
O iFood ajuizou uma ação de concorrência desleal contra a Keeta Delivery Brazil e sua controladora chinesa, a Meituan, acusando as empresas de montar um esquema sistemático de espionagem corporativa para obter informações confidenciais sobre a operação do líder brasileiro de delivery. O processo foi protocolado na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem da Comarca da Capital do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
A ação é um desdobramento de uma investigação que começou no ano passado, quando um ex-funcionário do iFood foi alvo de uma operação da Polícia Civil de São Paulo, suspeito de ter vendido dados sigilosos da empresa para concorrentes.
Durante os depoimentos, o ex-funcionário admitiu ter participado de cinco entrevistas com a a consultoria China Insights Consultancy (CIC), onde confessou ter respondido a questionários sobre informações estratégicas do iFood.
Segundo Lucas Pittioni, Vice-Presidente Jurídico do iFood, a empresa identificou que todas as reuniões haviam acontecido por meio da plataforma Zoom, e entrou com uma ação nos Estados Unidos para que fossem revelados os e-mails usados pelos participantes da conversa.
“Confirmamos que, além dos entrevistadores da consultoria, estavam participando das reuniões pessoas com e-mails corporativos da Meituan. Alguns do Brasil, outros de China e Singapura. A partir disso, estamos entrando com as medidas cabíveis no Brasil para entender o que eles armazenaram e o que estão fazendo com essa informação”, explica Lucas.
Esse caso, porém, não foi isolado. Segundo o iFood, cerca de 240 colaboradores da empresa teriam sido assediados ao longo de mais de um ano por mais de 30 consultorias, oferecendo pagamentos por participação em “conversas remuneradas” sobre o mercado de delivery no Brasil.
As primeiras abordagens suspeitas coincidiram com o período em que a Keeta preparava sua entrada no mercado brasileiro, anunciada oficialmente em maio de 2025 com aporte inicial de R$ 5,6 bilhões. A empresa iniciou operações no litoral paulista em outubro do mesmo ano, expandindo em seguida para a Grande São Paulo. No entanto, enfrentou turbulências, com o adiamento da sua chegada ao Rio de Janeiro e a demissão de 200 funcionários.
“Quando a gente começou a viver essa nova onda de competição no mercado de delivery, uma coisa que aconteceu ao mesmo tempo foi um assédio muito forte dos nossos funcionários para captura de informações. E eram perguntas muito específicas, por exemplo, qual a margem do iFood em determinada cidade, qual o custo de aquisição de clientes, qual a penetração nas classes A, B e C. São perguntas que permitiriam à empresa concorrente fazer uma estratégia mais taylor made para competição”, conta o VP Jurídico do iFood.
A estratégia, segundo o iFood, foi desenhada para parecer legítima. As consultorias atuavam como intermediárias, sem revelar o cliente final interessado nas informações — o que, na visão da empresa, caracteriza espionagem empresarial encoberta por aparência de pesquisa de mercado.
A ação é baseada nos artigos 195 e 209 da Lei de Propriedade Industrial (LPI). O iFood enquadra a conduta em dois incisos do artigo 195: o inciso IX, que tipifica como crime de concorrência desleal oferecer dinheiro a funcionário de concorrente para que ele proporcione vantagem; e o inciso XII, que trata da exploração de informações confidenciais obtidas por meios ilícitos ou mediante fraude.
Para a empresa, não é preciso que o funcionário abordado sequer aceite a oferta para que o ilícito esteja configurado — basta que a oferta tenha sido feita.
No processo, o iFood pede ao juízo que declare a prática de concorrência desleal, determine que as requeridas se abstenham de continuar abordando seus funcionários — diretamente ou por consultorias — e proíba a divulgação ou uso de qualquer informação já obtida, sob pena de multa diária de R$ 100 mil. Além disso, requer indenização por danos morais de R$ 1 milhão e danos materiais a serem apurados em liquidação de sentença.
Em entrevista ao Startups, o VP Jurídico do iFood destaca que o aspecto monetário é o menos importante da ação. “O nosso foco é entender como a gente passa uma régua e estabelecer que não é assim que se compete no Brasil, que existem linhas que não devem ser cruzadas”, diz.
O que diz a Keeta
Procurada pela reportagem, a Keeta informou que defende um mercado aberto e justo e, para isso, está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade com todos os requisitos locais. “A empresa reforça que não contrata terceiros para abordar indivíduos em seu nome para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação. A Keeta segue rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e possui políticas internas robustas e transparentes quanto ao uso de dados”, acrescenta a nota.
A companhia informou ainda que a Polícia Civil abriu uma investigação sobre alegações de ataques coordenados de espionagem contra a Keeta e restaurantes em Santos, após o lançamento da operação na cidade. Segundo a plataforma, pelo menos oito restaurantes locais teriam sido abordados por indivíduos que se apresentavam como supostos funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo pedidos aceitos e despachados, informações financeiras (métodos de pagamento dos consumidores, práticas de remuneração de entregadores, taxas de comissão e modelos de contratação), processos de integração e treinamento de restaurantes, cardápios, preferências dos consumidores e outros dados sensíveis.
“A Keeta reitera seu total compromisso com um ambiente de concorrência livre e justa, baseado nas melhores práticas de mercado, e se coloca à disposição para cooperar com as autoridades sempre que necessário”, finaliza.
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