
Fechar um câmbio no modelo tradicional pode custar caro, e não falo apenas da taxa. Entre pedir a renovação de um limite, atualizar um cadastro e esperar a resposta do chat do banco, os valores podem flutuar. De olho nessa fricção, e com IA no core para acelerar este processo, a Aurex quer trazer um diferencial para o mercado.
Fundada um ano atrás por Felipe Sabino, Lisandra Branco e Henrique Saavedra, executivos com conhecimento no segmento, a fintech criou uma plataforma AI-first para orquestrar toda a jornada do cliente, utilizando stablecoins para liquidar pagamentos e fazer transferências fora do SWIFT.
A plataforma usa IA para qualificar o cliente, automatizar o onboarding (lendo fichas cadastrais e preenchendo dados sozinha) e rotear cada operação para o provedor regulado certo, comparando cotações e escolhendo o melhor preço entre dezenas de parceiros – são 14 provedores contratados, 5 já ativos, com acesso a mais de 90 países.
“Isso era muito difícil de fazer antes da AI”, diz o CEO Felipe Sabino, em conversa com o Startups, frisando que a diferença é gritante. “Eu já liquidei pagamento em stablecoin e via SWIFT. É incomparável em eficiência, velocidade e rastreabilidade”, avalia.
Ainda operando em stealth mode, a plataforma da Aurex já roda com dois clientes-piloto, mas o fundador afirma que mais de R$ 100 milhões foram transacionados nela em 2025. E, diferente da cartilha de boa parte das startups, nasceu no azul. “A companhia sempre foi rentável. Desde o dia zero o fluxo de caixa foi positivo”, diz o CEO.
De operador a fundador
Para Felipe Sabino, a Aurex é, antes de tudo, a evolução de uma carreira. Com mais de 12 anos de experiência no setor, passando por mesas de câmbio em instituições como Itaú BBA e XP, ele começou a “virar a chave” para fundador quando estava à frente da área de câmbio da Monte Bravo, onde era sócio.
Foi atendendo empresas estrangeiras que chegavam à América Latina, caso da Okto, que ele enxergou a dor: seu maior trunfo, a relação próxima com os bancos, não era escalável para todos os países ao mesmo tempo. A saída foi colocar tecnologia onde a mão não alcança.
Segundo o fundador, o foco é B2B, com duas frentes de atuação: o atendimento direto e um modelo B2B2C, em que escritórios de investimento, instituições de pagamento e até bancos plugam o câmbio-as-a-service da Aurex para oferecer aos próprios clientes.
“Nosso cliente ideal está nas empresas médias, com faturamento entre R$ 50 e R$ 200 milhões, em que o sócio geralmente é quem toma a decisão do dia a dia, e as operações de câmbio sempre passam por ele. É uma fatia relevante do mercado”, explica Sabino.
As metas, segundo o fundador, são propositalmente conservadoras. A projeção é fechar o ano em pelo menos R$ 250 milhões transacionados, chegar a R$ 500 milhões no ano seguinte e cravar R$ 1 bilhão em 2028. A cautela tem motivo: há um gargalo represando o crescimento, e ele não é tecnológico.
O nó é regulatório
“O esforço hoje é 50% regulatório, 40% tecnologia e 10% comercial. Se a tecnologia estiver boa, que já está, e o regulatório estiver ok, o volume virá”, resume Felipe. O desafio aparece na hora de fechar com os grandes clientes: empresas listadas, com boards complexos, topam testar, mas exigem que a Aurex seja autorizada pelo Banco Central para liberar a operação.
Para destravar seu crescimento, a fintech avalia dois caminhos. Um deles é tirar uma licença própria de prestadora de serviços de ativos virtuais, hoje limitada a US$ 100 mil por operação. O outro é ir atrás de uma licença de banco de câmbio, sem teto e capaz de abarcar também o câmbio tradicional. Mas há um favorito. “A gente tem a preferência de chegar com uma proposta de ser banco de câmbio full”, diz.
Enquanto a régua regulatória não vira, há volume represado. Sabino afirma ter “alguns bilhões de reais” de câmbio mapeados na própria base de clientes. Segundo ele, em um mercado em que IA e stablecoin estão “muito quentes”, quem tiver a estrutura pronta já larga na frente. “Assim que estivermos aderentes à regulação, esse volume pode chegar à marca do bilhão em cerca de um ano”, aposta.
O plano de expansão acompanha o regulatório: o roadmap inclui México, Argentina e Chile como prestadores de serviços de ativos virtuais, além de uma estrutura nos Estados Unidos, mercado-chave pela regulação das stablecoins, puxada pelo Genius Act, e pelo capital que circula por lá.
Para acelerar, a Aurex começa a namorar investidores. Sabino conta que já conversou com dois fundos estrangeiros e que duas instituições financeiras o procuraram, podendo virar tanto parceiras quanto sócias. Mas o critério não é o cheque, já que a empresa bateu o breakeven há tempos.
“Sócio só pela grana não é o que buscamos. Sócio que compõe licença, que faça sentido pelo networking, não só com investidores, mas até com reguladores, esse smart money é o que nos interessa”, finaliza.
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