
A entrada da Keeta no Brasil, que chegou com a promessa de abalar o duopólio de iFood e 99Food no mercado de delivery, sofreu um revés nos últimos dias. A empresa decidiu adiar o lançamento de sua operação no Rio de Janeiro e, nos bastidores, demitiu grande parte da equipe que estava montada na cidade.
Fontes ouvidas pela reportagem, que preferiram não se identificar, afirmam que dos cerca de 300 a 400 colaboradores alocados no Rio restaram apenas 36, muitos deles hoje sem função operacional definida enquanto a companhia revisa sua estratégia local. Outras fontes falaram em cerca de 120 a 150 demitidos, nas áreas de comercial e logística.
Com o adiamento da operação na cidade, teriam restado apenas os profissionais com cargos de liderança, com domínio do idioma inglês e alta performance, segundo esses ex-funcionários. O número de demitidos não foi confirmado pela Keeta.
Funcionários ouvidos pelo Startups contam que os colaboradores foram avisados do desligamento em encontros marcados em dois hotéis do Rio. “Em cada hotel foram feitas reuniões com cerca de 60 pessoas, distribuídas em duas a três salas. Eu já havia imaginado que depois do lançamento da operação no Rio eles enxugariam os times, mas nunca pensei que seria dessa forma, sem nenhum suporte. Foi desumana a forma como as demissões foram conduzidas, inclusive de uma grávida de nove meses”, conta uma ex-funcionária.
Além das demissões, os colaboradores da Keeta relatam casos de assédio moral por parte de lideranças estrangeiras, com alta pressão por resultados e cargas horárias abusivas, segundo eles.
“Eles tinham práticas extremamente abusivas, com xingamentos, e não havia a quem recorrermos. Até onde eu sei, não havia um departamento de Compliance. Se existia, não fomos informados”, diz uma fonte ouvida pelo Startups, que também relata falta de transparência da empresa com relação aos resultados da operação em São Paulo.
Problemas com logística
De acordo com alguns dos demitidos, as razões para o adiamento da operação no Rio estariam ligados a problemas na logística, em especial das entregas em comunidades. Um dos problemas relatados é que no contrato com a Keeta os restaurantes não poderiam ter entrega própria, o que inviabilizava a atuação em algumas regiões da cidade.
Além disso, a Keeta operava unicamente com o modelo de Operadores Logísticos (OLs), no qual entregadores são contratados por essas empresas terceirizadas. Segundo uma ex-funcionária, o modelo encontrou resistência entre os entregadores da cidade, que dão preferência a contratos com maior flexibilidade.
“Acredito que houve uma dificuldade de encontrar entregadores com o perfil que a Keeta buscava, e que a empresa percebeu que não conseguiria oferecer o serviço de entrega rápida, que é um dos seus diferenciais”, avalia a profissional.
Oficialmente, a empresa diz que a decisão de suspender a estreia — que estava marcada para março — está alinhada com um foco maior em aprimorar os padrões de serviço para consumidores, restaurantes e entregadores parceiros, e em lidar com “questões estruturais que inibem a concorrência saudável no segmento de delivery brasileiro”, antes de seguir com a expansão geográfica.
“Em razão disso, a empresa realizou desligamentos na equipe localizada no Rio”, informou a Keeta, por meio de nota, acrescentando que “vai manter todos os seus 1.200 postos de trabalho existentes, focando no desenvolvimento das operações na região de São Paulo, e reafirma seu compromisso de longo prazo com o Brasil e o investimento de R$ 5,6 bilhões em 5 anos”.
A Keeta, braço internacional da chinesa Meituan, chegou ao país no fim de 2025, inicialmente em cidades do litoral paulista e depois ampliando para a Grande São Paulo, com números promissores de downloads e adesão de restaurantes na plataforma. Mas sua tentativa de replicar esse modelo no Rio de Janeiro encontrou obstáculos.
Segundo a companhia, cláusulas de exclusividade impostas por concorrentes, como 99Food e iFood, geraram um ambiente concentrado, dificultando a atuação da empresa na capital fluminense. Na ocasião, Tony Qiu, presidente de Operações Internacionais da Keeta, chegou a dizer que o mercado brasileiro de delivery é “disfuncional”.
Com um investimento inicial previsto de R$ 400 milhões na sua operação do Rio de Janeiro, a Keeta alega que já tinha cerca de 17 mil restaurantes interessados em atuar na plataforma. Segundo o executivo, porém, das 800 redes de restaurantes com classificação de cinco estrelas, mais da metade tem acordos de exclusividade com outros apps no país.
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