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Cenário urbano ao entardecer com prédios ao fundo e dois guindastes de construção em primeiro plano. No centro da imagem, aparece a estrutura translúcida de um edifício alto em forma de projeção digital, sobreposta por gráficos, diagramas, ícones e interfaces tecnológicas, sugerindo dados, análise e digitalização na construção civil. O céu apresenta tons suaves de azul e rosa, e a cena combina elementos reais e virtuais. (patrimônio)

*por Marcus Granadeiro

Nos últimos anos, museus e edifícios históricos em todo o mundo passaram a enfrentar a combinação entre estruturas centenárias, desgaste estrutural e instalações pouco mapeadas e gerenciadas, o que acarretou na deterioração de patrimônios valiosos.

Um exemplo recente foi o vazamento de água que danificou centenas de documentos do departamento de antiguidades egípcias do Museu do Louvre, na França, evidenciando a urgência de repensar a infraestrutura dos edifícios históricos. A administração minimizou o impacto ao afirmar que os materiais molhados, entre 300 e 400 periódicos e registros científicos dos séculos XIX e XX, não representam perdas irreparáveis.

Outro caso é o British Museum, na Inglaterra, que enfrentou problemas recorrentes de infiltrações e goteiras no telhado, levando ao fechamento temporário de salas e à retirada preventiva de peças. O próprio conselho do museu reconheceu publicamente que a infraestrutura do prédio vitoriano não acompanhou a complexidade atual da operação e do acervo.

Os episódios escancaram a vulnerabilidade de estruturas antigas frente a riscos cada vez maiores. Afinal, como preservar o passado quando os próprios edifícios que o abrigam foram projetados para um mundo que já não existe?

É nesse ponto que tecnologias de captura da realidade, como a Nuvem de Pontos, e modelos digitais de gestão (BIM) deixam de ser apenas tecnologia e passam a configurar um elemento estratégico para a continuidade histórica. Ao permitir a criação de representações tridimensionais precisas de edifícios, elas asseguram que nenhum detalhe se perca, independentemente do que aconteça com a estrutura física.

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A vantagem de uma digitalização prévia é inegável. O incêndio de 2019 na Catedral de Notre Dame de Paris é um exemplo incontornável. O modelo de Nuvem de Pontos, registrado quase uma década antes, tornou-se peça-chave para reconstruir vitrais, abóbadas e elementos de madeira com fidelidade milimétrica. Esse método também se mostrou indispensável no caso do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Após o incêndio de 2018, a captura da realidade permitiu um levantamento preciso do que restou, apoiando tanto a apuração dos danos quanto o planejamento e a execução de etapas da obra de recuperação. Ou seja, quando o dado existe, o restauro não depende apenas de memória, fotografias ou suposições.

No caso do Louvre, a lógica é a mesma. Em prédios tão complexos, sistemas vitais, como tubulações, válvulas, dutos de ventilação e aquecimento, estão embutidos em paredes históricas e nem sempre atualizados. Capturar o “as-built” do prédio com precisão e integrá-lo a um modelo BIM permite prever falhas antes que se tornem desastres, estruturar manutenção preventiva e reduzir a dependência de inspeções manuais, muitas vezes imprecisas. Em vez de reagir a um vazamento provocado pela abertura acidental de uma válvula, a gestão pode agir de forma antecipada.

A digitalização também cumpre outro papel importante ao preservar o conhecimento sobre o patrimônio. Mesmo que um incidente cause danos físicos, os dados tridimensionais asseguram que informações essenciais estejam registradas para orientar restauros, pesquisas e até experiências virtuais, que hoje são parte crescente da estratégia de engajamento dos museus.

O Louvre, o museu mais visitado do planeta, convive com a pressão de manter um acervo incomparável e, ao mesmo tempo, zelar por um edifício antigo submetido a demandas extremas. Diante disso, investir em captura da realidade e em gestão digital não é um luxo tecnológico, mas uma medida de responsabilidade institucional. É garantir que o passado não seja comprometido por falhas do presente.

Assim como um mapeamento genético orienta cuidados médicos, um gêmeo digital orienta a saúde estrutural de monumentos. Adotar Nuvem de Pontos e BIM significa planejar, e não apenas consertar. Significa proteger, e não apenas reagir. A tecnologia, neste caso, não substitui a história, ela a salva.

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