
Seis anos foram suficientes para mudar o cenário de startups brasileiro. Se, em 2019, o Brasil era chamado de “país das fintechs”, hoje são as healthtechs que têm ganhado protagonismo. É o que mostra o panorama anual do ecossistema de startups da ABStartups. Em 2025, o estudo apontou que o número de empresas do setor de saúde ultrapassou o de fintechs, chegando a ser a segunda maior vertical de negócio do País (9,4%), ficando atrás apenas das edtechs.
Esta é a primeira vez que a categoria chega a tal posição e, para o presidente da Associação, Lindomar Góes Ferreira, o motivo é a necessidade, conhecida também como a mãe da inovação. Além disso, o aumento desse tipo de empresa em outras regiões do País fez com que as áreas de negócio se diversificassem.
“O empreendedor nasce para resolver um problema. Na região Norte, por exemplo, os maiores desafios estão em saúde e educação. Naturalmente, observamos o crescimento de startups nesses segmentos.”
Entre 2024 e 2025, de acordo com o levantamento, a região Norte cresceu 0,8% em número de startups em relação ao restante do Brasil, com o Amazonas chegando ao top 10 de estados com maior número de empreendimentos. Segundo Bruno Borghi, presidente da Associação Brasileira de Startups de Saúde (ABSS), ampliar o olhar para outros estados é um movimento essencial para empresas que desejam ter sucesso.
“O mercado de saúde é muito amplo e muitas demandas ainda não foram resolvidas. Quanto mais se olha para fora de São Paulo, melhor, porque muitas questões já foram solucionadas aqui. Mas o Brasil tem Acre, Pará e vários outros lugares que precisam desse olhar.”
Muito se cria, pouco se sustenta
Apesar do crescimento, Borghi acredita que os números não refletem a sustentabilidade das empresas do setor. O executivo questiona quantas healthtechs realmente se mantêm de pé após sua primeira ida ao mercado. Para ele, ainda há um longo caminho para que as empresas de saúde do Brasil se consolidem, especialmente diante da falta de maturidade dos fundadores em relação aos modelos de negócio.
“Vejo muitas healthtechs morrerem porque tiveram uma ideia, mas, ao levá-la ao mercado, não criaram uma estrutura de negócio consistente. E, muitas vezes, a solução não era o que o cliente precisava, mas não há flexibilidade para mudar”, diz.
Atualmente orquestrando cerca de 120 startups associadas, o presidente da ABSS afirma que o maior trabalho é ensinar os criadores a pensarem como empresários, olhando além da tecnologia. Para crescer no País como healthtech, Borghi aposta em soluções voltadas à terceira idade, que, segundo o IBGE, já representa 15,8% da população.
“Precisamos evoluir muito na compreensão das soluções disponíveis no mercado, consolidar os dados captados dos clientes e entender o que realmente é aderente. O mercado de healthtechs é significativo para o movimento e para a cultura do Brasil, mas não existe inovação sem conhecimento das demandas e das instituições de saúde para as quais se vende.”
Nesse sentido, Borghi defende que compreender o SUS é uma grande oportunidade para empresários que desejam trazer soluções sustentáveis e de impacto. “Entender as demandas do SUS abre portas para que essas empresas entrem em outras instituições, porque é ali que estão os problemas reais”, afirma.
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Do SUS para o mundo
Foi em uma mistura de vivência pessoal e desafios do SUS que surgiu a AI.Pathology, startup associada à ABSS e que conta com investidores como Harvard e Google for Startups. Fundada por Willian Peter Boelcke e Lucas de Souza, a companhia auxilia na detecção do câncer de pele por meio da inteligência artificial Nevo.
A ideia surgiu a partir da experiência de Boelcke, que viu o pai lutar contra a doença aos 16 anos. Foi a perda que o levou à área da saúde, mas a união com Souza, especialista em inteligência artificial, transformou a dor em solução.
“Descobrimos o câncer do meu pai a partir de uma lesão de pele, mas já era tarde. Ele fez todo o tratamento pelo SUS, mas faleceu dois anos depois”, conta o empresário.
