
Boas ideias e capital já não são, sozinhos, garantia de crescimento no ecossistema de inovação. Para Abraão Sena, sócio da Rocketseat, o principal gargalo das empresas hoje está em um ponto menos visível e frequentemente negligenciado: a capacidade de execução. É a partir dessa leitura que nasce a 4×4 Ventures (lê-se “Four by Four”), startup fundada por ele ao lado de Vanessa Poskus, CEO da Uppo, para atuar no diagnóstico e na estruturação de cultura, liderança e processos de gestão.
“Com ou sem inteligência artificial, as pessoas continuam sendo o motor de escala dos negócios. No entanto, o que a gente mais vê são empresas crescendo sem clareza de direção, sem cultura consolidada e com lideranças despreparadas para sustentar esse crescimento”, afirma Abraão.
A tese parte do diagnóstico de que empresas startups e captam sem necessariamente resolver problemas básicos de gestão. Segundo o fundador, não é raro encontrar empresas com aportes relevantes que ainda operam com falhas estruturais, como desalinhamento de liderança, ausência de direcionamento estratégico e fragilidade cultural.
Para Abraão, esse descompasso tem efeitos diretos no negócio, incluindo queda de produtividade, deterioração da saúde organizacional e dificuldade de sustentar o crescimento no longo prazo. É nesse estágio – quando a empresa cresce, mas ainda sem estrutura – que a 4×4 pretende atuar.
Sem consultoria, nem software
Apesar de trabalhar com diagnóstico e acompanhamento estratégico, a 4×4 evita se posicionar como uma consultoria. A escolha reflete o modelo híbrido da operação. “Se eu me coloco só como consultoria, limito o modelo”, afirma Abraão.
A atuação se organiza em três frentes: diagnóstico e estratégia, com a identificação de pontos de fricção e gargalos que limitam o crescimento; otimização de resultados, com a aplicação de metodologias e inteligência artificial para destravar processos e gerar tração; e, por fim, performance e escala, com foco na construção de rotinas mais previsíveis, desenvolvimento de lideranças autônomas e crescimento sustentável.
“Posso atuar como conselheiro, ajudar a estruturar a operação ou desenvolver tecnologia própria. Depende do estágio e da necessidade do cliente”, diz.
Com essa base estruturada, a 4×4 entra em uma segunda fase, focada em escala comercial e expansão de mercado. Hoje, a companhia conta com oito clientes, entre startups e empresas de diferentes setores.
Entre os segmentos atendidos estão negócios de tecnologia aplicada a seguros, mercado financeiro, logística e dados. A atuação também alcança grandes companhias, já que antes mesmo da formalização da 4×4, Abraão conduziu projetos com empresas como Gerdau e Ambev, voltados à gestão, liderança e performance.
Agora, a meta é acelerar. “A ideia é crescer entre 50% e 60% nos próximos quatro a cinco meses”, afirma.
Parte dessa tração deve vir da rede construída pelos fundadores, incluindo a atuação de Abraão como mentor e advisor em programas como o Google for Startups, além da experiência de Vanessa como professora mentora da FIAP e CEO da Uppo, HRTech de benefícios flexíveis.
Estrutura independente
A 4×4 nasce como um negócio independente, apesar de estar diretamente conectada à trajetória dos fundadores.
Questionado sobre uma possível integração com a Uppo, Abraão descarta essa movimentação no curto prazo. “A 4×4 nasce para ser independente. No futuro, podemos criar mecanismos alinhados a uma estratégia maior, como uma holding, mas esse não é o foco agora”, afirma.
No momento, a prioridade está na validação do modelo e no avanço da tecnologia. A empresa não pretende buscar investimento neste primeiro momento e vem sendo financiada pelos próprios fundadores. Ainda assim, a entrada de capital externo não está descartada, especialmente para acelerar o desenvolvimento tecnológico – em particular, soluções baseadas em agentes de inteligência artificial.
Mais do que recursos, a busca tende a ser por alinhamento estratégico. “Faz sentido se associar a um fundo que tenha uma tese conectada ao que fazemos. Um portfólio onde nossa solução se encaixe pode acelerar muito a escala”, diz Abraão.
Cultura como infraestrutura
No longo prazo, a ambição da 4×4 vai além da prestação de serviços. A ideia é influenciar a forma como o mercado enxerga cultura organizacional dentro da lógica de crescimento.
Segundo Abraão, esse ainda é um ponto pouco considerado por investidores. “De 100% dos fundos que analisei, cerca de 2% olham para cultura, liderança e gestão de pessoas na hora de investir”, afirma.
Na prática, isso significa que empresas com fragilidades estruturais continuam captando com base, sobretudo, em tecnologia e potencial de mercado. O risco, na avaliação do executivo, é a perda de eficiência e um crescimento difícil de sustentar. “O mercado aposta muito na tecnologia pela tecnologia. Mas é a cultura que sustenta o negócio.”
Nesse contexto, a 4×4 Ventures se posiciona como uma tentativa de reorganizar prioridades no ecossistema. A proposta é tornar cultura, liderança e gestão elementos operacionais nas empresas, integrados à estratégia e mensuráveis no dia a dia. “Não dá para escalar sem olhar para pessoas com o mesmo peso que se olha para produto e tecnologia”, conclui Abraão.
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