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Bitcoin | Foto: Canva
Bitcoin | Foto: Canva

*Por Caio Pires, presidente do Centro de Estudos de Mercados de Capitais (Cemec) do Ibmec

Nos últimos meses, o mercado de criptoativos voltou a atravessar um período de forte volatilidade. Após ciclos de valorização expressiva e crescente interesse institucional, o preço do Bitcoin passou por uma nova correção relevante, reacendendo debates sobre a sustentabilidade do setor e os limites desse mercado ainda relativamente jovem.

Movimentos bruscos de preço, liquidações em mercados de derivativos e mudanças no cenário macroeconômico global têm pressionado não apenas o Bitcoin, mas todo o ecossistema de ativos digitais. Em momentos como esse, voltam a surgir questionamentos
sobre a solidez do mercado cripto.

No entanto, quem observa a trajetória do Bitcoin com um horizonte mais amplo percebe que
esse tipo de movimento está longe de ser uma novidade.

Desde sua criação, em 2009, o ativo se desenvolveu por meio de ciclos bastante claros:
períodos de forte euforia são seguidos por correções profundas, que por sua vez dão lugar a
novas fases de expansão. Em diversas ocasiões, essas quedas foram interpretadas como o
“fim do Bitcoin”. Ainda assim, ao longo do tempo, o mercado demonstrou uma capacidade
recorrente de se reorganizar, amadurecer e atrair novas camadas de capital, tecnologia e
infraestrutura.

Existe até um compilado bastante conhecido no mercado que registra todas as vezes em que o Bitcoin foi declarado “morto” por analistas, veículos de mídia ou críticos do setor. Cada
ponto representa um momento de forte pessimismo, geralmente após grandes quedas de
preço.

O curioso é que, historicamente, esses momentos acabaram coincidindo com oportunidades
de longo prazo. Se um investidor tivesse aplicado apenas US$100 em cada uma dessas
ocasiões em que o fim do Bitcoin foi anunciado, hoje teria acumulado um retorno milionário.
Mais do que uma curiosidade estatística, esse dado ilustra como o mercado cripto
frequentemente passa por fases de subestimação antes de novos ciclos de crescimento.

Os ciclos do Bitcoin e o papel do Halving

Grande parte dessa dinâmica está ligada ao próprio desenho econômico do Bitcoin.
Diferentemente de moedas tradicionais, cuja oferta pode ser expandida por decisões de
política monetária, o Bitcoin possui um sistema de emissão totalmente programado. No
centro desse mecanismo está o chamado Halving, evento que ocorre aproximadamente a
cada quatro anos e reduz pela metade a quantidade de novos bitcoins emitidos para os
mineradores.

Essa redução periódica cria uma trajetória previsível de escassez crescente.

Historicamente, os ciclos do Bitcoin tendem a seguir uma sequência relativamente
consistente. Após o fim de um grande mercado de alta, o ativo entra em um período
prolongado de correção e consolidação. Essa fase costuma ser marcada por menor atenção do público e queda no volume de negociações.

É justamente nesse momento que investidores de longo prazo começam a acumular posições.

À medida que o próximo Halving se aproxima, a expectativa em relação à redução da oferta
futura passa a influenciar o comportamento do mercado. Com menos novos bitcoins sendo
introduzidos diariamente e uma demanda gradualmente crescente, a dinâmica de oferta e
demanda tende a favorecer movimentos de valorização.

Esse padrão foi observado após os halvings de 2012, 2016 e 2020, cada um deles seguido por
ciclos relevantes de alta.

Isso não significa, no entanto, que o mercado se mova de forma linear. A volatilidade
continua sendo uma característica estrutural do Bitcoin, e correções expressivas são comuns
mesmo dentro de ciclos de alta.

Um exemplo claro ocorreu em 2021. Em abril daquele ano, o Bitcoin atingiu cerca de US$
64.800, então um novo recorde histórico. Poucos meses depois, o preço caiu para
aproximadamente US$ 29.000, uma correção superior a 50%, impulsionada por fatores como
restrições à mineração na China e um ambiente macroeconômico mais adverso.

