
Érika Rossetto tinha 16 anos quando entrou pela primeira vez em um laboratório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Não foi por vocação óbvia nem por incentivo da família. Foi em uma excursão escolar, uma semana no INPE, em São José dos Campos, que ela viu pela primeira vez um satélite brasileiro em fase de fabricação: técnicos com roupas de proteção, protocolos rígidos, o silêncio de uma sala limpa.
“Parecia coisa de filme. Entrar num laboratório, ver um satélite imenso, era incrível”, lembra. “Pensei: eu também posso trabalhar com isso.”
Mais de 20 anos depois, ela é gerente responsável pela dinâmica orbital da frota de satélites da Claro e uma das diretoras da Space Data Association (SDA), organização internacional criada para compartilhar dados e reduzir riscos de colisões entre satélites e detritos espaciais. Desde a fundação da entidade, em 2009, ela é a única mulher a ter ocupado um cargo na diretoria.
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De São José dos Campos ao Rio, de astronomia à órbita
Criada em São José dos Campos, Érika sempre teve facilidade com matemática, mas não se via numa carreira de exatas. “Era uma coisa fora da minha realidade.” A virada foi exatamente aquela excursão.
Na visita, ela percebeu um detalhe que não saiu da cabeça: quase todos os pesquisadores eram homens. Havia algumas mulheres, mas não como cientistas. Ela saiu fazendo perguntas para todo apresentador que encontrou. “Vocês já viram mulheres trabalhando nessa área?” Um professor respondeu que quem atuava no setor costumava estudar astronomia e mecânica celeste. Foi o suficiente. “Virou minha missão de vida.”
Na época, havia apenas um curso de astronomia no Brasil, na UFRJ. Ela se mudou para o Rio de Janeiro. Durante a graduação e o início do mestrado, pesquisou diferentes áreas até surgir a oportunidade de trabalhar na então Embratel, hoje Claro, exatamente no setor que queria: dinâmica orbital. “A gente controla e mantém os satélites no lugar”, resume.
O problema que orbita a Terra
O mestrado de Érika se concentrou em um dos problemas mais urgentes do setor: os detritos em órbita. O tema não surgiu da academia. Surgiu do trabalho. “Vi que era uma questão importante e resolvi direcionar o mestrado para desenvolver algo com relevância prática.”
Quando um satélite chega ao fim da vida útil ou sofre um acidente, perde-se o controle sobre ele. O objeto passa a orbitar indefinidamente, representando risco de colisão para satélites em operação. Com o aumento da demanda por telecomunicações via satélite, a população de detritos em torno da Terra cresceu muito, e com ela a preocupação com o impacto disso.
Sua pesquisa desenvolveu uma metodologia mais precisa para rastrear esses detritos com telescópios, usando uma técnica da astronomia chamada astrometria. O desafio técnico estava no fato de que, ao contrário das estrelas, que aparecem como pontos fixos nas imagens, detritos surgem como traços, porque se deslocam rapidamente em relação à Terra. “O que eu fiz foi modelar o perfil de luz desses traços para aumentar a precisão no cálculo das posições. Hoje essa técnica é usada praticamente por todas as redes de observação que rastreiam objetos em órbita.”
No dia a dia, esses dados chegam até ela com alertas de aproximação. “Quando tem alguma situação, eu consigo desviar os nossos satélites e garantir a segurança deles.”
“Ela deve ser muito inteligente por estar aqui”
Em sua primeira apresentação em um workshop internacional da SDA, a pessoa responsável pela introdução disse ao público: “Ela deve ser muito inteligente por estar aqui hoje.” Érika era a única mulher apresentando.
“Se eu fosse homem, bastava ser homem. Ninguém ia questionar o porquê de eu estar ali.” A frase ficou. Não pela hostilidade, quem a disse provavelmente não tinha essa intenção, mas pelo que revelou. “A gente já vem com uma certa insegurança, uma sensação de que sempre tem que estudar mais, correr atrás o tempo todo. Quando alguém fala aquilo, você entende por que está sempre sentindo isso. Porque eles esperam sempre mais da gente.”
