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A imagem mostra um humano usando um headset de realidade virtual em um ambiente iluminado por luzes coloridas verticais em tons de azul, rosa e laranja. A pessoa está com um braço levantado e a mão estendida, como se estivesse interagindo com elementos digitais no espaço virtual. A iluminação cria reflexos suaves na roupa clara e enfatiza o clima futurista da cena, transmitindo a ideia de imersão em tecnologia de realidade virtual.

Por Yasmin Fonseca

O relatório “The Future 100: 2026”, da VML Intelligence, descreve 2026 como um ano em que o padrão é a ruptura contínua. Estamos falando de instabilidade econômica, geopolítica, ambiental e cultural, um cenário complexo quando se está à frente de uma organização.

O que realmente me chama a atenção é que a previsão não aponta para o otimismo ingênuo, nem para o colapso, mas para um futuro “distópico-otimista”. Significa que, sim, reconhecemos os desafios, mas abraçamos a resiliência como resposta. É, portanto, um ano para reimaginar o potencial humano com a tecnologia como aliada. A inteligência artificial, em particular, é destacada como um motor capaz de “multiplicar o potencial de formas que estamos apenas começando a imaginar”.

E por que isso é tão relevante para você, que precisa tomar decisões hoje olhando para o amanhã? Pessoalmente, entendo que o papel da tecnologia vai além da funcionalidade. Ela remodela nossas interações, a nossa percepção da realidade e, em última instância, a maneira como construímos a nossa revolução coletiva, alinhados ao tema do IT Forum deste ano.

Neste artigo, minha intenção não é apenas apresentar tendências. Quero te provocar uma reflexão sobre os desafios e as oportunidades mais instigantes que se colocam à nossa frente. Que são a base para construirmos um futuro em que a tecnologia e o humano coexistam, um elevando o potencial do outro. Esta é a conversa que pretendo iniciar.

A dissolução da interface: quem controla essa nova realidade?

Uma das grandes transformações apontadas no relatório “The Future 100: 2026”, é a chamada Interface da Realidade. Em essência, a tecnologia se torna o próprio ambiente, permeando nossa vida de forma contínua e sem fricção aparente.

Dispositivos como os óculos inteligentes da Meta (Ray-Ban Display), que “veem o que você vê e ouvem o que você ouve”, ou os futuros aparelhos sem tela da OpenAI, que prometem ler o ambiente, servindo como companhia, exemplificam essa transição. A promessa é clara: uma experiência digital tão fluida e intuitiva que se torna quase invisível, antecipando nossas necessidades e respondendo de forma contextual.

Aqui, no entanto, surge uma reflexão para a comunidade de tecnologia, e essa me provoca profundamente: essa invisibilidade será libertadora ou controladora?

Quando nossos dispositivos estão sempre ouvindo, sempre observando, e a tecnologia se mistura tão intrinsecamente ao nosso dia a dia, como garantimos que a autonomia e a privacidade sejam preservadas?

A Interface da Realidade pode então, inadvertidamente, intensificar o que o relatório aponta como Vigilância Onisciente. Para 75% das pessoas entrevistadas, a IA pode levar a uma era “Big Brother”. Mesmo com a preocupação, elas se sentem impotentes: quase 80% consideram a privacidade um feito impossível no cenário atual.

Compreendo o imenso potencial de criar experiências sem fricção que enriquecem a vida das pessoas. No entanto, para mim e para toda a minha equipe, a responsabilidade vai além: as soluções precisam ser desenhadas com um foco inabalável na ética, na transparência e no controle do usuário. Porque, vamos ser honestos, sem isso a tecnologia não é um avanço. É um retrocesso disfarçado.

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Atenção à venda: o despertar da intencionalidade no digital

Se a tecnologia se torna o ambiente e a privacidade se vê ameaçada, surge uma outra questão que me parece central: como mantemos o controle sobre nossa própria atenção?

