
Em mercados em que a tecnologia avança em ciclos cada vez mais curtos, a sensação de estabilidade se tornou quase uma ilusão. Estratégias são definidas com base em um cenário que, muitas vezes, já não existe no momento da execução. É nesse ambiente, de planejamento e adaptação, que o marketing começa a deixar de ser uma função de comunicação para assumir, de forma mais explícita, um papel de engrenagem do negócio.
“Tomamos uma decisão de manhã e, à tarde, já precisamos mudar a rota”, diz Camila de Pádua, com a naturalidade de quem não descreve uma exceção, mas a regra de atuar como gerente sênior de marketing B2B da Samsung Brasil.
À frente da área, e reconhecida com o terceiro lugar na primeira edição do lista Líderes de Marketing de Destaque de Tecnologia do IT Forum, Camila ocupa hoje um espaço que exige mais do que domínio técnico da disciplina. Demanda leitura de contexto, capacidade de articulação interna e, principalmente, uma compreensão clara de como marketing se conecta, ou deveria se conectar, diretamente à geração de valor.
Mas essa visão não foi construída de forma linear. Antes de falar em estratégia, branding ou conversão, Camila aprendeu, quase que como um laboratório vivo, a operar em um território menos estruturado, o da narrativa aplicada a nichos específicos.
Sua carreira começa em uma revista segmentada, em um momento em que o B2B ainda era muito mais associado à especialização. “Comecei como assistente de redação. Minha carreira começou no B2B, e ali comecei a gostar muito desse universo mais específico”, relembra.
Essa origem ajuda a explicar uma característica que se mantém ao longo da sua trajetória: a capacidade de traduzir complexidade sem simplificar. Não se trata apenas de comunicação, mas de mediação entre tecnologia e aplicação, entre produto e contexto de uso.
A passagem por eventos e publicidade ampliou esse repertório, mas foi fora do marketing que veio o aprendizado mais estruturante. Ao migrar para a área de produtos, já na Samsung, Camila passou a operar mais próxima das decisões que, de fato, movem os negócios.
“A experiência em gerência de produtos me colocou perto do resultado, do P&L. Isso muda completamente a forma de enxergar marketing, porque você deixa de pensar só na mensagem e passa a pensar no impacto”, afirma.
Esse deslocamento, de uma visão orientada à comunicação para uma visão orientada a resultado, é, hoje, uma das principais transformações do marketing nas empresas de tecnologia. No caso dela, aconteceu antes mesmo de ser prática do mercado.
Estrutura para crescer
Quando ingressou na Samsung, Camila encontrou uma empresa já consolidada em diversos mercados, com forte presença no B2C e uma operação relevante no B2B, ainda que pouco estruturada como disciplina independente.
A decisão de fortalecer essa frente veio acompanhada de uma mudança: a de deixar de tratar o B2B como extensão do consumo e passar a enxergá-lo como um ecossistema próprio, com dinâmicas, jornadas e necessidades distintas. “Foi um convite do Kauê Melo [head de B2B da Samsung] para ajudar a estruturar essa área. Ele tinha uma visão muito clara do que queria construir e criou um ambiente de autonomia e empoderamento que foi fundamental”, lembra.
A menção ao líder não aparece como formalidade. Ela revela uma dimensão importante dessa transformação. A construção do setor B2B, conta, não foi apenas uma decisão organizacional, mas um exercício de liderança que exigiu alinhamento entre visão e execução.
Com uma equipe enxuta, o desafio não era apenas executar campanhas, mas desenhar um modelo de atuação capaz de integrar diferentes frentes: digital, eventos, mídia, posicionamento e relacionamento com vendas. “O B2B na Samsung é uma disciplina relativamente nova, mas justamente por isso traz muitas oportunidades. É uma área de marketing 360, que conecta várias frentes”, detalha. Esse ponto é relevante porque reflete uma mudança mais ampla: o marketing deixa de ser uma função especializada e passa a operar como um hub de integração na empresa.
Do awareness à conversão
Se há um eixo claro na atuação de Camila, ele está na transição entre duas camadas do marketing que, por muito tempo, operaram de forma quase independente. Uma a construção de marca e outra focada na geração de resultado. “A Samsung sempre teve uma área muito forte de awareness e construção de desejo. O meu papel é garantir que isso se converta em resultado”, diz.
Essa frase sintetiza uma das principais tensões do marketing contemporâneo. Em um ambiente em que tudo pode ser medido, mas nem tudo é relevante, a pressão por performance cresce, muitas vezes sem que exista clareza sobre o que, de fato, gera valor. No B2B, essa pressão é ainda mais evidente. Ciclos de venda mais longos, múltiplos decisores e maior complexidade técnica tornam a conversão um processo menos linear e mais dependente de entendimento do contexto do cliente.
É nesse ponto que Camila introduz uma camada que vai além dos dados. “Mesmo no B2B, estamos falando de pessoas. Existe uma jornada individual, uma carreira, uma responsabilidade por trás de cada decisão”, assinala. A personalização, portanto, deixa de ser apenas um recurso tecnológico e passa a ser uma abordagem estratégica, que exige compreender não só o cliente como empresa, mas o indivíduo que decide.
Papel do Business Experience Studio
A materialização mais clara dessa estratégia está no Business Experience Studio, espaço criado para aproximar clientes das soluções da Samsung em um ambiente imersivo.
O projeto não nasceu como uma ação tática, mas como resposta a uma lacuna sobre a dificuldade de demonstrar, de forma tangível, o valor de um portfólio cada vez mais amplo e complexo. “Quando se tem uma linha robusta de produtos, precisa de um lugar que traduza isso. Não é só mostrar, é fazer entender”, explica.
A construção do espaço levou cerca de dois anos e meio, um tempo que, no contexto de tecnologia, pode parecer longo, mas que revela o nível de articulação necessário para viabilizar iniciativas desse tipo em grandes organizações.
“O IT Forum foi uma referência importante para entendermos como criar um ambiente de experiência, não só de exposição”, conta. Os resultados vieram em diferentes frentes. Algumas linhas, como displays interativos, registraram crescimento superior a 200%, e hoje cerca de 80% das áreas de negócio da Samsung estão representadas no showroom.
Mas o impacto mais relevante talvez esteja na forma como o espaço altera a dinâmica comercial, que reduziu a distância entre tecnologia e aplicação, e acelerando o entendimento do cliente.
Paradoxo da lidernaça
Existe um desafio pouco visível em empresas líderes, a dificuldade de romper com modelos que já funcionam. Quando o risco de errar é maior do que o de permanecer igual, a inovação tende a ser incremental.
“Em uma empresa líder, é mais difícil pensar diferente. Mas foi justamente isso que o B2B me trouxe, a oportunidade de construir algo novo”, afirma. Essa construção exige não apenas estratégia, mas energia constante de adaptação, algo que, para Camila, está diretamente ligado à forma como encara a própria trajetória.
“Precisamos nos manter jovens. Não na idade, mas na forma de pensar. Aberta ao novo, ser vibrante, curiosa, disposta a mudar.” Aos 47 anos e com quase duas décadas no setor, sua fala não soa como conselho, mas como método.
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