
*Por Ígor Dal Bó, head de Investment Bank da Ascenda Capital
A Finep lançou neste início de 2026 um conjunto de editais para inovação que, somados, chegam a aproximadamente R$ 3,3 bilhões disponíveis para as mais diversas empresas em formato de créditos não reembolsáveis. Dentre estes editais existe um específico para projetos de semicondutores em que foram disponibilizados R$ 100 milhões apenas para linhas temáticas desta área.
No dia 10 de abril foram apresentados os resultados parciais em diversos destes editais com os projetos já encaminhados até o momento, pois tratam-se de editais de fluxo contínuo. Neste tipo de linha não existe uma disputa de classificação entre os projetos, mas sim um critério mínimo de pontuação que, se atingido, ainda existindo funding disponível, o mesmo é disponibilizado para aquele projeto.
Para a surpresa de alguns, mas não de todos, a parcial relativa ao edital de semicondutores foi publicada sem nenhum projeto apresentado. Todos os demais editais que publicaram parciais tiveram inciativas protocoladas, sendo algumas como o edital de saúde empresas, com mais de 30 projetos. Isso mostra que o problema não foi o tempo entre o lançamento da chamada e a primeira parcial, mas sim a falta de projetos existentes na área de semicondutores.
Isso escancara duas realidades: a primeira e mais evidente é o deserto dos semicondutores existente no Brasil, em que um órgão público oferece R$ 100 milhões a fundo perdido para qualquer projeto e, passado um mês, não é apresentada nenhuma iniciativa para buscar este valor. A segunda e, talvez, mais difícil de aceitar, é a falha total do ecossistema brasileiro em gerar empresas neste segmento.
Sem dúvida a culpa do Estado é clara, mas colocar apenas nele toda a responsabilidade seria o mesmo que tapar o sol com a peneira. As empresas brasileiras precisam acreditar que é possível criar este setor e comprar a ideia. Afinal, o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de quartzo, matéria prima para a produção do silício, principal material utilizado nos microchips.
Investimentos como a CEITEC, que efetivamente pouco contribuíram para a criação desta cadeia de valor, demonstram claramente que não basta apenas um investimento pontual do estado para tentar criar todo um mercado, precisamos muito mais do que isso. É necessária uma real percepção de valor neste segmento por parte das empresas e empresários para que possa surgir um ambiente favorável e consequentemente um real crescimento deste ecossistema.
A matéria prima nós já temos, algum interesse estatal também, acredito que agora chegou a hora dos responsáveis pela inovação acreditarem que é possível, sim, que o Brasil produza microchips e incentivem nossos empresários. Sem dúvida a busca pelo fortalecimento da área de semicondutores no Brasil é um caminho necessário se possuímos a intenção de nos tornarmos players globais em tecnologia.
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