Em mais de 15 anos de carreira, ela descreve reuniões internacionais com dezenas de participantes em que era a única mulher na sala. Dentro da SDA, ela foi eleita pela primeira vez indicada pela Claro, ficou quatro anos, saiu durante a licença-maternidade da segunda filha e voltou. Está hoje no quinto ano desta segunda passagem, ainda a única mulher que passou pela diretoria da associação.
A pergunta que colegas pais nunca recebem
Érika tem dois filhos. O primeiro nasceu quando ela tinha 22 anos, ainda na faculdade. “Foi um período conturbado. Muitos professores não levavam isso em conta. Tive que perder algumas matérias porque não consegui terminar o período.” Quando a segunda filha nasceu, ela já trabalhava na Claro. Tirou quase sete meses de licença e voltou sabendo que seu cargo estava garantido. “Sei que é um privilégio. Não é a realidade da maioria das mulheres.”
Mas a maternidade não aparece só como desafio logístico. Ela aparece nas conversas profissionais, nas perguntas antes de viagens de trabalho. “Quem vai ficar com as crianças quando você viajar? Você não se sente culpada?” A irritação veio cedo. “Meus colegas nunca receberam essa pergunta. E eles também têm filhos.”
Líderes do setor, diz, ainda preferem não contratar mulheres por preverem que a maternidade vai impactar a disponibilidade. “São coisas que ainda acontecem muito. Não é exclusividade do Brasil.” Ao mesmo tempo, ela descreve a maternidade como motor. “Você acaba tendo um motivador. Preciso prover para o meu filho e mostrar para ele que eu sou alguma coisa além de mãe.” O filho mais velho cresceu vendo a mãe construir uma carreira técnica de alcance internacional. Ela fez questão de que ele entendesse que a carreira da mãe era dela. “Não é sobre mim.” A filha mais nova tem 16 anos e quer ser astronauta.
O gargalo está na infância
Como gestora, Érika procura criar ambientes mais inclusivos. Nos últimos três processos seletivos de estágio, as três aprovadas foram mulheres, não por critério de gênero, mas por desempenho. Mas ela não acredita que o problema principal esteja no mercado de trabalho. Está muito antes.
“Fiz um exercício numa apresentação: pesquise ‘astronauta criança’ no Google. As referências são todas de meninos. Pesquise ‘brinquedos de menina’. Aparecem coisas domésticas, bonecas. Como é que as meninas vão crescer acreditando que também podem ser astronautas?” Ela mesma viveu algo semelhante ao comprar uma mochila de astronauta para a filha. A empresa entrou em contato perguntando se havia erro no pedido, já que o nome era de menina. “É o pensamento vigente. Não conseguimos imaginar isso.”
Ela não recebeu estímulo em casa. O pai dizia que carrinhos e bonecos mecânicos eram coisa de menino. Ela esperava o irmão sair de perto e ia mexer nas coisas dele assim mesmo. “Era muito teimosa.” A matemática ajudou. A excursão ao INPE foi o que faltava. “Se não tivesse ido naquela visita, talvez nunca tivesse pensado nessa área. Foi um trabalho de divulgação científica que me mostrou que era possível. E essa possibilidade mudou tudo.”
O Brasil no espaço
Ao avaliar o posicionamento do Brasil no setor espacial, Érika aponta ciclos de investimento que dependem de prioridades políticas e disputam espaço com demandas sociais urgentes. Ainda assim, vê sinais positivos: crescimento de grupos de pesquisa, surgimento de startups espaciais focadas em nanossatélites e aumento de colaborações com institutos internacionais.
“Devagarinho, mesmo com os contratempos, estamos evoluindo. E na pesquisa, o Brasil se destaca pela criatividade. Tendemos a encontrar soluções que não são as mais óbvias. Nessa área, isso é um diferencial real.”
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