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Inovação, ética e regulação, velocidade

*Por Vagner Oliveira

A história da tecnologia é frequentemente narrada como um cabo de guerra. De um lado, a velocidade avassaladora da inovação, em especial nos últimos 50 anos. Do outro, a regulação, vista muitas vezes como um freio de mão puxado por governos temerosos. Em 2026, no entanto, essa dicotomia tem se provado não só ultrapassada, como também se tornou um risco operacional. O que o mercado global começa a perceber é que a inovação sem governança não escala. Muito pelo contrário, tem risco de implodir por conta de seu próprio avanço desenfreado – e sob o peso da desconfiança. Nesse cenário, o Brasil surge como um dos laboratórios mais relevantes do mundo para testar o equilíbrio fino entre o rigor normativo e a agilidade de desenvolvimento.

Não é uma afirmação baseada em otimismo, mas em dados e maturidade institucional. O Brasil consolidou-se como um ambiente de testes único porque aprendemos, na prática, que normas inteligentes podem ser catalisadoras. O sucesso de inovações como o Open Finance e o PIX – que hoje servem de referência global – não aconteceram apesar da regulação, mas por causa dela. Eles viabilizaram um ambiente de competição segura que permitiu a velocidade que hoje é rotina. Sem arquitetura adequada, a inovação é apenas improviso. E em 2026, o improviso custa caro demais para qualquer organização.

Um exemplo vem do que vivemos com a inteligência artificial. Segundo dados recentes da PwC, a adoção de IA já alcançou 59% das empresas brasileiras neste ano. O desafio, portanto, não é mais o acesso à ferramenta, mas a construção de uma camada de confiança sobre ela. Enquanto a União Europeia avançou com uma regulação centralizada e complexa no AI Act, e os EUA mantiveram uma abordagem fragmentada voltada exclusivamente ao mercado, o Brasil tem a oportunidade histórica de trilhar uma “terceira via”: uma autonomia regulatória que protege o indivíduo sem asfixiar a capacidade técnica do agente que está na ponta.

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O debate em torno do PL 2338/23 – o marco regulatório da inteligência artificial – reflete essa busca. O Brasil é o lugar ideal para esse equilíbrio porque nosso mercado é heterogêneo. Testar uma tecnologia aqui significa entender como ela performa em um sistema financeiro avançado, mas também como ela pode servir às demandas da sociedade e reduzir desigualdades sociais. A posição dos brasileiros, em geral, também endossa essa necessidade de regulação. De acordo com o Instituto Locomotiva, cerca de 82% dos internautas brasileiros defendem regras claras para o setor. Existe uma demanda social por ética que o setor privado não pode mais ignorar se quiser ter respaldo para operar.

O equilíbrio entre velocidade e regulação é, acima de tudo, uma questão de eficiência. Quando as regras são claras, o tempo gasto com a mitigação de riscos jurídicos diminui e o foco volta para a entrega de valor. O Brasil de 2026 é esse espaço onde a agilidade do código encontra o rigor da norma, gerando um ambiente onde a falha rápida ainda é permitida, desde que não seja uma falha ética. Estamos provando que é possível ser veloz sem ser inconsequente.

Defender esse “caminho brasileiro” é, no fundo, defender também nossa soberania digital. Temos empresas resilientes, uma cultura de adaptação rápida e um ecossistema que, em parte, entende que regulação não é barreira, é infraestrutura de base. Este ano poderá – ou deveria – ser lembrado como aquele em que começamos a parar de tentar importar modelos externos e passamos a exportar modelos de governança tecnológica. Existe um futuro da inovação consciente que está sendo escrito aqui, em português, com o pragmatismo de quem entende que o melhor sistema é aquele que funciona para todos.

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