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Carolina Kia
Carolina Kia, cofundadora da weme e CRO da BRQ | Crédito: Divulgação

No calendário de Carolina Kia, 5 de maio não é mais um compromisso de agenda. É a data prevista para a chegada de Sofia, sua primeira filha, que deve nascer às vésperas do Dia das Mães. O momento de transição pessoal coincide com uma mudança importante na carreira: a executiva acaba de consolidar a fusão da weme com a BRQ, assumindo agora uma das frentes mais estratégicas da nova operação.

“Tudo aconteceu muito ao mesmo tempo”, diz Carolina em entrevista ao Startups. A descoberta da gravidez ocorreu em meio às negociações com a BRQ, um processo que se estendeu por cerca de dois anos. Embora o plano já fosse engravidar após o casamento, em 2025, a notícia chegou junto ao fechamento do negócio. “Foram dois momentos importantes que acabaram se misturando”, conta.

A chegada de Sofia, porém, é fruto de um planejamento que começou muito antes. Aos 30 anos, Carolina decidiu congelar óvulos para garantir que a maternidade não atropelasse a construção de uma base profissional sólida. “Sempre quis focar na carreira e chegar em um lugar muito legal antes de engravidar, porque, na minha cabeça, quando isso acontecesse, a carreira faria uma pausa”, explica.

Hoje, aos 35, ela revisita a própria crença enquanto equilibra dois mundos. De um lado, o peso de uma empresa que fatura R$ 700 milhões ao ano e reúne quase mil funcionários; do outro, a jornada de consultas, exames e a tentativa de processar, entre uma reunião e outra, o que significa gerar uma vida.

Ela optou por não separar os assuntos e, desde as primeiras conversas, manteve a transparência com os sócios – tanto os antigos quanto os novos. “Sempre deixei claro que ser mãe era um objetivo pessoal próximo. Mesmo assim, assumi um espaço de muita relevância na BRQ, como Chief Revenue Officer (CRO)”.

Para Carolina, o novo cargo em meio à gestação foi um voto de confiança. Ela reconhece a exceção em meio a um mercado que ainda associa maternidade à perda de produtividade. “Muitas mulheres enfrentam o desafio de estar grávida, saber que vão se ausentar e, ainda assim, manter o emprego ou assumir uma posição estratégica”, pontua.

De empreendedora a executiva

Fundada em 2017,a weme foi o principal laboratório de Carolina Kia como empreendedora. Ao longo de quase uma década, a empresa cresceu apoiando grandes companhias na criação de produtos digitais, combinando estratégia, design e experiência.

Foi nesse processo que a executiva diz ter aprendido a liderar. “Liderança é tirar barreiras, servir ao time, garantir um espaço fértil para as pessoas performarem”, afirma. 

Com a fusão, esse papel não desaparece, mas muda de dimensão. Se antes as decisões estavam concentradas entre os fundadores, em uma estrutura de cerca de 100 pessoas, agora Carolina passa a atuar em uma empresa com milhares de funcionários, mais de 30 anos de história e uma base ampliada de clientes e stakeholders.

A transição também altera o tipo de responsabilidade. Como CRO, ela passa a responder por áreas como marketing, governança de vendas e sucesso do cliente, além de participar de decisões que impactam uma operação significativamente maior. “É o maior desafio da minha carreira”, resume.

Segundo Carolina, a decisão de vender a weme começou a ser desenhada anos antes, quando ela e os sócios – Maurício Bueno e Wagner Foschini – perceberam uma mudança no mercado de produtos digitais. A leitura era de que o setor passava por um processo de consolidação – e que permanecer relevante exigiria ganho de escala.

Diante disso, havia duas alternativas: crescer de forma inorgânica ou se unir a um player maior. A escolha pela segunda opção veio após um longo processo, que envolveu conversas com diferentes players.

O critério central foi a complementaridade. “A weme sempre foi forte em design, estratégia e visão de produto. Já a BRQ traz uma estrutura consolidada de tecnologia, dados e inteligência artificial. Foi um match muito forte”, afirma Carolina. A fusão foi anunciada em agosto de 2025. A marca weme deixou de existir e passou a operar como PX Studios, uma unidade de negócio da BRQ liderada por Maurício e Wagner.

Nove meses depois da fusão, Carolina tem certeza de que a decisão foi acertada. “Temos bastante segurança em dizer que fizemos uma boa decisão”, afirma. Sem abrir números específicos, ela conta que a BRQ fechou o primeiro trimestre de 2026 com crescimento em todos os indicadores. A antiga weme, agora PX Studios, também apresenta resultados positivos.

Licença e (des)conexão

O avanço da gestação exigiu de Carolina um planejamento de natureza distinta daquele estruturado para o M&A. Nos últimos meses, sua prioridade foi desenhar a continuidade da operação para o período de sua licença-maternidade, previsto para durar entre cinco e seis meses. A estratégia apoia-se em processos definidos, metas claras e liderança distribuída.

O uso de OKRs e a análise constante de indicadores na BRQ dão a Carolina a segurança de que a operação tem métricas claras para seguir. “Somos muito orientados a KPIs e temos disciplina na cadência de acompanhamento”, explica. Para garantir a execução, dois diretores já estão alinhados ao CEO para absorver as demandas. “Acredito que com boa gestão e disciplina, as coisas fluirão.”

Ainda assim, o processo não se resume à técnica. Carolina admite uma tensão inevitável entre garantir que tudo funcione sem ela e, ao mesmo tempo, continuar sendo essencial para o time “Você quer que dê tudo certo, mas também quer que sintam a sua falta”, confessa.

Essa ambiguidade se estende à ideia de desconexão total. Para quem sempre imprimiu um ritmo intenso na carreira, seis meses longe do dia a dia corporativo parece, por enquanto, um horizonte distante. “Não consigo pensar em ficar totalmente longe. Mas todas as mães me dizem que esse tempo é necessário e que passa super rápido”, conta.

Apesar das incertezas, ela está determinada a tentar. “Estou me preparando para, de fato, me desconectar. A ideia é que meu foco esteja 100% na minha neném, que já é a coisa mais importante da minha vida.”

Olhar sobre o futuro

A gestação trouxe uma percepção nova sobre o olhar social. “Sinto que sou quase uma entidade mágica. As pessoas olham para mim como se eu estivesse brilhando. Elas sorriem na rua, na academia, nos eventos. Querem cuidar de mim, perguntam se estou bem, contam histórias. É um momento extraordinário”, diz.

Carolina é consciente do contexto em que está inserida. “Sei que muitas mulheres não têm isso, e me sinto privilegiada de poder fazer essa pausa com tanta segurança e estabilidade. Já avançamos muito, mas ainda há um longo caminho de conquistas pela frente”, afirma.

O plano é retornar ao trabalho após a licença. “Estou me preparando para cuidar de uma vida enquanto dou continuidade ao cuidado com o time. A carreira continua sendo muito importante para mim. Quero me desconectar durante a licença-maternidade, mas retornar ao trabalho e conciliar maternidade com vida profissional”, destaca.

Ela reconhece, porém, que Sofia ditará o ritmo final. “Gravidez é um processo de muita reflexão. Isso é o que eu projeto agora, mas, na prática, tudo pode mudar. Quando ela nascer, o mundo será outro”, diz a executiva.

Por ora, Carolina divide os dias entre o que precisa ser entregue e o que está prestes a chegar. E entre reuniões e preparativos, o calendário avança em direção a 5 de maio – uma data que deve reorganizar o que importa dentro e fora do trabalho.

O post Às vésperas de dar à luz, Carolina Kia reflete sobre carreira e maternidade apareceu primeiro em Startups.