
Em um continente que destina quase 10% do PIB à saúde, mas convive com metade dos médicos por habitante dos países ricos, a aposta é que IA aumente a produtividade e faça a conta fechar. É com essa tese que a Telepatia AI quer emplacar sua tecnologia de copiloto clínico, e atraiu a Andreesen Horowitz (a16z) para impulsionar seus planos.
A startup acabou de levantar uma Série A de US$ 33 milhões com o fundo gringo, em um dos maiores deals já feitos por uma healthtech latina neste estágio. Com a rodada, a Telepatia soma cerca de US$ 42 milhões em investimentos, a maior parte deles captada em pouco mais de meio ano.
Também entraram na rodada investidores-anjo de renome como Shyam Sankar, CTO da Palantir, Simón Borrero, fundador da Rappi, e David Vélez, fundador do Nubank.
Segundo destacou a healthtech em primeira mão para o Startups, o capital servirá para acelerar a expansão da companhia na América Latina, com foco especial no Brasil e na Colômbia, país onde nasceu o fundador e CEO Nicolás Abad.
Apesar do foco também em seu país natal, o Brasil é um grande terreno para impulsionar o crescimento da empresa. Segundo ele, o país tem um dos maiores sistemas de saúde do mundo, uma das maiores populações e uma longa fila de espera.
“Queremos trazer o nível do Vale do Silício para resolver problemas da América Latina. O Brasil é o lugar para isso”, afirma o fundador, que atualmente reside no Brasil.
Atualmente, a plataforma clínica de IA já está em operação em mais de 20 sistemas hospitalares no Brasil, na Colômbia, na Argentina, no Chile e no México, atendendo mais de 14 milhões de pacientes.
Apesar do crescimento, a cobertura da Telepatia ainda é irrisória perto do cenário total e do mercado endereçável. A América Latina reúne um mercado de saúde de US$ 700 bilhões, mas segue, nas palavras da própria empresa, “subestimada” e mal servida por tecnologia. Brasil e Colômbia têm cerca de dois médicos por mil habitantes, metade da média dos países desenvolvidos.
Mudando padrões
Agora um pouco de contexto: Telepatia era o apelido do pai de Nicolás Abad, médico que morreu aos 58 anos por uma causa que o fundador considera evitável. Quatro das cinco pessoas mais próximas de Abad são médicos, e foi dessa convivência que nasceu a tese de atacar dois males do sistema de saúde de uma vez: a sobrecarga dos profissionais e as mortes que poderiam ser evitadas com um atendimento mais preciso.
“Estamos construindo o produto que poderia ter salvado meu pai como paciente, e que ele teria amado como médico”, afirma Nicolás Abad, em nota.
A ferramenta acompanha a consulta, transcreve o atendimento, estrutura o prontuário automaticamente e sugere condutas com base em evidências, protocolos institucionais e literatura atualizada. Ela funciona em celular, computador e também offline, pensada para atender médicos em diferentes contextos.
O que começou como uma “IA Redatora” virou uma família de agentes que hoje inclui IA Conselheira, IA Enfermeira e IA Auditora, dando aos hospitais visibilidade em tempo real sobre a operação clínica.
Por conta da dor que busca atender, a solução da Telepatia não demorou muito tempo para se validar. Antes da Série A, a Telepatia havia captado uma rodada seed de US$ 9 milhões, liderada pelo fundo americano A-Star (que já apostou em Palantir e SpaceX), com participação de Canary, Picus Capital, Abstract Ventures e SV Angel. À época, o produto vinha de uma validação na Colômbia, em cerca de 15 instituições e 2 mil médicos.
Segundo dados divulgados pela healthtech, desde o lançamento comercial, em julho de 2025, a plataforma atingiu 90% de adoção institucional, com médicos usando o produto em média oito horas por dia. A aderência a protocolos clínicos subiu de 84% para 99%, e cada profissional economiza, em média, 1,7 hora por dia.
“A IA não substituirá os médicos, mas médicos usando IA vão redefinir o padrão de atendimento”, avalia Daisy Wolf, sócia da a16z, que enxerga na startup o raro caso em que a adoção real “transforma a IA de promessa em infraestrutura”.
“O verdadeiro teste de qualquer ferramenta clínica é saber se os médicos de fato a utilizam. Nossos médicos usam a Telepatia oito horas por dia. Nunca vimos uma adoção como essa. Isso é retorno sobre investimento quantificável”, completa José Henrique Dias Salvador, CEO da rede de hospitais Mater Dei.
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