Essa capacidade se tornou valiosa nos dias atuais. Vivemos em uma era de “fadiga de rolagem”, onde o fluxo contínuo de informações nos leva a um engajamento ditado por algoritmos, e não pela nossa própria vontade, resultando na perda de foco. O relatório “The Future 100: 2026” não hesita em destacar esse dilema: 8 em cada 10 pessoas acreditam que a tecnologia reduz nossa capacidade de atenção. É um custo alto demais para ser ignorado.

É nesse contexto que emerge o conceito de Intencionalidade Digital: um movimento crescente que busca construir soluções que nos ajudem a recuperar o controle sobre como interagimos com o mundo conectado. Exemplos práticos já aparecem, como o recurso de pausa para os reels, do Instagram, ou os alertas do Pinterest sobre acessos durante o horário escolar.

Vejo isso como mais do que uma tendência: é um princípio fundamental. Tenho uma forte convicção de que a tecnologia é um meio, não um fim. Ela deve, portanto, servir aos nossos propósitos, e não o contrário.

O sucesso de uma solução não se mede pela quantidade de tempo que o usuário passa interagindo com ela, mas pela clareza e eficácia com que ela atende às suas necessidades.

Isso significa desenhar interfaces que respeitam o usuário, evitam interrupções desnecessárias e oferecem controle real. Significa também garantir que a tecnologia trabalhe a favor da nossa capacidade de processamento, e não contra ela.

Realidade em xeque: a verdade é um algoritmo?

Isso nos leva a outra questão, talvez a mais alarmante, apontada pelo relatório “The Future 100: 2026”: 71% dos respondentes sentem que a inteligência artificial está tornando “impossível entender o que é verdadeiro no mundo”. Afinal, se a tecnologia está em todo lugar, moldando nossa percepção e nosso engajamento,
como podemos discernir o que é, de fato, real?

É aqui que entra a Alfabetização da Verdade, a habilidade de separar o fato da ficção que se tornou fundamental hoje.

Em um contexto de desinformação industrializada, a IA generativa, com sua capacidade de criar vídeos e áudios ultrarrealistas em poucos cliques, elevou a “fabricação” de realidades a um novo patamar. O exemplo do curta “Switzerland is Fake”, onde uma nação inteira é apresentada como uma elaborada ficção por meio de imagens geradas por IA, ilustra quão facilmente a realidade pode ser questionada. E isso, convenhamos, é perturbador.

Aqui reside, talvez, uma das maiores provocações da nossa reflexão. Se a verdade se torna maleável, manipulável por algoritmos, como poderemos construir relações de confiança? Seja entre marcas e consumidores, cidadãos e instituições, ou até mesmo entre pessoas?

Enquanto lideranças, nossa responsabilidade é ir além da preocupação e agir. Se “a nova revolução não é digital, é coletiva”, então a verdade é o que a sustenta. Sem uma base de confiança e a capacidade de discernir o real, qualquer construção coletiva se torna frágil.

Um convite para a revolução coletiva

Em cada um dos cenários que explorei aqui, a tecnologia e, em especial, a inteligência artificial, são causadoras de dilemas complexos. Contudo, elas também detêm a chave para a solução.

Acredito que o futuro da inovação não é apenas sobre o que a tecnologia pode fazer, mas sobre o que devemos fazer com ela. Ele exige um novo olhar, pautado pela ética, transparência e um profundo respeito pelo humano.

É precisamente por isso que o tema do IT Forum deste ano, “O poder do ecossistema: a nova revolução não é digital, é coletiva”, é tão pertinente. Os dilemas impostos por essa nova realidade exigem respostas coletivas.

Por isso, convido cada líder, cada empresa, cada profissional de tecnologia a se juntar a essa conversa. O futuro que queremos construir não será alcançado agindo de maneira isolada. É uma revolução coletiva, e estou pronto para cocriar este futuro com vocês.

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