
As ações da Apple caíram quase 10% nesta sexta-feira (31) após a companhia apresentar uma previsão de receita abaixo das expectativas e sinalizar dificuldades para garantir componentes suficientes em meio à pressão que o avanço dos data centers voltados à IA vem exercendo sobre as cadeias globais de suprimentos. A informação é da agência Reuters.
Se a queda se mantiver até o fechamento do mercado, será o pior desempenho diário da ação desde a onda de vendas provocada pela pandemia, em março de 2020. O movimento reduziria em cerca de US$ 500 bilhões o valor de mercado da Apple e devolveria à Nvidia o posto de empresa mais valiosa do mundo — poucos dias depois de a fabricante de chips ter perdido a liderança para a Apple.
Tim Cook, amplamente reconhecido por sua expertise em cadeia de suprimentos, classificou a escassez como “muito significativa” e disse que a Apple tem opções limitadas para lidar com o problema. A declaração foi dada em sua última teleconferência de resultados como CEO. O executivo deixará o cargo em setembro, quando John Ternus assumirá a posição, e passará a atuar como presidente executivo do conselho (executive chairman).
“Se mesmo na escala da Apple eles estão dizendo que não têm nenhuma flexibilidade na cadeia de suprimentos, isso é muito ruim para todo mundo”, disse Ben Bajarin, CEO da consultoria de tecnologia Creative Strategies, à Reuters.
Pressão sobre a cadeia de suprimentos
Grandes empresas de tecnologia vêm disputando capacidade avançada de fabricação de chips e chips de memória para abastecer seus data centers de IA, o que tem provocado escassez e alta de preços. Segundo a Reuters, a expectativa é de que esse cenário reduza os mercados de computadores pessoais e smartphones neste ano.
A Apple vinha amortecendo parte do impacto do aumento nos custos de memória recorrendo a estoques acumulados. Cook afirmou, porém, que essa reserva está se esgotando, e a escassez de processadores tem impedido a companhia de atender à forte demanda por iPhones e Macs.
Na quinta-feira (30), a Apple projetou crescimento de receita de 9% a 11% para o trimestre atual, abaixo da estimativa de 12% de Wall Street. O desempenho mais fraco do negócio de serviços também ofuscou os resultados considerados fortes no trimestre encerrado em junho.
Preocupação dos investidores
A desaceleração no braço de serviços preocupou investidores justamente em um período de vendas fortes do iPhone, que costumam impulsionar essa frente de negócio. O segmento inclui uma parcela das compras feitas na App Store e reúne serviços como Apple Music e Apple TV.
Segundo a Reuters, essa desaceleração pode se aprofundar caso as vendas do iPhone sejam afetadas pelo aumento de preço esperado para o lançamento da nova linha, que costuma ocorrer em setembro.
“A capacidade de influência da Apple sobre a cadeia de suprimentos parece estar em questão, e não está claro se a IA está gerando algum impulso mensurável para produtos ou serviços, enquanto potencial de monetização no futuro ainda incerto”, afirmaram analistas do Morgan Stanley. “Na verdade, pode-se argumentar que a fraqueza da App Store seja resultado de uma reorganização no tempo que os consumidores dedicam à IA.”
Ainda assim, alguns analistas apontaram que o iPhone já passou por aumentos de preço sem registrar queda significativa na demanda e que um acordo recente entre Apple e Klarna para oferecer um programa de leasing nos Estados Unidos — permitindo que consumidores paguem mensalmente pelo uso dos dispositivos — pode amenizar o impacto.
Pelo menos quatro corretoras reduziram suas projeções para o preço da ação da companhia, enquanto três elevaram suas estimativas. Com isso, a projeção mediana passou a US$ 330, valor US$ 3 abaixo do fechamento da última sessão, segundo dados da LSEG. A ação acumula alta de 22,7% no ano até o fechamento de quinta-feira (30).
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