com o estudo “Ganhos de produtividade da IA dependerão de características demográficas e estruturas ocupacionais”, publicado em fevereiro, a inteligência artificial — especialmente a IA generativa — deve elevar a produtividade do trabalho em cerca de 1,5% ao ano, em média, considerando uma amostra de 106 países. Esse avanço virá da combinação entre automação de tarefas, aumento de capacidades dos profissionais e reemprego da mão de obra deslocada.
Ainda assim, a Moody’s alerta que os ganhos de eficiência não se convertem automaticamente em crescimento econômico, já que a adoção da tecnologia envolve investimentos, reorganização de processos e possíveis retornos decrescentes ao longo do tempo.
O ponto central do relatório, porém, está na assimetria entre economias. Nas chamadas Economias Avançadas (EAs), a exposição à inteligência artificial é significativamente maior. Quase 30% dos empregos estão em ocupações com alta exposição e alta complementaridade à IA — ou seja, funções que tendem a se beneficiar do uso da tecnologia. Esse perfil faz com que os ganhos potenciais de produtividade nas EAs sejam mais elevados, variando entre 1,2% e 2,9% ao ano, dependendo do país.
Ao mesmo tempo, é nesse grupo que os riscos sociais aparecem de forma mais aguda. A Moody’s chama atenção para o envelhecimento da população em muitas economias avançadas, como países da Europa, por exemplo, o que tende a dificultar a realocação de trabalhadores mais velhos em novas funções. Parte desses profissionais pode enfrentar períodos mais longos de desemprego, migrar para postos menos produtivos ou até antecipar a saída do mercado de trabalho.
Na prática, isso aumenta a pressão sobre benefícios sociais, previdência, programas de requalificação e, indiretamente, sobre a arrecadação tributária. Para a agência, mesmo que a automação ajude a compensar a escassez de mão de obra em países mais envelhecidos, os custos fiscais do deslocamento do trabalho podem reduzir parte dos ganhos econômicos esperados com a IA.
Já nos Mercados Emergentes (MEs), como o Brasil, além de países como China e Índia, o impacto inicial tende a ser menor e mais lento. Segundo a Moody’s, apenas 16% dos empregos estão em ocupações com alta exposição e alta complementaridade à IA, enquanto cerca de 24% se concentram em funções com alta exposição e baixa complementaridade. Como resultado, os ganhos médios de produtividade estimados para esse grupo ficam entre 0,4% e 1,4% ao ano, patamar inferior ao observado nas economias avançadas.
A explicação está, principalmente, em fatores estruturais. Salários mais baixos reduzem o incentivo econômico para automatizar tarefas e investir em IA, enquanto limitações de infraestrutura digital dificultam a disseminação da tecnologia em larga escala. Com isso, muitos mercados emergentes acabam ficando menos expostos, no curto prazo, ao desemprego provocado pela IA — mas também capturam menos ganhos de produtividade.
O relatório, no entanto, evita tratar os mercados emergentes como um bloco homogêneo. A Moody’s destaca que países com infraestrutura digital mais avançada, maior preparo institucional e políticas públicas favoráveis à inovação podem acelerar a adoção da inteligência artificial e obter ganhos acima da média do grupo.
Outro fator decisivo para o tamanho do impacto social será a capacidade de reemprego da mão de obra deslocada. A Moody’s reconhece que, em ciclos tecnológicos anteriores, trabalhadores conseguiram migrar para novas ocupações com produtividade e salários mais altos. Desta vez, porém, a escala da automação e o alcance da IA sobre tarefas cognitivas tornam o resultado mais incerto. Caso os profissionais não consigam se recolocar ou acabem concentrados em funções menos produtivas, o efeito será a desaceleração do crescimento salarial, aumento do desemprego estrutural e maior pressão sobre as redes de proteção social.
O post Desemprego gerado pela IA vai aumentar custos sociais, diz Moody’s apareceu primeiro em Startups.


