
Enquanto o Sapphire 2026 discutia inteligência artificial (IA), transformação empresarial e reinvenção dos negócios, um dos momentos mais humanos, e talvez mais impactantes do evento, veio justamente de alguém de fora da tecnologia. Em uma conversa leve, bem-humorada e cheia de reflexões conduzida pelo CEO da SAP, Christian Klein, o ex-tenista Roger Federer falou sobre carreira, pressão, disciplina, analytics, liderança e, principalmente, evolução.
Federer admitiu que demorou para entender que precisava dos próprios adversários para atingir o nível que alcançou. “Eu precisava de um Rafa [Nadal]. De um Novak. Precisava de um Andy [Murray] a minha vida.”
A reflexão surgiu quando o CEO da SAP perguntou se, em algum momento, ele não pensou que teria sido mais fácil construir sua trajetória sem dividir a era do tênis com alguns dos maiores atletas da história. Federer respondeu que passou por todas as emoções possíveis. “No começo, eu estava muito feliz sem eles”, brincou.
Quando chegou ao topo do ranking mundial, o suíço contou que sentia estar vivendo o auge absoluto da carreira. Vencia praticamente o tempo todo e acreditava que aquilo poderia continuar daquela forma. Até Nadal aparecer.
Federer disse que, naquele momento, ainda enxergava o espanhol quase como uma ameaça pontual. Não imaginava que estava diante de uma rivalidade que redefiniria sua carreira e o próprio esporte. “Eles me mostravam minhas falhas. Minhas fraquezas mentais. Minhas limitações físicas”, contou.
A partir dali, começou um processo constante de reinvenção. Federer passou a mudar treinos, intensidade física, preparação mental e até formatos de prática para tentar responder ao nível dos rivais. Treinava em calor extremo em Dubai, fazia sessões mais longas para simular partidas de cinco sets e buscava mais adversários canhotos para entender melhor o jogo de Nadal. “Sem eles, eu provavelmente teria permanecido mais na minha zona”, afirmou.
A fala ecoou de maneira quase simbólica em evento dominado por discussões sobre IA. Em um momento em que empresas são pressionadas por transformação acelerada, concorrência global e novos modelos operacionais, Federer praticamente descreveu o que muitas organizações vivem hoje: a necessidade de evoluir e se reinventar porque o ambiente ao redor mudou, pressionado por novas empresas que mudam o mercado ou por outras gigantes, que aceleram rapidamente suas estratégias.
Obsessão pela perfeição
Outro momento forte da conversa veio quando Federer falou sobre derrota e perfeccionismo. Relembrando o discurso que fez para estudantes em Dartmouth, universidade de Hanover, o ex-tenista contou que queria preparar jovens líderes para uma realidade simples, mas frequentemente ignorada: ninguém vence o tempo todo.
Foi nesse contexto que surgiu uma das estatísticas mais famosas de sua trajetória. Apesar de ser considerado um dos maiores atletas da história, Federer venceu 54% dos pontos que disputou na carreira. A ideia de trazer esses números novamente não era diminuir conquistas, mas mostrar que excelência não é construída por perfeição contínua. “Talvez vencer 54% já seja suficiente para ter a carreira que eu tive”, disse.
Segundo ele, muitas pessoas quebram justamente por buscar uma perfeição impossível. “Queremos que tudo seja tão perfeito que acabamos quebrando por causa disso”, refletiu.
Federer explicou que o tênis o ensinou algo fundamental: perder faz parte do processo. O importante é conseguir seguir em frente rapidamente. “Você ganha um ponto. Você perde um ponto. Precisa ser capaz de seguir em frente na vida”, resumiu.
Serenidade?
Apesar da imagem pública de tranquilidade, Federer admitiu que controlar emoções foi um dos maiores desafios da carreira. Hoje lembrado pela elegância e serenidade em quadra, ele revelou que, no início, era exatamente o oposto. No começo era explosivo, emocional e descontrolado. “Chorava muito durante os jogos. Quebrava raquetes. Xingava”, contou, arrancando risos da plateia.