Treinada para identificar pintas cancerígenas por meio de imagens, a tecnologia possui como diferencial a grande variedade de peles cadastradas, fruto direto de ser uma inovação brasileira. O resultado é uma acurácia de 93% no diagnóstico.
“Fomos desenvolvidos no Brasil e temos, enquanto País, a maior variabilidade de tons de pele do mundo. Ou seja, criamos uma IA que pode ser exportada para qualquer lugar sem gerar viés”, explica Boelcke.
Apesar do início inspirado em acelerar tratamentos a partir do SUS, a AI.Pathology acabou seguindo um modelo de negócios diferente. A empresa hoje vende para organizações fora do mercado de saúde, auxiliando programas de prevenção corporativos de companhias como a Natura, sua primeira cliente.
“Olhar para fora do setor de saúde traz novas possibilidades, ampliando o alcance e permitindo chegar às pessoas de outras formas”, afirma.
Para o empresário, apesar de ser uma escola, como assinala Borghi, o SUS não pode ser a única alternativa de cliente das startups de saúde caso queiram sobreviver no ecossistema brasileiro.
“Muitas empresas ainda seguem o mesmo protocolo de vender para operadoras de saúde ou para o SUS, que teoricamente são os que mais sofrem, mas também os que têm menos recursos para apostar em uma nova solução. Precisamos comprovar ROI com ciclos de venda que chegam a quase um ano. É muito tempo para uma healthtech, que mantém uma queima de caixa elevada por um longo período antes de começar a faturar”, afirma.
Além disso, as healthtechs brasileiras enfrentam barreiras regulatórias na Anvisa que podem custar quase R$ 100 mil e levar meses até aprovação.
Segundo Borghi, a desconfiança do mercado é derivada da pandemia, quando diversas soluções ligadas à telemedicina foram criadas, mas poucas sobreviveram ao período pós-crise.
“Foi positivo ver muitas startups crescerem, mas as que não eram sustentáveis encerraram suas atividades logo depois. Isso trouxe um problema para o mercado de saúde. Passou-se a investir menos em ideias e mais em empresas que já faturam e estão consolidadas”, afirma.
No caso da própria AI.Pathology, o caminho inicial foi buscar investimentos no exterior, por meio de programas de universidades como Harvard.
“Eles têm maior apetite ao risco e sinto que, financeiramente, a percepção do valor da vida no exterior é diferente”, diz Boelcke.
Olhando o copo meio cheio
Apesar das dificuldades, tanto Boelcke como Borghi acreditam que o Brasil tem potencial para se consolidar como País das healthtechs. O fundador da AI.Pathology defende que startups do setor precisam diversificar seus modelos de atuação e reduzir a dependência dos formatos tradicionais do sistema de saúde.
Segundo ele, o caminho passa por ampliar o acesso dos pacientes por meio de novos arranjos e políticas alternativas. “É importante tentar ao máximo não depender apenas dos modelos convencionais e migrar para formatos que ampliem o acesso, permitindo chegar ao paciente e integrá-lo ao sistema de forma efetiva, gerando impacto real”, afirma.
Na avaliação do empresário, o avanço tecnológico também abre novas oportunidades para o setor. “Há muitas oportunidades hoje, principalmente porque tudo está se conectando. Temos cada vez mais dispositivos vestíveis e somos altamente dependentes do celular. Podemos aproveitar esses instrumentos ao nosso redor para gerar mais dados e trabalhar para que essas informações ajudem as pessoas. Acredito que é um caminho sem volta”, diz.
Ainda que menos otimista, especialmente em relação a 2026, Borghi concorda que o mercado segue promissor. Para ele, à medida que as empresas de tecnologia em saúde ampliam sua atuação para além dos modelos tradicionais, novas possibilidades surgem.
“Este será um ano exigente para as startups de saúde. É um período difícil, com Copa do Mundo e eleições, fatores que impactam o cenário do setor no Brasil. Ainda assim, trata-se de um mercado amplo, com muitas demandas não resolvidas. Há espaço para soluções e tecnologias que transformem o fluxo de serviços. Quem souber trabalhar e investir encontrará oportunidades”, afirma.
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