
O Brasil vive um momento de transição no cenário tecnológico global. Depois de décadas atuando majoritariamente como consumidor de inovação estrangeira, o País busca ampliar sua participação na criação de tecnologias próprias. Em Goiânia, esse movimento ganha escala a partir do Centro de Competência Embrapii em Tecnologias Imersivas Aplicadas a Mundos Virtuais (AKCIT), iniciativa vinculada à Universidade Federal de Goiás (UFG) e desenvolvida em parceria com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA).
Com investimento total de R$ 74 milhões — sendo R$ 14 milhões destinados à infraestrutura física e R$ 60 milhões a projetos de desenvolvimento tecnológico — o centro estruturou, no Centro-Oeste, uma das maiores iniciativas latino-americanas voltadas à inteligência artificial aplicada. A proposta é reduzir um gargalo histórico da inovação brasileira: transformar ciência de base em soluções de mercado sem abrir mão da autonomia tecnológica.
Para o professor Anderson Soares, doutor em Engenharia Eletrônica e Computação pelo ITA, o principal desafio está no descompasso entre universidade e indústria. “A ciência não segue o relógio do mercado. Há pesquisadores que dedicam décadas a uma descoberta. Quando ela acontece, o impacto é profundo e muda setores inteiros, como vimos com as vacinas recentes ou com a própria inteligência artificial”, afirma.
Segundo ele, enquanto a pesquisa exige continuidade e financiamento público, o ambiente empresarial opera em ciclos curtos. Em economias emergentes, essas janelas podem durar apenas dois ou três anos. “Se a empresa não estiver preparada para absorver a tecnologia, ela corre o risco de implementar algo que não consegue sustentar ao longo do tempo”, diz. Nesse contexto, o AKCIT atua também na formação de empreendedores e equipes capazes de operar e evoluir soluções complexas.
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A estratégia se apoia em infraestrutura computacional rara na região. O centro adquiriu seis unidades do supercomputador Nvidia DGX-B200, com desempenho até 3,5 vezes superior às gerações anteriores, formando a primeira estrutura desse porte instalada na América Latina. A base tecnológica inclui ainda 55 estações de pesquisa em laboratórios imersivos e 15 plataformas robóticas destinadas a experimentos de automação e interação homem-máquina. Apenas em equipamentos laboratoriais, o investimento ultrapassa R$ 14 milhões.
A existência dessa infraestrutura busca reduzir a dependência de recursos computacionais estrangeiros e evitar que projetos nacionais migrem para centros internacionais por falta de capacidade técnica local.
Da infraestrutura à soberania tecnológica
Os efeitos começam a aparecer na criação de empresas originadas da pesquisa acadêmica. A Cília Tecnologia desenvolveu um sistema de inteligência artificial capaz de analisar sinistros automotivos a partir de fotografias enviadas por celular. Processos que antes levavam cerca de dez dias passaram a ser concluídos praticamente em tempo real.
“Quando a inovação nasce localmente, toda a cadeia permanece no País. Não é apenas o software que se desenvolve aqui, mas também os empregos, o conhecimento e os serviços associados”, afirma Soares, ao destacar o impacto econômico da retenção tecnológica.
Outro exemplo é a startup Synkar, dedicada ao desenvolvimento de veículos autônomos de pequeno porte voltados à logística urbana, utilizando tecnologias desenvolvidas nos laboratórios da UFG. Hoje, o ecossistema conectado ao centro reúne mais de 500 startups de deep tech, funcionando como um ambiente contínuo de experimentação e transferência tecnológica.
A formação de profissionais aparece como eixo estruturante dessa estratégia. O AKCIT já capacitou mais de 2,3 mil pessoas por meio de 37 cursos e treinamentos, distribuídos em 61 turmas de especialização, com investimento superior a R$ 7,3 milhões em formação. O esforço se conecta ao primeiro bacharelado em Inteligência Artificial do Brasil, criado pela UFG para integrar pesquisa científica e empreendedorismo desde a graduação.
Para Arlindo Galvão, coordenador-geral do AKCIT e doutor em Ciência da Computação pela UFG, a internacionalização foi planejada desde a origem do projeto. O centro mantém acordos ativos com instituições em mais de dez países, incluindo China, Austrália, Estados Unidos, Itália e Canadá, além de projetos desenvolvidos em parceria com empresas como Google, Nvidia e Meta e interlocução com organismos internacionais como UNESCO e União Europeia.
“A soberania em inteligência artificial não significa isolamento tecnológico. Significa ter capacidade de decidir prioridades e desenvolver soluções alinhadas aos nossos próprios desafios”, afirma. Segundo ele, o diferencial brasileiro está na aplicação da IA em áreas nas quais o País possui dados e contextos únicos, como agronegócio, biodiversidade e indústria nacional. “Tropicalizar a inteligência artificial é algo que só o Brasil pode fazer plenamente.”
Parte dessa estratégia envolve também atrair pesquisadores brasileiros que atuam no exterior. Ao oferecer infraestrutura de padrão internacional em solo nacional, o centro busca reduzir a evasão de talentos e consolidar um ciclo contínuo de inovação.
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