
O cenário tem melhorado para as captações early-stage no Brasil, em especial para as companhias que se adequaram ao novo padrão de governança exigido pelos investidores depois da euforia de 2021. Para startups mais maduras, porém, conseguir levantar rodadas por aqui continua sendo desafiador. Da série B para a frente, a solução acaba sendo recorrer a bolsos globais. Chegar lá, porém, exige um requisito cada vez mais inegociável: inteligência artificial no produto.
“As empresas que conseguem levantar até a série A no Brasil e vão para fora buscar da série B em diante têm que entrar mais em IA. Quando você vai para fora, você escuta só AI, AI, AI”, diz Gustavo Ribas, head de Latam do Kfund. A gestora espanhola com sede em Madrid completa dez anos em junho com cerca de US$ 1 bilhão sob gestão.
Para o executivo, o mercado de captação no exterior privilegia três categorias de startups quando olha para a América Latina. As primeiras são as empresas de IA, que captam bem se entregarem crescimento acelerado. Fintechs ainda conseguem atenção do investidor estrangeiro pelo histórico de product market fit da região. O problema fica para o que Gustavo chama de “good business”: companhias de logística, varejo e outros setores que não se encaixam nas duas primeiras categorias.
“O investidor estrangeiro, para ele parar o que está olhando de companhias nos Estados Unidos e no resto do mundo e olhar para uma companhia que não é AI, não é fintech… você tem que ser mais criativo na sua estratégia de captação”, afirma.
A saída, segundo o investidor do Kfund, é incorporar IA de forma genuína. Não apenas como narrativa, mas como mudança estrutural na operação. “AI é você se tornar mais produtivo, é você ter mais receita por funcionário, é você crescer mais rápido, é o seu tech stack ser mais moderno e interativo. Entrar dessa forma para levantar a sua série B lá fora é essencial”, destaca o executivo.
Ecossistema mais seletivo, mas competitivo
No panorama geral do ecossistema latinoamericano, Gustavo vê um mercado mais criterioso, porém dinâmico quando uma rodada ganha tração. “Você tem menos empresas captando, mas uma vez que o round é colocado em pé por um líder legal, ele se torna oversubscribed e competitivo bastante rápido.” Os valuations também subiram para as companhias que passam pelo filtro.
O Kfund tem estado entre os fundos ativos na região. Nos últimos 12 meses, a gestora fez investimentos na Colômbia, Argentina e Chile, além de ter co-liderado uma série A no Brasil ainda não divulgada. Outros três deals recentes seguem confidenciais, com previsão de divulgação nos próximos meses.
Um ponto de atenção levantado por Gustavo é o avanço do México no radar dos investidores globais. Desde a pandemia, o país tem registrado crescimento consistente no market share de venture capital na América Latina. Para o investidor do Kfund, parte da explicação está no comportamento dos próprios fundos brasileiros.
“As grandes gestoras da região, como Kaszek, Valor, Monashees e Canary, deixaram de ser apenas Brasil, viraram América Latina, e hoje estão indo para o empreendedor latino construindo fora ou já fora. Isso explica por que estão investindo mais no México”, aponta.
Outro fator é a proximidade geográfica e cultural com os Estados Unidos, que facilita tanto as vendas quanto o relacionamento com investidores norte-americanos. “O Brasil não faz o marketing dele muito bem feito”, reconhece.
Para Gustavo, o país tem argumentos sólidos a apresentar – tamanho de mercado, receptividade à tecnologia e histórico comprovado de exits, inclusive em momentos adversos. “O histórico de exit é muito bom. A gente tem M&As acontecendo mesmo durante as crises.” O desafio, diz ele, é comunicar melhor esse valor para o venture capital global.
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