Skip to main content

Mel Robbins (direita). Foto: Déborah Oliveira

Há algo de revelador no fato de um dos livros mais vendidos do mundo hoje não falar de tecnologia, estratégia ou inovação, mas de comportamento e, sobretudo, de estresse. Em meio a uma economia que cada vez mais gira em torno da inteligência artificial (IA), automação e decisões em tempo real, o fenômeno editorial “The Let Them Theory”, ou “Deixa pra lá: a teoria Let Them”, em português, de Mel Robbins, desloca o eixo da discussão para um território menos confortável: o da responsabilidade individual diante do caos.

Com mais de 10 milhões de cópias vendidas em menos de um ano em todo o mundo, traduzido para dezenas de idiomas e no topo das listas de indicações do The New York Times, o livro não se tornou um fenômeno por acaso. Ele responde a uma ansiedade difusa e crescente de uma geração de líderes que, ao contrário do que se imaginava, não perdeu o controle para as máquinas, mas para o excesso de estímulos, pressão e expectativas e ao impacto direto disso na sua capacidade de decidir.

“Quero que saiam daqui se sentindo mais no controle e, principalmente, protegidos de muito estresse e drama desnecessários que estão drenando tempo e energia”, sentenciou Robbins para a plateia do SAS Innovate*, realizado nesta semana nos Estados Unidos.

A tese central do livro parte justamente dessa constatação. O problema não é apenas o volume de trabalho, mas o tipo de carga que se carrega. Segundo a autora, a maior parte do estresse não vem do que as pessoas fazem, mas da tentativa constante e frustrada de controlar o que não depende delas, como decisões de outras pessoas, contextos organizacionais, movimentos de mercado, respostas que não chegam, comportamentos que não mudam.

A resposta proposta por Mel é quase desconcertante em sua simplicidade e dá título ao livro: “Let them”, ou “deixe que façam. deixe que aconteça. deixe que seja”. “Quando você diz ‘deixe eles’, reconhece que aquilo está fora do seu controle. E toda vez que se foca no que não se controla, aumenta o seu nível de estresse”, explicou.

Esse ponto é chave. “Let them”, contou ela, não é sobre aceitar passivamente o mundo, mas sobre interromper o impulso automático de reagir a tudo que está fora do seu alcance, uma reação que, na prática, alimenta o ciclo de ansiedade e compromete a clareza.

A segunda camada, segundo ela, é o “let me”. Se o primeiro movimento é soltar o que não pode ser controlado, o segundo é assumir radicalmente o que pode: comportamento, resposta, foco e prioridade. “Não se pode mudar outra pessoa. Mas pode mudar a forma como você aparece e isso tem um impacto enorme nos outros”, afirmou.

Entre a filosofia e a prática

Esse duplo movimento de soltar e assumir estrutura o livro e o conecta diretamente ao Estoicismo, que tem sido redescoberto atualmente por executivos como ferramenta prática de liderança. A ideia não é nova. Pensadores como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio já defendiam, há séculos, a distinção entre o que está sob controle e o que não está.

O que Mel faz é traduzir esse princípio para o cotidiano corporativo contemporâneo, em que a complexidade deixou de ser exceção e virou condição permanente. Mas o livro não se sustenta apenas na filosofia. Ele se ancora ainda em neurociência e comportamento, especialmente na forma como o cérebro reage à mudança.

“O seu cérebro é programado para economizar energia. Ele aprende padrões e repete automaticamente, por isso sempre vai resistir ao que é difícil”, indicou. É por isso que a mudança, mesmo quando desejada, encontra resistência. E é nesse sentido que Robbins insiste em um ponto central: pensar não muda nada. Ação muda.

A chamada “regra dos cinco segundos” surge como ferramenta para quebrar esse ciclo, orienta ela. Ao interromper o padrão automático com uma contagem regressiva — 5, 4, 3, 2, 1 —, cria-se uma pequena, mas decisiva, janela de ação. “Ao pensar por mais de cinco segundos, é possível encontrar uma desculpa para não agir”, explicou.

A partir da conversa no palco do evento com Jennifer Chase, CMO do SAS, esse diagnóstico ganha escala organizacional. O problema das empresas não é mais acesso à tecnologia. É a incapacidade de operar sob pressão contínua ou o medo, alertou Mel. “As pessoas não estão usando IA porque têm medo. E isso é uma resposta humana completamente normal quando a mudança é imposta.”

“Estudo mostram que 83% dos adultos hoje vivem em estado de estresse crônico”, destacou ela, ao trazer um dado que ajuda a explicar por que decisões estão mais reativas, equipes mais sobrecarregadas e organizações menos claras.

O impacto é cognitivo. Sob estresse, as pessoas pensam pior, decidem pior e executam pior. E, quanto mais complexas as organizações se tornam, mais dependem de algo que o estresse corrói: clareza.

Liderança define o clima

“Os líderes definem o clima.” A metáfora usada por Mel não é casual. Assim como o tempo define o comportamento das pessoas (um dia de sol convida, uma tempestade retrai), o líder estabelece o ambiente emocional da organização. “Ao deixar o estresse tomar conta, isso se espalha pela organização e compromete a capacidade das pessoas de pensar com clareza”, assinalou.

Carregado de pressão, o líder cria um ambiente de tensão; se traz clareza, cria espaço para decisão. E, ao contrário do que muitos ainda tratam como estilo, esse “clima” é uma variável direta de performance.

Se o líder opera em modo de urgência constante, transmite urgência. Se transmite urgência, amplifica o estresse. E, ao amplificar o estresse, reduz a capacidade do time de pensar estrategicamente, exatamente o oposto do que se espera em um ambiente de transformação.

O livro, portanto, não propõe apenas um ajuste de comportamento. Propõe uma mudança de postura diante do próprio papel. Simplificar deixa de ser uma escolha estética e passa a ser uma responsabilidade. “Se tudo é importante, nada é importante”, resume ela para quem prioridade não é volume de trabalho, é clareza de direção. E essa clareza começa por quem lidera, finalizou.

*A jornalista viajou a convite do SAS

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!