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Moises
Geraldo Ramos, cofundador e CEO da Moises | Crédito: Divulgação

O Moises, plataforma para prática, criação e produção musical, está ampliando seu escopo para se posicionar como um ecossistema completo para músicos. Criado em 2019 com foco na separação de voz e instrumentos nas faixas, o aplicativo vem evoluindo para incorporar diferentes etapas da jornada musical, com o lançamento de novas ferramentas e adoção de inteligência artificial para tornar processos avançados mais acessíveis e intuitivos.

Criado em 2019, o app ganhou tração ao permitir que usuários separassem voz e instrumentos de músicas prontas – uma dor comum para quem estuda ou ensaia. A ideia surgiu da experiência pessoal do CEO e cofundador, Geraldo Ramos, baterista que buscava uma forma de praticar sem a faixa original do instrumento. “É como tentar tirar uma banana de uma vitamina depois de bater no liquidificador”, resume.

O avanço recente dos modelos de separação de áudio por inteligência artificial viabilizou essa proposta – e também inspirou o nome da empresa, em referência à separação do mar na narrativa bíblica.

Deste então, o Moises deixou de ser uma ferramenta de função única para se tornar um pacote mais amplo. Hoje, reúne recursos como identificação automática de acordes, transcrição de letras, transposição de tom e controle de velocidade, cobrindo diferentes etapas da jornada musical.

Segundo Geraldo, essa expansão foi guiada pelo comportamento dos próprios usuários. “A gente foi descobrindo o que eles queriam fazer além da separação das faixas”, afirma.

O resultado é um app que funciona como um “canivete suíço” para músicos, de iniciantes a profissionais. Com mais de 70 milhões de usuários em mais de 190 países, a plataforma é usada em ensaios, estudos, preparação de turnês e experimentações criativas, consolidando o Moises como uma ferramenta transversal na rotina musical.

IA como parceira, não substituta

A aposta do Moises em inteligência artificial segue um caminho diferente de parte do mercado. Em vez de gerar músicas completas a partir de prompts, como fazem plataformas como Suno AI e Udio, a empresa defende uma abordagem colaborativa. “A gente está focado na música feita por humanos. Você trabalha junto com a IA – não é a tecnologia que faz tudo por você”, diz o CEO.

Na prática, a IA funciona como um “colega de banda virtual”. O usuário pode gravar uma base simples – como um violão – e usar a tecnologia para sugerir bateria, adicionar linhas de baixo ou testar variações de arranjos. Cada elemento é tratado como um bloco independente, que pode ser ajustado ao longo do processo criativo.

Essa escolha de produto não é apenas estética; ela também posiciona a musictech em um terreno menos sensível dentro de um setor em disputa. Em um momento em que o avanço da IA generativa acirra a relação entre empresas de tecnologia e a indústria musical, o Moises adota uma postura mais cautelosa.

Segundo Geraldo, a empresa optou desde o início por trabalhar com dados licenciados e manter proximidade com gravadoras e detentores de direitos. A companhia afirma não utilizar áudios ou dados dos usuários para treinar seus modelos. “A gente sempre teve uma posição mais conservadora, de querer inovar, mas respeitando os limites do que pode ser feito”, diz.

A própria decisão de atuar como ferramenta de apoio, e não de substituição, ajuda a reduzir fricções com o ecossistema musical, em um momento em que outras plataformas enfrentam questionamentos jurídicos e resistência de artistas.

Foco em evolução

Essa abordagem também orienta as prioridades para 2026. Em vez de abrir novas frentes, o Moises decidiu aprofundar o que já construiu. 

De acordo com o CEO, a camada de criação musical ainda é recente dentro da plataforma e, por isso, concentra boa parte dos investimentos. O objetivo é levar essas funcionalidades a um novo nível de maturidade. Isso significa evoluir ferramentas já lançadas, especialmente as baseadas em modelos generativos, tornando-as mais precisas, integradas e úteis no fluxo real de criação dos músicos.

“Esse ano vai ser mais de evolução do que a gente tem versus criar uma nova linha de produtos. Estamos focados na evolução”, Geraldo.

Ao mesmo tempo, a startup avança em integrações com outras plataformas. Pelo menos duas parcerias estão em andamento, com a proposta de incorporar o Moises em produtos de terceiros – um movimento que pode ampliar sua presença além do app próprio.

Outro pilar da estratégia está na infraestrutura tecnológica. Diferentemente de startups que dependem de APIs externas, o Moises desenvolve seus próprios modelos de inteligência artificial. Hoje, são 45 modelos proprietários.

Segundo Geraldo, essa verticalização garante mais controle sobre a qualidade e permite avanços mais rápidos em áreas críticas, como separação de áudio – tecnologia que está no núcleo do produto desde a fundação. “A gente está em dois espaços ao mesmo tempo: desenvolve a IA e também constrói o produto”, afirma.

Negócio global

Apesar de ter um escritório nos Estados Unidos, a empresa se define como brasileira. Fundado em João Pessoa (PB), o Moises mantém a maior parte do time no país – são cerca de 120 funcionários ao todo, sendo mais de 70 no Brasil.

A base de usuários é distribuída globalmente. Brasil, Estados Unidos e México lideram em volume, mas juntos representam cerca de metade da base total.

O comportamento, no entanto, varia por mercado: enquanto o Brasil se destaca em número de usuários, o mercado norte-americano concentra maior geração de receita, impulsionado por uma taxa de conversão mais alta em assinaturas.

O modelo de negócios é majoritariamente B2C, com planos de assinatura respondendo por mais de 90% da receita. A frente enterprise, operada pela Music.AI (controladora do Moises), ainda é menor, mas cresce com a oferta de soluções para empresas.

Crescimento e próximos passos 

Há pouco mais de um ano, a Music.AI levantou US$ 40 milhões em uma rodada Série A liderada por Connect Ventures e Monashees, totalizando US$ 52 milhões em funding. Segundo Geraldo, os recursos foram direcionados principalmente para expansão do time, marketing e desenvolvimento de produto da Moises.

A startup afirma operar com eficiência e diz ter hoje mais caixa do que o montante captado na rodada primária, mantendo um nível de queima controlado – um cenário que dá fôlego para avançar na estratégia de produto sem pressão por novos aportes no curto prazo.

Com cerca de 2,5 milhões de minutos de áudio processados diariamente e média de 8,8 sessões semanais por usuário, o Moises aposta no engajamento como motor de crescimento. A ambição é deixar de ser apenas uma ferramenta útil e se tornar a infraestrutura onde a música acontece – da prática à criação.

Parte dessa estratégia passa pela relação com músicos profissionais. Em março de 2026, a empresa anunciou o cantor Charlie Puth como Chief Music Officer. Segundo Geraldo, a escolha vai além do branding: o artista já era usuário ativo da plataforma, com centenas de músicas processadas.

O papel envolve desde campanhas até participação direta no desenvolvimento de produto, trazendo para dentro da empresa a visão de quem está na ponta – criando, testando e performando música.

O post Moises amplia escopo e avança como hub global de tecnologia para músicos apareceu primeiro em Startups.