
A China bloqueou, nesta segunda-feira (27), a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela Meta. A ordem partiu da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês), que determinou a anulação do negócio avaliado em mais de US$ 2 bilhões. A decisão acontece em meio a discussões sobre soberania tecnológica, em especial entre EUA e China, com a disputa entre os dois países pelos melhores talentos e pela propriedade intelectual em IA.
Em nota, o órgão regulatório chinês disse que irá “proibir o investimento estrangeiro na Manus de acordo com leis e regulamentações” e exigiu que as partes envolvidas revertam a transação, segundo reportagem da Reuters. A Meta, por sua vez, afirmou que “a transação cumpriu integralmente a legislação aplicável” e que espera “uma resolução adequada para a investigação”.
Por que a Meta queria a Manus
A Meta adquiriu a Manus para reforçar seu trabalho em agentes de IA, capazes de executar tarefas complexas com mínima intervenção humana. A startup ficou conhecida por desenvolver um dos agentes de IA mais avançados do mercado, capaz de navegar na web, escrever código e tomar decisões de forma autônoma.
A empresa é controlada pela Butterfly Effect e tinha operações baseadas na China. Depois de captar US$ 75 milhões em rodada liderada pela Benchmark, em maio de 2025, a Manus fechou seus escritórios no país em julho e transferiu suas operações para Singapura, o que permitiu que a Butterfly Effect se reincorporasse fora da China, escapando das restrições americanas a investimentos em empresas chinesas de IA e das regras de Pequim sobre transferência de propriedade intelectual ao exterior.
A manobra que irritou Pequim
A mudança para Singapura foi vista como uma tentativa de driblar as duas pontas da disputa regulatória: as restrições dos EUA ao investimento em empresas de IA com vínculos chineses e as regras da China que limitam a saída de capital e tecnologia para fora do país. Pequim não gostou.
Em janeiro, o governo chinês já havia sinalizado que avaliaria e investigaria a aquisição. Agora, foi além: os dois cofundadores da Manus (o CEO Xiao Hong e o cientista-chefe Ji Yichao) foram convocados para reuniões com reguladores em Pequim, em março, e depois tiveram a saída do país proibida, segundo cinco fontes ouvidas pela Reuters. Apesar das restrições, os funcionários da startup já ocupam os escritórios da Meta em Singapura e os projetos seguem em andamento.
Há duas semanas, o Financial Times divulgou documento em que a China declarava que a compra da Manus pela Meta seria uma ação “conspiratória”, com o objetivo de reduzir o poder tecnológico da China.
O que está em jogo
O movimento da NDRC sinaliza o endurecimento de Pequim contra aquisições que possam transferir talento e propriedade intelectual em IA para mãos americanas, num momento em que Washington tenta limitar o acesso de empresas chinesas a chips avançados dos EUA.
Na semana passada, em audiência no Senado americano, Howard Lutnick, secretário de Comércio dos EUA, disse que nenhum chip H200 da Nvidia foi vendido à China até agora. Segundo ele, empresas chinesas querem comprar esses chips, mas o governo chinês não teria autorizado as compras para priorizar a indústria local. Ele destacou que o H200 não é o chip mais avançado da Nvidia, mas ainda é muito poderoso, e reforçou que os EUA não vendem seus melhores chips para a China.
Ainda na mesma semana, o Financial Times divulgou um memorando enviado por Michael Kratsios, diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica dos Estados Unidos, acusando a China de conduzir um esquema de roubo “em escala industrial” de tecnologia de inteligência artificial desenvolvida por empresas americanas.
O bloqueio da operação mostra que a disputa por liderança em inteligência artificial vai além do acesso a chips e modelos avançados: envolve também controle sobre talentos, dados e propriedade intelectual. Ao barrar a venda da Manus, Pequim sinaliza que pretende dificultar a saída de ativos estratégicos do país e reforça que a corrida tecnológica entre China e Estados Unidos está cada vez mais marcada por decisões geopolíticas, e menos por dinâmicas puramente de mercado.
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