
A criação de uma vice-presidência dedicada ao B2B na TIM não é apenas um movimento organizacional. É sinal de uma transformação mais profunda, e ainda em curso, sobre o que significa ser uma empresa de telecomunicações na era da inteligência artificial (IA).
À frente dessa nova estrutura, Fabio Costa chegou há alguns meses à TIM com um repertório incomum para o setor. Ex-CEO da Salesforce no Brasil, traz a lógica de software, plataforma e velocidade. Mais do que isso, carrega uma leitura de mercado que ajuda a explicar por que as teles voltaram ao centro do debate tecnológico.
“Estamos em um ponto de reflexão como indústria. Não faz mais sentido separar telecom de tecnologia”, afirma. Para ele, a TIM já não se encaixa nas classificações tradicionais, não é apenas uma empresa de serviços, nem de software, tampouco uma operadora de telecom no sentido clássico. O executivo evita, inclusive, rotular esse novo posicionamento. Mais do que nomear, diz, o desafio está em executar essa transformação na prática.
A afirmação responde a uma pressão estrutural, de margem, no caso das operadoras, e a uma mudança igualmente estrutural no papel da tecnologia nas empresas. Se até pouco tempo atrás a disputa estava concentrada em cloud computing e software, a ascensão da IA reposicionou a infraestrutura como ativo estratégico. E é justamente nesse ponto que a TIM constrói sua narrativa.
Cinco motores e uma mudança de lógica
Segundo Costa, a estratégia da companhia parte de uma reorganização conceitual do seu portfólio. Internamente, a TIM passa a operar com o que ele chamou de cinco “motores” de crescimento, um modelo que ajuda a entender a transição de uma lógica de produtos para uma lógica de soluções.
Os dois primeiros são os mais tradicionais: conectividade e internet das coisas (IoT). O terceiro nasce com a recente aquisição da brasileira V8.Tech, gerando uma camada de transformação digital e serviços. Mas é nos dois últimos que está a ambição talvez mais relevante da empresa.
O quarto motor conecta telecom ao avanço da inteligência artificial especialmente no que Costa chama de “IA do mundo real”. Diferentemente dos modelos baseados em linguagem, essa camada opera sobre dados capturados em tempo real: sensores, máquinas, veículos e infraestrutura urbana.
“O mundo está investindo trilhões em data centers para suportar IA baseada em texto. Mas existe uma outra IA, que interpreta o que está acontecendo agora, no mundo físico, e isso exige baixa latência e processamento distribuído”, explica.
Aqui, entra um dos principais argumentos estratégicos das teles, a capilaridade da rede. Cada antena, nesse contexto, deixa de ser apenas um ponto de conectividade e passa a funcionar como um potencial nó de processamento, base para computação de borda (edge computing).
O quinto motor fecha o ciclo: a transformação em uma empresa de dados. Se a infraestrutura coleta, transmite e processa informações em escala, a monetização passa a acontecer na camada de inteligência. “Ao coletar dados de rodovias, portos, agro ou varejo, por exemplo, conseguimos aplicar IA para gerar valor direto para o cliente. Isso nos leva a um modelo de empresa de dados e IA”, conta.
Virada do B2B
O movimento da TIM não é isolado. O B2B vem sendo reposicionado como o principal vetor de crescimento das teles globalmente, mas há uma diferença importante entre discurso e necessidade.
Por aqui, em solo nacional, a pressão por margem no B2C torna essa transição menos opcional do que parece. “O B2B passa a ser o motor de crescimento. Temos uma base sólida no B2C, mas é no corporativo que está a expansão”, afirma Costa.
A questão é que esse crescimento não acontece com a simples venda de conectividade. Ele exige uma mudança estrutural na forma de abordar o cliente. A TIM, portanto, está reorganizando suas equipes para atuar por indústria, e não mais por produto. A lógica deixa de ser vender link, chip ou conectividade e passa a ser resolver problemas específicos de setores como agro, logística, utilities ou cidades.
É uma mudança relevante e, ao mesmo tempo, desafiadora. “Para trabalhar com dados, é preciso falar a linguagem do cliente. Não dá mais para ter uma abordagem genérica”, assinala.
Essa transição também exige um modelo de venda consultiva, combinando diferentes camadas, conectividade, cloud, analytics, IoT, em uma proposta integrada. Na prática, significa abandonar o modelo tradicional de telecom e se aproximar da lógica de integração de sistemas.
Papel da V8 e construção de um modelo híbrido
A aquisição da V8 aparece como peça-chave nesse movimento todo, pontua Costa. A empresa adiciona à TIM uma capacidade que historicamente não fazia parte do DNA das operadoras: serviços avançados de cloud, dados e analytics.
Mais do que complementar, essa integração funciona como ponte entre mundos distintos. “A V8 está muito forte na camada de transformação digital. Quando combinamos isso com telecom, IoT e edge, criamos algo, afirma Costa. O resultado é um modelo híbrido, que mistura infraestrutura e serviços, algo que, até pouco tempo atrás, era visto como território exclusivo das big techs.
Mas essa convergência também aumenta a complexidade. Como o próprio executivo coloca, não existe uma única solução. “É como um quebra-cabeça em que as mesmas peças podem formar diferentes imagens”, compara. Essa flexibilidade é, ao mesmo tempo, oportunidade e risco: permite adaptação, mas exige capacidade de execução e coordenação.
IA do mundo real
Se há um ponto em que a estratégia da TIM já começa a se materializar, ele está nos casos de uso ligados à IoT e a cidades inteligentes.
Hoje, a companhia já opera centenas de milhares de pontos de iluminação pública conectados e veículos monitorados em tempo real. São aplicações que combinam sensores, conectividade e análise de dados e que começam a ganhar escala.
“Quando se conecta iluminação, mobilidade e infraestrutura urbana, começa a criar uma camada de inteligência sobre a cidade”, afirma.
Esse tipo de aplicação ilustra bem a diferença entre a IA baseada em linguagem e a IA operacional. Enquanto a primeira interpreta texto, a segunda toma decisões em tempo real, como ajustar iluminação, gerenciar tráfego ou otimizar operações.
Durante anos, a infraestrutura foi tratada como uma camada invisível, necessária, mas pouco estratégica. A ascensão da IA começa a inverter essa lógica. “Sem dados, não existe IA. E os dados passam pela infraestrutura”, resume Costa.
Isso reposiciona as teles em um lugar que elas não ocupavam há algum tempo, o de protagonistas na cadeia de valor digital. Mas há um ponto de atenção. Ter infraestrutura não garante automaticamente relevância. O diferencial estará na capacidade de transformar essa base em soluções, produtos e inteligência.
Nem telco, nem software
Na zona híbrida em que passa a atuar, a TIM projeta para os próximos anos uma ambição de crescimento exponencial, ainda que, por estar em período de silêncio, evite detalhar números. A meta é se consolidar como uma empresa capaz de operar na transmissão, na coleta e na interpretação de dados em escala, tendo a inteligência artificial como camada central de geração de valor.
“Nosso papel é ajudar os clientes a usar dados e inteligência artificial de forma efetiva. Tudo o que fazemos converge para isso”, afirma. Nesse contexto, o desafio já não está mais na formulação da visão, mas na capacidade de executá-la.
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