Apesar da magnitude da queda, o ciclo não terminou ali. Nos meses seguintes, o mercado
voltou a subir e, em novembro de 2021, o Bitcoin alcançou um novo topo próximo de US$
69.000.

Esse episódio ilustra uma característica recorrente do ativo: correções profundas podem
ocorrer dentro de tendências estruturais de alta. Para investidores que analisam o mercado sob a perspectiva de ciclos, esses momentos muitas vezes representam períodos de acumulação em meio à volatilidade.

A Power Law e o “valor justo” do Bitcoin

Além da análise baseada em ciclos e halvings, alguns analistas quantitativos utilizam outro
modelo para entender o comportamento do Bitcoin: a chamada Power Law.

A ideia é observar toda a trajetória histórica do ativo e verificar se existe um padrão matemático consistente no seu crescimento.

Quando o preço do Bitcoin é analisado em escala logarítmica ao longo de seus mais de 15
anos de existência, surge um resultado curioso: o ativo parece seguir uma Lei de Potência, o
mesmo tipo de relação matemática observado em fenômenos complexos como crescimento
de cidades, distribuição de riqueza ou redes sociais.

Nesse modelo, o preço não cresce de forma linear. Em vez disso, ele oscila ao redor de uma
linha de tendência de longo prazo que representa uma espécie de trajetória estrutural de valor.

O mais impressionante é a qualidade estatística do ajuste. A regressão do modelo apresenta
um R² próximo de 0,96, indicando que cerca de 96% da variação histórica do preço pode ser
explicada por essa relação ao longo do tempo — um nível extremamente alto para padrões de
modelos financeiros.

Uma forma simples de visualizar esse comportamento é imaginar um elástico preso a uma
linha ascendente.

A linha representa o valor estrutural estimado pela Power Law. O preço de mercado funciona
como o elástico: em momentos de euforia ele se estica para cima, e em períodos de pessimismo se distende para baixo.

Historicamente, porém, essas distorções nunca foram permanentes. Com o tempo, o preço sempre acabou convergindo novamente para sua tendência de longo prazo.

O que os dados sugerem sobre o momento atual

No momento atual, alguns modelos baseados na Power Law indicam que o Bitcoin pode estar
negociando abaixo da sua trajetória histórica.

Estimativas sugerem um valor estrutural próximo de US$ 124.000, enquanto o preço de
mercado gira em torno de US$ 70.000, o que implicaria um desconto relevante em relação à
tendência de longo prazo.

Isso não significa que o mercado necessariamente se moverá rapidamente para esse nível. A
Power Law não prevê datas exatas nem garante preços futuros. O que ela oferece é uma
referência estatística baseada no comportamento histórico do ativo.

Ainda assim, ao observar episódios anteriores em que o preço se afastou significativamente
da tendência, o padrão foi relativamente consistente: ao longo do tempo, o mercado acabou
reduzindo essa distorção.

Entre volatilidade e maturidade

Naturalmente, o mercado de criptoativos continua altamente sensível a fatores
macroeconômicos, mudanças regulatórias e oscilações de liquidez global. Novos episódios de
volatilidade são não apenas possíveis, mas esperados.

Ao mesmo tempo, o setor se encontra hoje em um estágio muito diferente daquele observado em ciclos anteriores. A presença crescente de investidores institucionais, o avanço de estruturas regulatórias e a expansão da infraestrutura financeira ligada a criptoativos indicam um processo gradual de amadurecimento do mercado

Nesse contexto, compreender os ciclos do Bitcoin — e os modelos que tentam explicar sua
trajetória de longo prazo — pode ser mais útil do que tentar prever movimentos de preço no
curto prazo.

A história do ativo sugere que, em muitos momentos, períodos de correção acabam fazendo
parte do próprio processo de construção de novos ciclos.

E, para investidores com horizonte mais longo, essas fases de maior incerteza muitas vezes se
transformam justamente nos momentos em que as oportunidades começam a surgir.

O post Bitcoin: o que está acontecendo com a criptomoeda? apareceu primeiro em Startups.