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Palestra feita durante o Web Summit Rio 2026
Palestra feita durante o Web Summit Rio 2026 (Imagem: Divulgação)

“Muita gente acha que o produto é a tokenização. Na verdade, tokenização é infraestrutura”, a frase é de Césario Martins, CEO da Zoop, e resumiu o tom do painel “O básico da tokenização: o que é, como funciona e por que é importante”, realizado no Web Summit Rio 2026. Ao lado de Michael Nicklas, managing partner da Valor Capital Group, e com mediação de Gustavo Ribeiro, cofundador e editor-chefe do The Brazilian Report, o executivo defendeu uma visão mais pragmática sobre o tema: menos fascínio pela tecnologia e mais foco no valor que ela cria para empresas, investidores e consumidor

Depois de anos sendo tratada como uma promessa sempre “a dois anos de distância”, a tokenização começa a ganhar uma leitura mais concreta no mercado financeiro. O debate já não gira apenas em torno de criptoativos, mas de como redes blockchain podem simplificar processos complexos do mercado de capitais, reduzir intermediários e criar novas formas de acesso a crédito e financiamento.

O mercado, no entanto, ainda está no começo. Gustavo Ribeiro lembrou que existem hoje cerca de US$ 500 bilhões em ativos do mundo real tokenizados, volume que parece expressivo, mas ainda é cerca de 40 vezes menor que o mercado global de ETFs, estimado em mais de US$ 20 trilhões. Além disso, entre 80% e 85% desse montante está concentrado em stablecoins, principalmente ativos atrelados ao dólar americano.

Tokenizando

Tokenizar um ativo significa criar sua representação digital em uma rede blockchain, como Bitcoin, Ethereum ou Solana, usando criptografia para registrar propriedade, movimentação e regras de uso.

“O processo de tokenizar um ativo, seja dólar, carro ou prédio, é basicamente fazer o cadastro numa rede de blockchain”, explicou Michael.

Segundo ele, a diferença está no que essa camada permite fazer. Como as redes blockchain são abertas e verificáveis, é possível acompanhar quando um ativo foi criado, transferido ou alterado, com uma camada de segurança baseada em criptografia. Além disso, contratos inteligentes permitem programar regras e fracionar ativos de alto valor, ampliando o acesso de investidores que antes ficariam fora de determinados mercados.

Para o executivo da Valor Capital Group, o avanço depende de legislação adequada, conhecimento técnico fora do universo DeFi, padrões de segurança e confiança para que bancos e instituições tradicionais operem nesse novo ambiente. A tokenização, portanto, não esbarra apenas na tecnologia. Esbarra também na capacidade de conectar inovação, regulação e confiança institucional.

Já Cesário trouxe a discussão para o contexto das empresas que precisam criar soluções financeiras dentro dos seus próprios ecossistemas. “A Zoop atua como uma infraestrutura de finanças embarcadas, permitindo que companhias ofereçam produtos como pagamentos, contas digitais e crédito aos seus clientes, parceiros ou fornecedores”, comentou.

Um dos exemplos citados no painel foi o iFood Pago, que roda sobre a arquitetura da Zoop. A partir dessa lógica, empresas conseguem construir serviços financeiros próprios sem necessariamente desenvolver toda a infraestrutura regulatória e tecnológica do zero.

Segundo Cesário, quando uma companhia decide criar a “fintech da sua empresa”, ela rapidamente se depara com uma pergunta central: como financiar esse serviço financeiro? É nesse ponto que o mercado de capitais entra na conversa e que a tokenização pode gerar impacto prático.

“O mercado de capitais muitas vezes é a fonte principal de financiamento. Mas ele é complexo, tem muitos intermediários e muita regulação. Quando você coloca esses intermediários dentro de uma única rede, os processos ficam muito mais simples e eficientes”, afirmou.

Para ele, a tokenização pode reduzir custos, ampliar o acesso ao mercado de capitais e acelerar soluções de crédito e financiamento para empresas. O ganho está em transformar fluxos hoje fragmentados em processos mais integrados, rastreáveis e programáveis.

Drex

A conversa também passou pelo DREX, o real digital desenvolvido pelo Banco Central. Cesário lembrou que a proposta do projeto é simplificar a movimentação de ativos, em uma lógica semelhante ao impacto que o Pix teve sobre a movimentação de dinheiro.

Segundo ele, os testes anteriores mostraram que havia valor claro na aplicação de blockchain em ambientes regulados, especialmente para simplificar processos e melhorar conciliação. O desafio, no entanto, estava em combinar três elementos ao mesmo tempo: descentralização, privacidade e programabilidade.

O executivo afirmou que novas tecnologias de privacidade podem reabrir essa discussão. Segundo ele, há iniciativas sendo organizadas com instituições como Fenasbac, Boost Learning, VERT Capital e Ethereum Foundation para testar se as soluções mais recentes conseguem atender aos requisitos necessários para colocar a tokenização a serviço da economia regulada.

Na visão dos painelistas, o Brasil tem uma posição privilegiada nesse processo. Michael destacou o papel do Banco Central brasileiro como um diferencial competitivo do país. Para ele, em vez de enfrentar a concentração bancária apenas por meio de medidas antitruste, o regulador criou condições para que as fintechs competissem no mercado.

Esse movimento ajudou a viabilizar inovações como Pix, Open Finance e DREX. Michael citou que o Open Finance brasileiro já conecta mais de 800 instituições, tornando-se uma das maiores experiências de portabilidade de dados financeiros do mundo.

Martins encerrou com um conselho direto para empreendedores, executivos e investidores que pretendem atuar nessa área: não se apaixonar pela tecnologia antes de entender a dor do cliente.

“As pessoas não compram tecnologia. Elas compram soluções para as suas dores. Quem estiver empreendendo nessa área tem que garantir que aquilo traz valor real para o cliente”, afirmou.

O post Zoop no Web Summit Rio: tokenização deixa de ser hype e vira infraestrutura para o mercado financeiro apareceu primeiro em Startups.