
A Ecotrace, agtech brasileira especializada em rastreabilidade de commodities do agronegócio, acabou de fechar uma nova rodada, e o cheque partiu da estreante GS1 Ventures, CVC criado no fim de 2024 pela Associação Brasileira de Automação (GS1 Brasil).
O primeiro cheque assinado pela GS1 Ventures não teve o valor divulgado, mas, segundo destacam o presidente da GS1, João Carlos de Oliveira, e o fundador e CEO da Ecotrace, Flávio Redi, ele está dentro da faixa de R$ 5 a R$ 10 milhões que a Ecotrace havia comunicado ao mercado em março, quando abriu a nova captação para bancar a abertura de escritórios na Europa e no Oriente Médio, a um valuation de aproximadamente R$ 60 milhões.
“A participação da associação na Ecotrace ficou entre 14% e 16%, dentro do modelo padrão definido pelo fundo para as próximas apostas”, disse João Carlos, em conversa com o Startups. Além disso, com o deal, a GS1 ganha uma cadeira no conselho da agtech.
A tecnologia da agtech integra blockchain, IA, visão computacional, IoT e geointeligência, cobrindo desde a verificação da origem, se a área fornecedora está regular ambientalmente e cumpre a legislação trabalhista, até o QR Code final na embalagem.
Entre os clientes estão nomes de peso do agro, como JBS, Minerva Foods, Seara e Frigol. A projeção da companhia é crescer entre 20% e 30% em 2026 e chegar a R$ 60 milhões de faturamento até 2028.
Use of proceeds
Conforme explica Flávio Redi, os recursos levantados contemplam um plano em três frentes. A primeira é a já mencionada expansão internacional, com foco na Europa e no Oriente Médio, regiões que absorvem parte relevante das commodities brasileiras rastreadas pela plataforma. A segunda é o avanço em novos segmentos: além de bovinos, aves, couro e algodão, a Ecotrace anunciou sua primeira operação em grãos, com uma parceria para rastrear o feijão da Kicaldo.
“Embora tenhamos uma forte atuação nas cadeias de bovinos e aves, a plataforma da Ecotrace foi desenvolvida para ser escalável e atender diferentes cadeias produtivas do agronegócio. Essa flexibilidade faz com que a plataforma possa ser adaptada a diferentes segmentos do agro, acompanhando as necessidades específicas de cada cadeia produtiva”, pontua o CEO.
A terceira frente de expansão está no mercado halal, atendido pela subsidiária Ecohalal, criada em 2024 com aporte próprio de R$ 6 milhões. Para dar uma ideia da escala, Flávio destacou que a empresa emitiu mais de 46 mil certificados halal ao longo do ano, cada um equivalente a um embarque de exportação. Só no rebanho bovino, foram 3,75 milhões de toneladas de carne e mais de 123 milhões de caixas rastreadas.
Segundo o CEO, o mercado halal global, avaliado em US$ 2,9 trilhões pela consultoria IMARC Group, é a próxima grande fronteira. “Mais do que atender a uma exigência religiosa, a rastreabilidade halal tornou-se um diferencial competitivo. Os importadores querem saber a origem dos produtos e se existe uma cadeia íntegra e auditável”, frisa o executivo.
Fundada em 2018 e com R$ 11,2 milhões captados em cinco rodadas anteriores, com investidores como KPTL e o fundo Criatec 3, entre outros, a Ecotrace chega a este momento em posição diferenciada, segundo destaca Flávio. “A companhia está com breakeven operacional, resultado de uma estratégia focada no crescimento sustentável, no aumento da recorrência de receitas e na disciplina na gestão dos custos. Hoje, o foco deixa de ser financiar a sobrevivência da operação e passa a acelerar oportunidades estratégicas.”
Por que o agro?
Do lado da GS1, uma associação historicamente conhecida por sua proximidade com setores como indústria e varejo, a escolha de uma agtech para ser a primeira investida é inesperada. Mas, segundo o presidente da entidade, foi um negócio circunstancial que, no fim, é representativo de como a associação está ativa em outras verticais.
“O agro é um dos segmentos-base da nossa tese, e a gente fica muito contente com esse aporte, pois o agro é um dos setores que mais está crescendo, inclusive diminuindo a diferença no uso de tecnologia em relação a setores como indústria e varejo”, explica o executivo.
Ao mesmo tempo, o executivo destaca que a Ecotrace trouxe algo específico que reforçou a tese: a possibilidade de a GS1 agregar conhecimento próprio de rastreabilidade e padronização ao negócio. “Independentemente do valor financeiro, o fator que nos levou a fecharmos com a Ecotrace é que nós podemos, por meio do nosso conhecimento em rastreabilidade, sustentabilidade e padrões, agregar valor ao negócio deles”, disse.
Criado no fim de 2024, o fundo é gerido em parceria com a aceleradora gaúcha Ventiur. Na época, o ticket médio previsto pelo fundo ficou entre R$ 5 e R$ 10 milhões, com participação entre 10% e 20% no capital.
Para fechar a conversa com o Startups, João Carlos adiantou que o pipeline do fundo promete movimento nos próximos meses. Duas novas investidas — uma da indústria e uma do varejo — estão em fase final de aprovação pelo comitê e devem ser oficializadas até o fim de 2026. “Antes do final do ano, a gente vai conversar de novo sobre uma segunda ou talvez até uma terceira rodada”, finaliza.
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