
Criado na Universidade Federal de Pernambuco com o objetivo de aproximar academia e mercado na solução de desafios complexos, o CESAR se aproxima de três décadas expandindo sua atuação no ecossistema de inovação brasileiro. Hoje com mais de 1.400 colaboradores, o centro de inovação com sede em Recife aposta no venture building para co-desenvolver produtos com startups e ampliar a criação de novos negócios.
Embora a frente de investimentos do CESAR seja relativamente recente na forma atual, o trabalho com startups faz parte da organização desde o fim dos anos 1990. Segundo Augusto Galvão, diretor de Ventures do CESAR, a atuação passou por três fases distintas ao longo das últimas décadas.
A primeira começou em 1998, quando o centro apoiava a criação de empresas de base tecnológica a partir de pesquisas acadêmicas. Na época, o termo “startup” ainda não era comum – as iniciativas eram chamadas de empresas de base tecnológica (EBTs). Foi nesse período que surgiram companhias como a Neurotech e a Tempest, que nasceram no CESAR.
A segunda fase começou em 2015, com programas de aceleração inspirados no modelo do Y Combinator, do Vale do Silício. As startups passavam por ciclos de nove meses, recebendo mentorias e capacitação em troca de participação societária. Esse formato foi mantido até 2022, quando o CESAR decidiu reposicionar sua atuação.
“Percebemos que o mercado já absorvia muito bem programas de aceleração. Então passamos para um modelo mais hands-on, de co-construção”, explica Augusto, em entrevista ao Startups. Nascia então o modelo atual: o Tech Venture Builder.
Como funciona
O CESAR atua diretamente no desenvolvimento das soluções tecnológicas das startups. Para isso, reúne equipes formadas por engenheiros de software, cientistas de dados, designers e gerentes de projeto para trabalhar junto com os empreendedores durante o desenvolvimento dos produtos. “Em um projeto típico de venture building, mobilizamos de 10 a 12 profissionais para desenvolver a solução tecnológica da startup”, afirma Augusto.
A ideia é que o CESAR funcione como um braço de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para as empresas em estágio inicial. Durante o processo, o time do centro desenvolve o produto enquanto a startup acompanha o trabalho e se prepara para assumir a operação tecnológica ao final do projeto. “Co-construímos todo o processo de handover. Quando o projeto termina, a startup tem autonomia total para operar o produto”, explica o diretor.
A iniciativa inclui um modelo de captação de recursos de fomento para financiar parte do desenvolvimento tecnológico – algo que ajuda a reduzir os custos para as startups. O CESAR já investiu em mais de 70 startups ao longo de sua história.
Segundo Augusto, o CESAR atua ativamente na busca por editais e linhas de financiamento voltadas à inovação, utilizando esses recursos para ampliar a capacidade de desenvolvimento dos projetos. “Como estamos falando de tecnologia inovadora, conseguimos acessar instrumentos de fomento que ajudam a financiar parte desse processo”, afirma.
Esse modelo também permite compartilhar os riscos típicos de projetos de inovação com o próprio ecossistema de fomento. “Desenvolver tecnologia não é barato. Ao combinar investimento direto com recursos de fomento, conseguimos ampliar a capacidade de desenvolvimento das startups e dividir o risco inerente à inovação”, diz o executivo.
O portfólio atual do CESAR reúne 14 empresas, número que deve chegar a 23 até 2026. Embora a atuação seja multissetorial, algumas áreas recebem prioridade na tese de investimento: educação, energia (com foco em renováveis), mobilidade, setor financeiro, óleo e gás, cibersegurança e deep techs.
Outro ponto central é o foco em negócios de impacto. “Buscamos negócios que possam transformar a realidade e usar tecnologia emergente como catalisador desse processo”, diz Augusto. Segundo ele, o CESAR também avalia se as startups contribuem para pelo menos um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).
Ele acrescenta que, nos últimos anos, a inteligência artificial passou a dominar os projetos desenvolvidos pelo venture builder. “Se olharmos 2024 e 2025, 100% dos projetos de venture building envolveram inteligência artificial”, diz o executivo.
A tendência é que o CESAR continue investindo no desenvolvimento de agentes de IA voltados para aplicações específicas de mercado.
Fomentando conexões
Além dos investimentos diretos, o CESAR também mantém iniciativas de apoio ao ecossistema. Uma delas é o programa de impulsionamento de startups, que oferece palestras, workshops e mentorias gratuitas para empreendedores. Desde 2022, mais de 1.700 startups já passaram pela iniciativa.
Grande parte dessas conexões acontece por meio da plataforma DATES, que funciona como um radar de oportunidades para o centro de inovação. A solução de matchmaking realiza a conexão entre startups, investidores e empresas, permitindo que negócios em crescimento encontrem parceiros para o seu momento atual.
Hoje, mais de 2.300 startups estão cadastradas na ferramenta. “A plataforma nos ajuda a interagir com as startups e também identificar potenciais negócios alinhados com a nossa tese”, explica Augusto.
O CESAR também vem experimentando mudanças no processo de avaliação de startups, com o objetivo de fortalecer a cultura intraempreendedora e aproximar os times do portfólio, ampliando a participação interna nas decisões de investimento. “Estamos democratizando cada vez mais esse espaço. Abrimos a etapa final de avaliação para colaboradores do CESAR, com dois objetivos: difundir o mindset empreendedor na organização e formar futuros investidores ou empreendedores”, afirma Augusto.
Para o executivo, o movimento também amplia a visibilidade das startups dentro da instituição e aumenta as chances de que suas soluções sejam aplicadas em projetos com grandes clientes atendidos pelo centro.
Nordeste ganha força no ecossistema
De acordo com Augusto, o avanço das startups do CESAR reflete a evolução do ecossistema nordestino. Recentemente, a região ultrapassou o Sul e passou a ocupar a segunda posição no país em número de startups.
O Sebrae Startups Report mapeou 18.056 startups ativas, com o Sudeste liderando em 36,15%, seguido pelo Nordeste em 23,53% e o Sul em 21,06%. A inversão marca o avanço da descentralização da inovação, impulsionada por hubs como o Porto Digital e o próprio CESAR em Recife.
Augusto também destaca iniciativas que devem ampliar o fluxo de capital para a região, como o FIP Nordeste. Lançado em abril de 2025 pelo Banco do Nordeste (BNB), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Sebrae, o veículo de investimentos pretende investir R$ 150 milhões em startups em estágio inicial na região ao longo dos próximos anos.
“O cenário regional é extremamente positivo. Temos visto cada vez mais iniciativas fortalecendo o ecossistema e atraindo novos investidores”, afirma.
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