Segundo ele, familiares, amigos e treinadores repetiam constantemente que precisava mudar. Mas a transformação só aconteceu quando percebeu que a mudança precisava partir dele próprio.
A solução não foi eliminar sua personalidade, mas encontrar equilíbrio entre intensidade e controle. “Precisava ter fogo no estômago e gelo nas veias”, afirmou.
Federer contou que houve um período em que tinha apenas “fogo”. Tudo era emoção excessiva, impulsividade e explosão. Depois passou para o extremo oposto, tornando-se frio demais. “Por um tempo eu tinha só fogo. Depois tive só gelo”, disse. O aprendizado veio justamente da combinação dos dois.
Dados, analytics e intuição
A conversa também entrou no território da tecnologia. Federer falou sobre como analytics começou a transformar o tênis no fim de sua carreira e revelou um episódio emblemático envolvendo a final do Australian Open de 2017 contra Nadal.
Segundo ele, antes da partida, sua equipe passou horas analisando padrões de saque do espanhol em situações muito específicas de jogo. Em determinado momento da final, surgiu exatamente o cenário previsto pelas estatísticas: um placar específico em um lado específico da quadra.
Os dados indicavam que Nadal teria 85% de chance de sacar em determinada direção, mesmo contrariando o comportamento mais tradicional do rival. Federer decidiu confiar nos números. “Pensei: vou confiar no analytics”, confidenciou.
Nadal sacou exatamente onde os dados indicavam. Federer venceu o ponto. Mesmo assim, ele fez questão de relativizar. “Analytics pode ajudar. Mas também pode confundir muito”, afirmou. No final, disse que o mais importante é compromisso total com a decisão tomada. “Qualquer coisa que você faça na vida precisa ser feita com enorme comprometimento e confiança”, sintetizou.
Peso da alta performance
Federer também falou sobre pressão psicológica e talvez este tenha sido um dos trechos mais conectados ao mundo corporativo. Segundo ele, a parte mental nunca esteve restrita aos momentos decisivos de uma partida. O verdadeiro desgaste vinha da rotina permanente ao redor da carreira.
“Tem pressão das redes sociais, imprensa, patrocinadores, viagens, representação do seu país, da sua cidade, do seu time”, contou. Para lidar com esse cenário, disse que frequentemente tentava colocar tudo em perspectiva. “Tudo o que queria é perseguir uma bolinha amarela”, brincou.
Ele também criticou a forma como muitos atletas, e pessoas em geral, passam a associar completamente identidade a vitória ou derrota. “Quando vencem, acham que são incríveis. Quando perdem, acham que não valem nada”, assinalou.
Para Federer, identidade está em outra camada. “Quem você é está na forma como trata outras pessoas, em como trabalha duro e em como vive sua vida”, pontuou.
Aposentadoria com legado
Ao falar sobre aposentadoria, Federer surpreendeu pela naturalidade. Disse que sente falta de entrar em grandes estádios, mas não da pressão permanente da competição.
“Espremi aquele limão até a última gota”, afirmou, ao explicar que sente ter vivido tudo o que poderia no tênis. Hoje, diz aproveitar a possibilidade de estar mais presente com os filhos e viver sem o peso constante de uma próxima partida importante. “A aposentadoria tem sido maravilhosa”, resumiu.
Questionado sobre quais valores gostaria de deixar para a próxima geração, respondeu quase imediatamente: “Respeito, gratidão e reconhecimento.” Federer contou que ele e a esposa insistem constantemente nesses valores em casa e esperam que isso permaneça com os filhos mesmo quando eles não estiverem por perto.
Ao mesmo tempo, destacou que uma parte importante de seu legado está na fundação criada há 20 anos, que já apoiou mais de 3 milhões de crianças no sul da África, região de origem de sua mãe.
*A jornalista viajou a convite da SAP
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