
Comissão Europeia | Foto: Paul Devlin/Web Summit via Sportsfile
O tema da soberania tecnológica vem ganhando força com o avanço da inteligência artificial, com países cada vez mais preocupados em defender o controle sobre seus dados e a tecnologia que é a base da sua inovação. A Europa é uma das regiões que tem buscado ativamente reduzir sua dependência de gigantes norte-americanas e asiáticas, direcionando investimentos para startups e empresas de tecnologia locais.
Esse processo, porém, não significa o isolamento do continente europeu, destacou Henna Virkkunen, Vice-Presidente Executiva para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia da Comissão Europeia, durante o Web Summit Rio 2026.
“Não estamos planejando fazer tudo sozinhos. Não é realista e nem necessário. Mas precisamos identificar quais são os setores críticos onde é importante termos nossa própria capacidade, ao mesmo tempo em que trabalhamos de perto com parceiros de confiança”, disse ela, citando o Brasil como uma dessas nações com as quais é possível cooperar.
A executiva contou que seguirá do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira, diretamente para Brasília, onde assinará um acordo de parceria digital entre a União Europeia e o Brasil, abrangendo conectividade, dados e economia digital.
“Um parceiro de confiança, como o Brasil, é aquele comprometido com mercados abertos, tecnologia segura e uma ordem baseada em regras, além de ser um parceiro confiável e disposto a cooperar. Podemos colaborar em pesquisa, inovação, cibersegurança e conectividade. No início deste ano, assinamos o acordo comercial com o Mercosul, e agora queremos ampliar a cooperação tecnológica”, afirmou.
Na semana passada, a Comissão Europeia apresentou o Pacote de Soberania Tecnológica, um conjunto de medidas para reforçar a autonomia digital da UE. Entre os principais eixos estão o fortalecimento da capacidade de computação em nuvem, a expansão de data centers e o avanço na produção de semicondutores. A meta é triplicar a capacidade de data centers do bloco até 2030, com foco em eficiência energética, dado o impacto ambiental que essa expansão pode gerar.
Apoio a startups e “fábricas de IA”
Na área de inteligência artificial, Henna ressaltou que a Europa possui bases sólidas para competir globalmente. Segundo ela, o continente conta com 30% mais engenheiros de IA per capita do que os Estados Unidos, além de cerca de 8 mil startups dedicadas ao desenvolvimento e ao treinamento de modelos.
Para viabilizar esse crescimento, a União Europeia tem trabalhado em múltiplas frentes de apoio ao ecossistema de startups. Henna destacou que um dos maiores obstáculos enfrentados historicamente pelas empresas do bloco é a dificuldade de escalar os negócios dentro da própria Europa.
Como forma de contornar esse problema, o bloco tem investido na remoção de barreiras entre os Estados-membros, na simplificação do ambiente regulatório e na ampliação do acesso a financiamento.
O principal gargalo tem sido a falta de capacidade computacional, problema que o bloco tenta resolver com investimentos em 19 fábricas de IA distribuídas pelos países-membros. “Em um ano, teremos cinco vezes mais capacidade computacional do que temos hoje”, projetou.
Essas “fábricas de IA” são supercomputadores e data centers interligados que fornecem a infraestrutura, o poder computacional e o armazenamento necessários para o desenvolvimento e o treinamento de modelos avançados de inteligência artificial. Diferentemente de data centers convencionais, essas instalações são projetadas especificamente para as demandas intensivas do processamento de IA, funcionando como uma espécie de plataforma compartilhada de alto desempenho.
Segundo a executiva, isso permitirá que startups treinem e desenvolvam modelos sem precisar depender de infraestrutura estrangeira. “Queremos tornar a Europa mais fácil, rápida e simples para os negócios”, resumiu a vice-presidente.
Briga com a Apple
Apesar do potencial, a adoção da tecnologia ainda enfrenta resistências no setor produtivo europeu. Dados citados pela VP da Comissão Europeia mostram que apenas 20% das empresas do bloco utilizavam IA no ano passado. Para ela, no entanto, a corrida pela liderança em IA está longe de ser decidida. “Os vencedores serão aqueles que souberem capturar os benefícios da IA e construir sua produtividade com as novas tecnologias”, disse.
O bloco também enfrenta tensões com grandes plataformas digitais. Um caso recente é o da Apple, que anunciou que não lançará sua nova funcionalidade de IA da Siri na União Europeia, alegando incompatibilidade com o Digital Markets Act, legislação que obriga empresas dominantes a abrirem suas plataformas para concorrentes.
Para Henna, a decisão é da própria empresa. “Não há nada no DMA que impeça a Apple de lançar novos produtos na Europa. O que exigimos é que empresas com posição dominante não fechem os mercados e não impeçam outras inovações de chegarem aos consumidores”, explicou.
Sobre o AI Act, regulamentação de IA mais abrangente em vigor no mundo, a executiva defendeu que o texto já contempla os avanços recentes, incluindo os agentes de IA. “É uma abordagem baseada em risco e tecnologicamente neutra. Os agentes de IA normalmente fazem parte da IA generativa, que já está coberta pela legislação”, argumentou, acrescentando que a implementação será feita de forma favorável à inovação, com apoio especial a pequenas e médias empresas.
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