
por Ana Barroso
Uma nova corrida do ouro tomou o planeta. A euforia em torno da inteligência artificial (IA) mobiliza mercados globais, todos obcecados por poder computacional, infraestrutura e data centers. Mas essa busca frenética esbarrou na tomada e revelou um limite físico e econômico que poucos quiseram enxergar.
Nos Estados Unidos, o frenesi dos data centers já pressiona a rede elétrica a níveis inéditos. O efeito não é abstrato: chega na fatura, pois a conta de luz sobe. A promessa de uma revolução universal começa, silenciosamente, a ser subsidiada pelo cidadão comum.
É nesse ruído que emerge uma tese contra-intuitiva. Enquanto as superpotências tecnológicas colidem com seus próprios limites materiais, o Brasil repousa sobre um ativo geopolítico raro: energia limpa em escala. Talvez sejamos um dos poucos países capazes de tensionar as duas pontas da equação da IA. Na dimensão física, sustentamos uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta. Na dimensão comportamental, carregamos algo ainda mais difícil de replicar, uma cultura digital singular e incomparável capacidade de usar a máquina com destemor. Aqui, tecnologia não é interface; é extensão. É prótese social.
O autor e roteirista M.M. Izidoro sintetiza isso com precisão que pode soar incômoda: “o Brasil é o Vale do Silício da tecnologia afetiva”. Produzimos, em abundância, o ativo mais valioso da economia da atenção, e seguimos distribuindo-o como se fosse gratuito. Somos aceleradores naturais de tendências, transformando o digital em uma espécie de diplomacia popular, caótica e irresistível.
Esse soft power se organiza no que Izidoro chama de os “4 Fs”: Fé, Festa, Família e Fofoca. Parece leve, mas não é. São estruturas densas e complexas de comportamento coletivo. A estratégia ajuda a explicar por que a adoção de IA no Brasil saltou de 63% para 89% em apenas um ano, segundo o estudo “IA na Vida Real”, da Talk Inc. O brasileiro não observa o algoritmo, mas ele o domestica. A “fofoca”, longe de ruído, funciona como um sistema distribuído de auditoria social, pauta a agenda política, pressiona decisões institucionais, como o Marco Legal da IA.
Mas o risco é conhecido e recorrente, tornando-nos, mais uma vez, o laboratório vivo de tecnologias alheias. O empreendedor Silvio Meira e o jornalista Mauro Oliveira apontam que vivemos algo como um anacronismo ciber-institucional, pois enquanto o mundo disputa modelos fundacionais, o Estado brasileiro ainda tenta compreender a lógica das plataformas que já moldam a realidade. Falta linguagem, arquitetura e visão.
Se o processamento for verde, mas a propriedade intelectual continuar no Norte Global, o destino permanece o mesmo: periferia. Trocaremos ferro e soja por uma nova commodity, teremos de novo dados processados fora e importados como produto.
O alerta de Meira sobre o “tecno-feudalismo” não é retórico, é estrutural. Estamos permitindo que modelos treinados sob outras lógicas, outros sotaques, passem a mediar nossas decisões. Precisamos de uma inteligência que não apenas nos represente, mas nos compreenda por inteiro. Que incorpore o nosso borogodó não como estética, mas como lógica de sistema.
Mauro Oliveira também convoca Paulo Freire em seu artigo “Datacenters e Código que Ainda Não Escrevemos”: “Eu ouço as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos / de outro Brasil que vem aí / mais tropical / mais fraternal / mais brasileiro.”
Esse outro Brasil não emerge por inércia. Ele exige código que proteja a soberania, em vez de apenas ceder território a servidores que não nos pertencem.
A realidade, porém, impõe fricções duras. A carga tributária sobre hardware, GPUs (Unidades de Processamento Gráfico) e memórias é proibitiva e corrói qualquer vantagem energética. Data centers consomem não só energia, mas volumes colossais de água – um insumo crítico em um país que já convive com estresse hídrico. E episódios como o avanço do TikTok sobre território Anacé, no Ceará, sem consulta prévia, revelam o custo social desse progresso, uma nuvem que não é nossa, mas que ocupa o nosso chão e atropela direitos.
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E sabemos construir soberania quando há vontade política. Já fizemos isso antes, conectando universidade, Estado e estratégia. Mas hoje o padrão é outro por causa do extrativismo intelectual. O balanço do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de 2025 é explícito ao mostrar que investimos na formação e exportamos o valor com a expansão do Sistema Nacional de CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação) e programas voltados à formação e fixação de talentos. Formamos especialistas em IA em universidades públicas para abastecer big techs estrangeiras, financiamos o talento, mas terceirizamos o futuro.
Um exemplo de iniciativa pública é o Redata (Regime Especial de Tributação para Datacenters), criado em 2025 para atrair infraestrutura e oferecer subsídios, mas críticos apontam o equívoco de regular a estrutura antes de se ter uma estratégia nacional de IA. Uma inversão de lógica, como construir a casa pelo telhado. Sem nuvem própria, sem modelos próprios, o risco é subsidiar a captura dos nossos dados sob jurisdições alheias.
A autonomia nasce do desenho e de alianças que ampliam, sem aprisionar. O Brasil e a América Latina estão diante de uma escolha que não é técnica, mas civilizatória. Podemos arquitetar uma inteligência tropicalizada, alimentada pela energia dos nossos rios e pela complexidade da nossa cultura ou podemos aceitar o papel de colônia digital ao ficar fornecendo energia e dados para que outros nos vendam de volta a nossa própria identidade, processada em servidores que não falam a nossa língua.
A pergunta não é se temos potencial. A revolução tecnológica será definida pela criatividade, adaptação e integração humana – e dominamos esses ativos imensamente lucrativos. A pergunta é se vamos, mais uma vez, terceirizar o que temos de mais valioso: a nossa própria capacidade de inventar novos modos de viver e de estarmos juntos no mundo.
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