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João Moura, da CrewAI | Foto: divulgação
João Moura, da CrewAI | Foto: divulgação

No palco da Brazil at Silicon Valley 2026, João Moura, fundador da CrewAI – uma plataforma pra criação de agentes que começou a trabalhar o assunto antes dele se tornar o grande hype do momento – , deu um aviso: a janela de oportunidade aberta no atual momento é maior dos últimos 30 anos. E não aproveitá-la pode ter um custo muito alto.

“Levamos trinta anos como humanidade para ter um momento assim de novo. Da última vez foi a internet. Sabe quanto tempo vai levar até aparecer outra janela dessas? Não fazer nada agora tem um custo. E esse custo pode ser maior do que você imagina”, alertou.

A CrewAI nasceu em 2023 como um projeto open source e hoje atende organizações como Johnson & Johnson, PepsiCo e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Conhecimento sobre a ferramenta já foi colocado como requisito para a contratação de profissionais de tecnologia de empresas como a Apple.

Há um ano e meio, João – ou Joe, como ele tem adotado para facilitar a conversa com os gringos – se mudou para o Vale e tem visto de perto a evolução da IA. Para ele, a disputa não é sobre o domínio dos modelos fundacionais. “Os modelos são como inteligência de aluguel. Você paga por inteligência e orquestra isso em direção a trabalho real”, disse. O que falta, segundo ele, é a capacidade de conectar essa inteligência aos dados certos, aos sistemas certos e à memória organizacional de cada negócio. “Esse último quilômetro acaba sendo, na prática, mil quilômetros”, completou

Para ilustrar, Moura usou um exemplo que acompanha de perto em um cliente da CrewAI: uma empresa de bebidas que, como estratégia de crescimento, pagava o processo de licenciamento de bebidas alcoólicas de bares e restaurantes em troca de compromissos de compra. A estratégia funcionou, até virar centenas de milhares de licenças para renovar, com prazos diferentes, estabelecimentos diferentes e relacionamentos que poderiam se deteriorar a qualquer mal-entendido. “Era um problema de crescimento que virou um pesadelo operacional. Hoje está sendo completamente automatizado com agentes de IA” contou.

O caso serve de metáfora para o que ele chama de curva de maturidade das empresas ao adotarem IA. A maioria começa querendo economizar dinheiro. Depois, passa a querer crescer mais rápido. Mas a fase mais poderosa é a terceira: quando a IA permite fazer coisas que simplesmente não eram viáveis antes — não por falta de boas intenções, mas por falta de capacidade de execução.

997, não 996

Dividindo o palco com Maria Teresa Fornea, diretora geral da Endeavor no Brasil, João foi questionado sobre o ritmo de trabalho no Vale do Silício – o famigerado modelo 9-9-6, que representa jornadas que vão das 9h às 21h, seis dias por semana – João Moura desarmou o auditório com uma piada que continha uma observação séria: “Não sei vocês, mas eu já fazia 9-9-7 no Brasil”, brincou.

Falando sério, ele comentou que a diferença que o Vale trouxe não foi intensidade. Foi compressão de tempo. “Antes você criava algo e tinha um ano para colher os frutos. Hoje são oito semanas antes de alguém copiar, ou antes de surgir um novo modelo que muda tudo”, ponderou.

Vantagem de ser brasileiro

Um dos trechos mais curiosos do painel foi a revelação de Moura sobre como ser brasileiro funcionou, ao menos uma vez, como argumento de investimento. Meses depois de fechar o pré-seed de US$ 2 milhões da CrewAI, um investidor o procurou para explicar parte do raciocínio: a origem brasileira de Moura tinha sido um ponto a favor. A justificativa foi que os brasileiros não são tão entitled, ou sentem menos “no direito” do que os americanos.

Moura não endossou o estereótipo, mas tampouco o descartou. O que ele sublinhou foi diferente: alguns de seus melhores engenheiros estão no Brasil. E a percepção de que empresas brasileiras são mais abertas a testar tecnologias novas — “muito mais do que algumas empresas nos EUA ou na Europa” — é algo que ele observa diretamente na carteira de clientes da CrewAI.

Empresa AI-native: além da criação de IA

Na reta final do painel, Moura foi questionado sobre o conceito de empresa AI-native, e fez uma distinção importante.

Há duas leituras possíveis do termo. A primeira é a empresa que trabalha com produtos de IA. Essa, ele disse, virou quase obrigação: “Se você está fazendo outra coisa, vai ficar cada vez mais difícil captar capital. Agentorce substituiu o nome do Salesforce no próprio site deles. Satya Nadella faz demos ao vivo do Copilot. Os grandes líderes entenderam que seu espaço não está garantido”, alertou.

A segunda leitura é mais estrutural: a empresa que foi construída desde o início assumindo que agentes de IA farão boa parte do trabalho. Não como camada adicional, mas como premissa de design. “A maioria dos processos que existem hoje foi otimizada para humanos. Se você partir do pressuposto que agentes vão executá-los, você monta uma empresa completamente diferente.”

Na CrewAI, esse pressuposto já é realidade interna: dois dos engenheiros que mais contribuem com código na empresa são agentes Open Claw. “É insano como isso continua crescendo”, disse.

A Urgência na adoção da IA

O fechamento do painel foi o ponto que Moura claramente queria deixar como mensagem principal – e que chegou sem rodeios.

Ele identificou dois obstáculos que travam o empreendedor brasileiro: a tendência de rir de si mesmo quando não deveria, e o custo da inação disfarçado de cautela.

“Tem muita gente no Brasil que quer fazer algo, mas fica parada na beira. ‘Talvez. Não sei se vai dar certo. Vou esperar um pouco.’ Tudo bem ter dúvidas. Mas existe um custo de oportunidade real aqui. Este pode ser o último momento, para muitos de nós, de construir algo em um ambiente assim.”

A analogia com a internet que Pedro Franceschi e Victor Lazarte usaram em seu painel no dia anterior, foi usada de outra forma: não como celebração do momento, mas como alerta. A internet também pareceu uma janela aberta para sempre — até que as vantagens do timing começaram a se concentrar em quem entrou cedo. “Se você não age, provavelmente está tomando uma decisão mais ousada do que imagina. Só que no sentido errado”, afirmou.

*A cobertura do BSV 2026, diretamente da Califórnia, é um oferecimento da Oracle.

O post Não fazer nada pode custar caro, diz fundador da CrewAI apareceu primeiro em Startups.