Skip to main content

Um cientista, usando máscara cirúrgica azul e luvas azuis, segura um tubo de ensaio contendo uma pequena planta verde imersa em um líquido azul. O fundo está desfocado, destacando o tubo de ensaio. Sobre a imagem, há ícones e símbolos científicos sobrepostos, como estruturas de DNA, fórmulas químicas, engrenagens e um símbolo de inteligência artificial, sugerindo um contexto de pesquisa em biotecnologia ou ciência avançada., longevidade

Por Mark Cardoso

Entre os oito eixos oficiais do VivaTech deste ano, evento europeu de tecnologia já em sua décima edição, um chamava atenção justamente por não soar tão tech: “Saúde e Longevidade“. Caminhando pelos três andares do pavilhão do evento, ficou claro o porquê. Os estandes que mais investiram dinheiro e narrativa de marca — Samsung e L’Oréal à frente — não falavam em curar doenças, mas em administrar o envelhecimento como quem administra dados.

A coreana Samsung resumiu sua aposta em um mote quase devocional: “um convite para um amanhã mais saudável”. Por trás dele, o conceito de connected care, com o Samsung Health organizado em cinco áreas (sono, atividade, nutrição, saúde mental e sinais vitais), o Galaxy Watch lendo marcadores cardíacos e até prevendo risco de desmaio, eesse é o ponto que importa — a ponte entre o bem-estar do dia a dia e a clínica, via Xealth, plataforma de saúde digital que a empresa comprou no ano passado.

O relógio deixa de apenas contar passos e passa a conversar com o consultório. No painel da marca, sentaram-se ao lado nomes como o da Generation Lab, que mede idade biológica, e o da SiPhox Health, de exames de sangue feitos em casa. Não por acaso, o estande exibia o Sipjangsaengdo (십장생도), a representação coreana dos dez símbolos da longevidade: o desejo mais antigo da humanidade, agora, plugado numa tecnologia wearable.

A L’Oréal foi na mesma direção, mas pelo ponto de vista da pele. Sob a tese “a longevidade está na pele”, apresentou sua Longevity Integrative Science e uma ‘nuvem’ proprietária, a Longevity AI Cloud, que, segundo a empresa, analisa mais de 260 biomarcadores para mapear o envelhecimento cutâneo em nível biológico e prever o efeito de um ativo antes mesmo do teste físico.

A empresa francesa somou a isso imagem 3D de alta resolução da pele viva, o Cell BioPrint, um laboratório de bolso que estima a idade biológica em menos de cinco minutos. Além disso, apresentou uma parceria com a biotech francesa Microphyt para extrair de microalgas a próxima geração de ativos dermocosméticos.

Leia mais: Como a Lenovo estruturou a operação tecnológica da Copa do Mundo da FIFA

Agora, o que se vê é uma IA que deixa de retocar fotografias e passa a ler o corpo.

Fora da feira, o pano de fundo é um setor de longevidade estimado em centenas de bilhões de dólares, no qual a IA já não serve só para diagnóstico: empresas como a Insilico e a Gero usam modelos para descobrir moléculas que atacam o envelhecimento na raiz, e a reprogramação epigenética – território de companhias como a Altos Labs, financiada por Jeff Bezos – promete, até mesmo, rejuvenescer células.

O denominador comum, repetido como mantra no setor, é a virada do discurso: de “antienvelhecimento” baseado em promessas para healthspan, que tem biomarcadores como base. Ao que parece, investidor e consumidor querem dados e comprovações… e não mais mera retórica.

aqui uma trajetória que ganha nitidez, no VivaTech, e que vale o destaque por começar a tomar corpo real: a IA migra da tela para a pele e da pele para a corrente sanguínea. Wearables que leem sinais vitais, laboratórios de bolso, exames caseiros, microrrobos cerebrais e cirurgia remota — todos discutidos em Paris! — desenham um futuro em que o corpo é um fluxo contínuo de dados a ser otimizado. Aa saúde mental entrou na dança, com painéis perguntando, sem ironia, se algoritmos conseguem escalar empatia (e até o momento, a resposta é: “não”).

É exatamente no entusiasmo de um futuro que já se torna presente que convém parar e pensar. Porque no meio dessas promessas, provas e contraprovas de um “mundo melhor” e de uma “vida humana melhorada”, há três ressalvas:

  • Desigualdade – se viver bem por mais tempo passa a depender de um ecossistema de aparelhos, assinaturas e diagnósticos, a desigualdade social pode se redesenhar por uma linha nova: o acesso às hipercapacidades – o tal augmented human – que a tecnologia oferecerá a corpos e mentes. Não é distopia. É uma pergunta de política pública que a feira não respondeu: quem terá direito a envelhecer devagar?
  • Subjetividade – transformar o envelhecimento em projeto gerenciável é resolver uma angústia humana antiga (a da finitude), convertendo-a em métrica. Mas é um projeto que não termina nunca, o que, na contramão, pode ser angustiante por si só. Há um risco real de que a promessa de longevidade venda, junto com o sérum e o relógio, uma hipervigilância permanente sobre o próprio corpo, em que cada noite mal dormida vira um indicador em queda de performance a ser compensado.O famoso francês Jacques Lacan já disse que, dos sentimentos humanos, a angústia é a única que não engana (ne trompe pas). Talvez, hoje, ele fosse categórico em dizer que a angústia como modelo de negócio pode ser um produto perversamente eficiente.
  • Responsabilidade – o deslocamento de “correção” para “prevenção”, celebrado nos palcos e painéis, é também um deslocamento de ônus: do sistema de saúde para o indivíduo, que agora responde pelo próprio healthspan. É emancipador, ainda que neurotizador, para quem pode; é mais uma cobrança angustiante para quem não pode.

Essas ressalvas surgem quando a gente se coloca atento diante da progressão veloz da tecnologia, na Era da IA. Mas nada disso anula o que há de genuinamente promissor acontecendo, entre diagnóstico precoce, medicina preditiva, além da autonomia de quem monitora a própria saúde com seriedade.

Mas o VivaTech 2026 deixou no ar abafado de uma Paris que enfrentava mais uma canicule (onda de calor extremo) uma questão que é menos técnica do que existencial: a IA já trabalha pela nossa longevidade e, literalmente, já entra nos nossos corpos. Falta decidir quem ela vai deixar viver mais… e em que essa promessa afeta a maneira com a qual nós nos relacionamos, humanamente, com o tempo que temos – ou que pensamos ter.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias