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Márcio Stefanni, diretor financeiro, de crédito e de captação da Finep | Foto: Divulgação
Márcio Stefanni, diretor financeiro, de crédito e de captação da Finep | Foto: Divulgação

Os últimos três anos representaram um período de retomada para a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a empresa pública participou da constituição de seis Fundos de Investimento em Participações (FIPs) desde 2023, sendo quatro apenas este ano. Ao todo, a agência comprometeu cerca de R$ 460 milhões nesta modalidade.

“Olhando para trás, a gente nunca investiu tanto. E, olhando para frente, parece que a gente vai investir mais, porque o fundo continua sendo alimentado pelas suas fontes. Nós estamos irrigando o sistema”, afirma Márcio Stefanni, diretor financeiro, de crédito e de captação da Finep, em entrevista ao Startups.

Com o mercado de venture capital enfrentando dificuldades para a captação de recursos, graças a um período de juros elevados que já dura quase dois anos, a entrada de instituições de fomento como a Finep e o próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acabou ocupando uma lacuna no financiamento de startups.

Desde 2025, a Finep e o BNDES lançaram editais para escolher gestoras de venture capital para quatro fundos. Entre eles, o FIP Transição Energética e Descarbonização, que também contou com aporte da Petrobras, e tem capital mínimo de R$ 240 milhões, com objetivo de chegar de R$ 500 milhões. A gestora escolhida para esse fundo foi a Valetec.

Ainda no ano passado, a gestora KX Ventures foi escolhida para o fundo FIP Complexo Econômico da Saúde, em parceria com a Fundação Butantan, com capital mínimo de R$ 200 milhões e meta de até R$ 350 milhões.

Os outros dois foram o FIP Conexões Startup, com um capital-alvo de R$ 250 milhões, que está em período de chamada pública, e o FIP de Inteligência Artificial, com estimativa de mobilizar até R$ 500 milhões. O edital recebeu 17 propostas de gestores e está avançando no processo de seleção.

Recentemente, a Finep e o BNDES também realizaram aportes no fundo Antler Brasil I, o primeiro veículo de investimentos brasileiro da gestora global de venture capital.

“Com a taxa de juros muito alta, o dinheiro some do capital de risco. É nessa hora que as instituições de fomento, que resistem, precisam aparecer. Existe uma janela de oportunidade muito grande no Brasil e acreditamos que, por meio dos fundos, as nossas startups podem se desenvolver, trazendo inovação para o país”, observa Márcio.

Recursos com objetivo estratégico

O aumento da capacidade de financiamento da instituição vem depois de um longo período de contingenciamento da Finep, em especial do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), no qual a agência tem o papel de secretaria executiva. Esse corte de verbas, que foi mais intenso entre os anos de 2015 a 2022, foi encerrado por meio da Lei Complementar nº 177/2021, que transformou o FNDCT em fundo financeiro e buscou impedir novos contingenciamentos. Entretanto, dispositivos posteriores e medidas orçamentárias ainda limitaram parte da execução dos recursos em 2021 e 2022.

Em março de 2023, o governo atual encaminhou ao Congresso um projeto para liberar R$ 4,18 bilhões que permaneciam contingenciados, permitindo a recomposição integral dos recursos do FNDCT. Isso elevou o orçamento disponível para cerca de R$ 10 bilhões em 2023 e R$ 12,6 bilhões em 2024. Em 2025, o orçamento aprovado do FNDCT foi estabelecido em R$ 14,7 bilhões, e de R$ 17,7 bilhões em 2026.

O objetivo por trás do aumento orçamentário para o fundo está ligado à Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial lançada pelo governo federal em janeiro de 2024, com a meta de modernizar a indústria nacional e garantir a soberania tecnológica do país até 2033.

A dimensão regional também aparece como parte importante da política de investimentos da Finep, com o objetivo de fomentar a inovação em regiões onde historicamente há menos fluxo de capital, como Norte e Nordeste.

“Então, de um lado, a gente tem o dinheiro. Do outro, a gente tem o caminho, que é esse norte, essa política pública”, diz Márcio Stefanni, da Finep, que destaca: “Política de desenvolvimento não é política de um governo só, é algo que leva anos. Nós somos uma instituição de Estado. Nosso compromisso é com o stakeholder, que é o povo brasileiro”.

Para o executivo, a destinação de recursos para o empreendedorismo e a inovação completa um ciclo que começa na educação básica, passa pelas universidades, e chega até a população através das soluções e tecnologias que são desenvolvidas nesse caminho.

“É um sistema. Não há uma grande universidade brasileira que não tenha um laboratório financiado pela Finep. Então você forma as pessoas, fornece a infraestrutura, e aí você espera que ela vá ao mercado e dê um retorno social”, explica.

A ideia é que esse ciclo seja retroalimentado por meio dos retornos obtidos com os investimentos da Finep nas empresas. “Selecionamos os fundos e seus gestores a partir de uma tese de investimento definida. A partir daí, começa o período de investimento, seguido pela maturação dessas empresas até a saída, quando o capital retorna e recicla os recursos da política pública”, diz Márcio.

Conheça os fundos

A ofensiva recente da Finep em FIPs inclui iniciativas em diferentes estágios de maturação e com recortes setoriais e regionais distintos:

  • FIP Transição Energética e Descarbonização — assinado entre Finep, Petrobras e BNDESPAR, com até R$ 500 milhões em capital comprometido e aporte de até R$ 60 milhões da Finep via FNDCT. Terá a Valetec como gestora e mirará empresas com MVP validado em energias renováveis, biocombustíveis, hidrogênio de baixo carbono, captura de carbono e eletromobilidade.
  • FIP Conexões Startups — capital-alvo de R$ 250 milhões e aporte de até R$ 50 milhões da Finep, voltado a startups que já passaram por programas como Centelha, Inovacred, Subvenção Econômica, Tecnova e Mulheres Inovadoras, com faturamento anual de até R$ 20 milhões.
  • FIP Antler Brasil I — meta de R$ 250 milhões, podendo chegar a R$ 400 milhões, com aporte de R$ 30 milhões da Finep. Focado em estágio early-stage e pré-seed, o fundo ajudou a atrair cerca de R$ 60 milhões de investidores estrangeiros, puxado pela presença de instituições de fomento nacionais como BNDES, Badesul, BRDE e Fomento Paraná.
  • FIP de Inteligência Artificial — pode mobilizar até R$ 500 milhões, com até R$ 80 milhões vindos da Finep. Alinhado ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), o edital já recebeu 17 propostas de gestores.
  • FIP Complexo Econômico da Saúde (CEIS) — parceria com BNDESPAR e Fundação Butantan, com capital mínimo de R$ 200 milhões e meta de R$ 350 milhões, dos quais até R$ 60 milhões vêm da Finep, voltado a empresas de biotecnologia e inovação em saúde.
  • FIP Nordeste Capital Semente — o mais avançado do novo ciclo, já com duas investidas em Pernambuco selecionadas pela gestora Triaxis. Reúne R$ 40 milhões da Finep, R$ 40 milhões do Banco do Nordeste e R$ 40 milhões do Sebrae, somando R$ 120 milhões para startups sediadas na área de atuação do BNB — os nove estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais e o Espírito Santo.

Também estão em andamento o FIP Criatec 4 ASG e o FIP GovTech, além de uma chamada em fase final para dois fundos voltados a sustentabilidade e economia da biodiversidade.

 

O post Finep: “A gente nunca investiu tanto. Estamos irrigando o sistema” apareceu primeiro em Startups.